domingo, 10 de abril de 2011

Perspectivas


Há basicamente três perspectivas em que o ser humano pode avaliar o mundo e a si mesmo:
1- Não pensar no pensar
Aqui o homem atua mais através de suas emoções, principalmente a partir do medo e da busca pelo prazer. Desta perspectiva o mais importante são os sentimentos e as formas de apaziguar o medo e manter o prazer. Desta perspectiva surgem os mitos e as religiões. O importante não é a averigação intelectual da validade dos mitos ou dos dogmas, mas o grau de satisfação que estes dogmas ou mitos trazem para o ser humano. Nesta perpectiva não se valoriza o pensamento mas o sentimento/emoção. A fé é a base desta perspectiva.

2 - Pensar no pensar
Historicamente esta perspectiva iniciou-se com os gregos e originou primeiramente a filosofia e posteriormente a ciência. Nesta perspectiva o ser humano procura pensar sobre o pensamento, tentando entender como este funciona, suas características, seus limites, suas vantagens e desvantagens. No caso da filosofia esta perspectiva é utilizada de forma pura, valorizando mais o sujeito que pensa. No caso da ciência esta perspectiva é utilizada como uma forma de pensar criticamente para avaliar com metodologia apropriada (dentro desta perspectiva), os objetos que circundam o sujeito, e o própio sujeito. A lógica é a base desta perspectiva.

3 - Pensar no não pensar.
É a perspectiva das religiões orientais, onde se valoriza a ausência do pensamento , pois segundo esta perpectiva, o pensamento limita o ser, e portanto deve ser transcendido. A meditação é a base desta perspectiva.

Uma não perspectiva.
Todas as três perspectivas acima são maneiras de abordar o mundo e o ser humano, e existem essencialmente para cumprir a função básica do pensamento que é a capacidade de solucionar problemas e de descobrir motivos para os fenômenos. Há a possibilidade porém de uma quarta via que não é uma nova perspectiva, eu chamo de Não pensar no não pensar. Qualquer coisa que se diga sobre esta "quarta via" será dito de uma das três perpectivas acima, e portanto não será a quarta via. Historicamente tanto o oriente quanto o ocidente, tem representantes desta "quarta via", mas eles não compõe um grupo homogêneo, e quando vão falar sobre esta "quarta via" fatalmente falam a partir de uma das três perspectivas acima.


Lao Tsu, expressou bem esta "quarta via"ao afirmar:

"O Tao que pode ser falado não é o verdadeiro TAO"


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Mistério


"No silêncio da noite e na serena tranquilidade da manhã, quando o Sol começa a iluminar os montes, apercebemo-nos de um grande mistério. Este mistério está em todas as coisas vivas. Se nos sentamos debaixo de uma árvore, sentimos este velho planeta com todo o seu incompreensível mistério. Na quietude da noite, quando as estrelas cintilam e parecem estar muito próximas, temos consciência do espaço a expandir-se e da ordem misteriosa de todas coisas, do imensurável e também do nada, do movimento dos montes na escuridão e do grito da coruja.
Nesse completo silêncio da mente, o mistério vai aumentando, sem tempo nem espaço... A experiência é a morte desse indizível mistério...para estar em comunhão com esse mistério, a nossa mente, o todo que nós somos deverá estar no mesmo nível, sincronizado, com a mesma intensidade que isso a que chamamos misterioso. E isso é amor. Com este amor todo o mistério do universo se abre."

Krishnamurti

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jogue fora suas muletas


Assim que nasci recebi de meus pais o tradicional presente de nossa cultura milenar : um par de muletas.
Claro, eu era ainda muito pequeno para tentar caminhar, mas era sempre assim. Por precaução todo recém-nascido recebe o par de muletas, afinal nunca se sabe quando a criança tentará dar seus primeiros passos.
No meu caso demorei mais do que outros para caminhar, mas logo mamãe com todo o cuidado colocou minhas muletas em baixo de meus braços. A princípio me rebelei e insistia em andar sozinho sem a ajuda das muletas, porém gradualmente fui convencido de que a comunidade estava certa, é impossível andar sem muletas! Há séculos nossa cultura vem presenteando os recém-nascidos com muletas. Claro as muletas são diferentes, dependendo das condições socio-econômicas da família em que nascemos. Lembro ainda como se fosse hoje, do menino que conheci na pré-escola. Vinha de uma família de grandes posses e ostentava sua muleta de ouro cravejada com diamantes.
Recentemente o encontrei na rua andando apoiado numa muleta de madeira de terceira, e perguntei o que havia acontecido. Ele me disse que havia encontrado a salvação, tinha abandonado todos os bens materiais e entrado para uma seita espiritual. Jogara fora sua muleta de ouro e diamante e recebeu da comunidade religiosa, aquela muleta de madeira. Disse-me que estava feliz, que nunca tinha se sentido tão bem na vida. Deixou comigo alguns livros de sua denominação religiosa, que explicava como é importante a entrega a Deus para que conseguíssemos a total Liberdade e encontrássemos a Verdade. Frisou insistentemente que havia um capítulo especial onde era minuciosamente explicado porque deveríamos abandonar todas as outras muletas e passarmos a usar apenas a muleta oferecida pelos dirigentes daquela comunidade. Despediu-se e saiu tão rápido quanto as suas muletas permitiam.
O que me impressionou foi que durante toda nossa conversa, em nenhum momento ele reparou que eu não estava mais usando muletas. Se ele tivesse reparado certamente ficaria impressionado e talvez tivesse perguntado como eu havia conseguido aquele milagre: Caminhar sem muletas!
Mas certamente o que mais o impressionaria seria minha resposta:
- Nunca foi necessário muletas para que caminhássemos. Na verdade caminhar sem muletas é uma possibilidade que temos desde que nascemos! Jogue fora suas muletas e caminhe!
Bom, pensando bem, talvez ele não acreditasse em mim, me chamaria de louco, ou coisa parecida. E talvez no lugar dos livros que me deu, teria me carregado para sua Igreja.
(by Celso)

domingo, 6 de março de 2011

Volta para casa


Chovia. Nuvens negras cobriam o céu, dando uma aparência de noite para o meio dia. Fazia muito frio, e o vento forte aumentava ainda mais a sensação. Meu corpo tremia. Eu estava encharcado. O nível da água na rua estava aumentando. Eu precisava de ir urgentemente para casa. Mas não sabia qual caminho tomar. As ruas, os prédios, eram desconhecidos. Na verdade eu nem mesmo sabia se estava na minha cidade. Alguém me chamou:
-Ei venha comigo eu sei onde poderá encontrar um abrigo.
Corri com ele, debaixo daquela chuva, por várias quadras. A chuva continuava e o nível da água aumentava. Era uma enchente.
Continuava não reconhecendo nada, só sabia correr atrás daquele que dizia conhecer um abrigo.
Durante a corrida, trombei com outra pessoa, caimos no chão. Ele me perguntou:
-Ei para onde vai?
- Buscar um abrigo, estou seguindo aquele homem.
Ia apontar o homem mas não o vi mais.
O outro homem ainda no chão me disse:
- Não se preocupe, eu sei onde levá-lo.
Pegou no meu braço, nos levantamos e começamos a correr. Várias quadras depois, percebi que a chuva diminuia, o nível da água estava mais baixo e o homem a quem eu seguia, estava há poucos passos à frente. Quando ia agradecê-lo, subitamente ele caiu num grande buraco aberto pela força da água e desapareceu. O medo invadiu meu ser, mais uma vez eu estava sózinho e pior, a chuva havia aumentado novamente. Completamente sem rumo, voltei a correr, mas para todo lugar que eu ia a chuva e o nível da água aumentavam. Eu estava cansado. Exausto. Agora a água corria pela rua como se fosse um rio. Aguarrei-me num poste. Minhas mãos estavam frias e duras. Eu sabia que não ia resistir muito. A força da correnteza aumentava. Entendi que aquele era meu fim, não era mais possível resistir. Olhei para minhas mãos agarradas ao poste,
vagarosamente elas foram soltando-se e eu fui rolando pela correnteza. Minha casa, minha vida, nada mais existiria para mim em poucos segundos. Foi então que subitamente eu

ACORDEI !

Estava na minha casa confortavelmente deitado em minha cama. Tinha sido apenas um sonho. Na verdade um pesadelo. Eu já estava em casa, não havia perigo, não estava chovendo. Não precisava de ninguém para me mostrar um abrigo. Não precisava de ninguém para me salvar. Eu já estava salvo. Bastou acordar, para perceber que eu nunca havia estado longe de casa.
Basta Acordar.
Lembre-se disto durante os sonhos!!!



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Devaneios desreflexivos


Não há nenhum ego, não há nenhum eu, não há nenhum espírito, não há nenhuma alma, e não há nenhuma mente.
Há alguns anos me deparei com isto. Pensei sobre isto.
Toda busca então tende a desaparecer.Não há sentido nas buscas...
Todo o questionamento, discussão, diálogo sobre estes temas passam a ser meros passa-tempo.
A humanidade passou séculos discutindo sobre estes temas, mas, uma vez em que se depara que não há nenhum ego, nenhuma alma, nenhuma mente, então a seriedade destas perguntas desaparecem, e fica apenas o prazer de conversar sobre isto.
Não há então qualquer sentido em ser salvo, pois não há ninguém para ser salvo.
Não há então qualquer sentido em evoluir espiritualmente, pois não há nada a evoluir .
Não há então qualquer sentido em buscar a liberdade, pois não há ninguém para ser livre.
Então eu percebi que o corpo não está preocupado com estas questões.
Para o corpo, é irrelevante saber se existe alma, espírito ou Deus. O corpo funciona apenas para preservar a vida, e por isto surge o pensamento, como suproduto do funcionamento do corpo / cérebro. Percebi que o pensamento deve agir de forma sadia, sem atrito, para preservar a vida no corpo. Mas durante seu funcionamento, alguns detritos vão aparecendo, e são estes detritos que criam a demanda por respostas a estas questões. Quando percebi que estas questões são apenas refugos, detritos de seu funcionamento, o próprio pensamento se incumbe de fazer o que deve ser feito com estes detritos: jogá-los no lixo. Então corpo e pensamento, voltaram a agir como sempre agem, unidos no objetivo de manter a vida, até que o próprio processo natural da vida transforme o corpo em alimento para outras vidas.
Ou até que alguma angustia possa desequilibrar novamente...

(Devaneios desreflexivos)

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Assim é a vida !


"Agora, sem que alguém me pedisse ou ordenasse, virei guardião dos passarinhos que fazem do meu jardim seu ponto de encontro. Aqui êles encontram água, comida e abrigo nas folhas das árvores e sob o beiral da casa. Como há predadores, ao primeiro sinal de perigo êles se reúnem e entram num alvoroça tamanho que me chamam a atenção. Ele, o gavião, dá o seu forte grito de guerra perante os assustados pardais, bicos-de-lacre e currecas que se reúnem no espinheiro ao lado, que ao invés de inibir, facilita o ataque do predador. Hoje, antes de conseguir afugentá-lo, ele fez o ataque e com a vítima piando entre suas garras, ainda dá um rasante sobre o jardim para exibir-me o seu troféu e mostrar a minha impotência perante a sua força e agilidade.

Juntei umas pedras miúdas, pedaços de tijolos e de madeira, para, junto com os meus gritos, mesmo sabendo que não tenho qualquer chance de sucesso, continuar a minha vigília em defesa dos mais fracos."

Assim é a vida! Mesmo sabendo-nos impotentes perante as forças da vida, da natureza e da ignorância do ser humano, sempre nos move essa vontade de criar um mundo ideal onde todos possamos viver felizes.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Realidade da atualidade


Realidade da atualidade...
É verdade que a modernidade e tecnologia nos tras uma mudança radical em todos os setores da sociedade.
José Saramago, no passado em entrevista, deu uma visão um tanto pessimista da nossa realidade. Dizia ele que a mudança do milênio coincide com o fim de uma era e o início de uma nova civilização em que a informação passa a ser uma mercadoria; que o mundo atual não é diferente da Idade Média em que apenas uma pequena elite tem o conhecimento enquanto a grande massa é profundamente ignorante. Afirmava que está havendo uma analfabetização dos alfabetizados tamanho é o número de informações que diariamente são produzidas em todas as áreas do conhecimento; e comparou o homem atual ao homem de Neanderthal com um computador.
Na verdade o desenvolvimento científico e tecnológico não é acompanhado pelo desenvolvimento ético.O homem continua profundamente ignorante quanto a si mesmo. A tecnologia trouxe tanta comodidade que poucos ousam buscar caminhos próprios. Ninguém quer pensar. Esta tarefa é transferida para outros. Todos querem verdades prontas e acabadas. Na verdade, o homem sempre foi assim. Entretanto, em nenhuma época o homem teve tanta facilidade à informação global.Mas apesar de tudo isto ele continua observando apenas o seu mundo externo, o outro.
Ele ainda é incapaz de olhar para dentro de si .

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

algo de Nietzsche...


Na leitura ou estudo de uma obra, nós a abordamos a partir da nossa subjetividade.
É o meu universo que está interagindo com as idéias do autor.
Quanto mais ampla a consciência, maior é a percepção da diferença que nos distingue do outro e mais facilmente compreendemos as suas motivações e a sua realidade. Admira-se Nietzsche pelas profundas reflexões sobre a questão humana:

1. Sobre o grande livramento e a dor.

"Eis o que há de ruim e doloroso na história do grande livramento. É, ao mesmo tempo, uma doença que pode destruir o homem, esta primeira irrupção de força e vontade de autodeterminação, de valoração própria, essa vontade de vontade livre: e quanto de doença se experimenta nos selvagens ensaios e excentricidades com que o que se livrou, o libertado, procura doravante demonstrar seu domínio sobre as coisas! Ele ronda cruelmente, com uma cupidez insatisfeita; o que ele pilha tem de pagar pela perigosa tensão de seu orgulho: ele estraçalha o que atrai. Desse isolamento doentio, do deserto desses anos de ensaio, o caminho ainda é longo até aquela descomunal segurança e saúde transbordante, que não pode prescindir nem mesmo da doença, como meio e anzol do conhecimento, até quela madura liberdade do espírito que é também autodomínio e disciplina do oração e permite os caminhos para muitos e opostos modos de pensar. Ele olha com gratidão para trás - grato a sua mudança, a sua dureza e a seu estranhamento de si, a seu olhar a distância e a seu vôo de pássaro em frias altitudes. Que bom que ele não permaneceu, como alguém delicado, embotado, que fica em seu canto, sempre, "em casa", sempre "junto de si"! Ele estava
"fora" de si: não há dúvida nenhuma. Somente agora vê a si mesmo - e que surpresas encontra nisso! Que arrepio nunca provado! Que felicidade ainda no cansaço, na velha doença, na recaída do convalescente... São os animais mais gratos do mundo, e também os mais humildes, estes convalescentes e lagartos semivoltados outra vez à vida: - Há entre eles os que não deixam partir nenhum dia sem pendurar-lhe um pequeno hino de louvor na orla do manto que se afasta".(1)

"...Na doutrina dos mistérios a dor é declarada santa: "as dores da parturiente" santificam a dor em geral - todo o vir a ser e crescer, tudo que garante futuro condiciona a dor... Para que haja o eterno prazer de criar, para que a vontade de vida afirme eternamente a si mesma, é preciso também que haja eternamente o "tormento da parturiente"...(2)

2. Reversão absoluta da compaixão entendida como amor ao próximo e auto-superação.

"Aconselho-vos eu o amor do distante!... Não vos ensino o próximo, mas o amigo. Seja o amigo para vós a festa da terra e um pressentimento do além do homem."

Esta concepção da vida é entendida como auto-superação incessante em busca de formas cada vez mais ricas, complexas, refinadas. Para Nietzsche, a vontade última da vida, da vida em sua plenitude, é a de criar ultrapassando a si mesma (über sich selbst hinaus schaffen):

"Bom e mal, rico e pobre, e elevado e pequeno, e todos os nomes de valores: armas devem ser marcas sonantes de que a vida tem que se superar continuamente a si mesma! Em direção à altura quer edificar-se, com pilares e escalões, a própria vida: na direção de vastas distâncias quer olhar e na direção de bem-aventuradas belezas - porisso carece de altura! ... Subir quer a vida, e subindo superar-se a si mesma."
Criar para além do já alcançado tem que ser inseparável da destruição e do sofrimento. Para tal compreensão da vida, faz-se necessário sobretudo a coragem para aventurar-se em todos os abismos e labirintos da alma:
"A coragem mata inclusive a vertigem juntos aos abismos: e em que lugar não estaria o homem junto a abismos? O próprio ver, não é ver abismos? A coragem é o melhor matador: a coragem mata inclusive a compaixão. Mas a compaixão é o abismo mais profundo: à medida que o homem aprofunda seu olhar na vida, ele aprofunda também seu olhar na dor. Mas a coragem é o melhor matador, a coragem que ataca: ela mata ainda a morte, pois ela diz: era "isso" a vida? Pois bem! Mais uma vez!"(3).

3.Vontade de poder.

"Com certeza não acertou na verdade quem disparou para ela a palavra: "vontade de existência": essa vontade não existe! Pois o que não é não pode querer; o que, porém, está na existência, como poderia ainda querer a existência! Apenas, onde há vida, também, há vontade: mas não vontade de vida, porém - assim eu t’o ensino - vontade de poder"(3).
O combate para dissipar as trevas da ignorância, do engodo e da superstição devemos fazê-lo em teoria e na prática.

(1) Friedrich Nietzsche, "Humano, Demasiado Humano";
(2) idem, "O Crepúsculo dos Ídolos";
(3) idem, "Also sprach Zaratustra" citados por Oswaldo Giacóia Júnior em
"Labirintos da Alma: Nietzsche e a auto-supressão da moral" - Ed. Da
UNICAMP.
(belo mundo interior de um amigo)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

o Louco


Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
( Khalil Gibran)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Concebido sem pecado original


Todos os livros e doutrinas religiosas podem ser analisados e interpretados no sentido psicologico e espiritual (esotérico).
Não podemos analisá-los apenas sob a perspectiva do ego cuja consciência está presa aos seus próprios interesses.
A concepção divina e a virgindade da mãe devem ser analisados a partir de uma perspectiva cosmogonica e espiritual.
Deve-se observar ainda que de acordo com esta análise, a virgindade da mãe não é lesada nem pela concepção, nem pelo parto.
Quem é o Cristo, o Filho, o Ungido de Deus? Quem são os Mensageiros Divinos? E os Messias (Avatares em outra religião)?
Todos estes nomes podem ser resumidos em "Cristo, o Filho de Deus".
Todos os Avatares, Messias, Mensageiros Divinos, Cristos e "Iluminados" foram filhos de uma mulher e de um varão, concebidos e nascidos como qualquer outro humano.
O homem, nessa perspectiva, desde a concepção tem um corpo físico e um corpo imaterial , com toda as suas funções potencialmente disponíveis. A energia (vamos chamar assim a parte "imaterial") e o corpo formam uma unidade interdependente. A personalidade em suas motivações e ações divide-se em id, ego ("eu") e superego (Freud).
No id estão as forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida; o "eu" é o centro da consciência e o superego a sua consciência moral construída pela interação com o meio e a educação. No id localiza-se, também, a "centelha divina" segundo diversas escolas esotericas, a parcela da "inteligência cósmica", o "Cristo", energia adormecida no inconsciente humano que espera a oportunidade, a hora e as condições favoráveis para manifestar-se.
Revela-se como uma ânsia de liberdade que vai crescendo e sobre o qual o ego (superego) não tem poderes porque é instintiva, e foge portanto, ao seu controle. Neste processo longo e doloroso o ego será destruído e nascerá um novo ser humano dominado pelo "espírito", o "Cristo", o "Mestre", o "homem Iluminado".
Ele nasce da "alma humana", concebido pelo "poder Divino", por ser uma centelha" Dele", cuja virgindade não é lesada nem pela concepção, nem pelo parto.
O "Cristo nascido da alma" uniu os opostos, positivo e negativo, masculino e feminino, consciente e inconsciente, racional e intuitivo, o céu e a terra.
Ele é "filho de Deus" - Complexio Oppositorum.
Este é o "nascimento imaculado" de um "Mestre", de um "Avatar", de um "Messias", de um "Iluminado", do "Cristo", um " Filho de Deus ".

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O Meu Olhar


O Meu Olhar

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...


Alberto Caeiro

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sonhos

Mundos reais
Mundos ilusorios
Mundos alegres
Mundos tristes
Sonhar a liberdade
Pensar na felicidade
Alcanço, logo perto
E distante se torna
Lagrimas levam
Mas em sonhos...

...me liberto...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Ausencia presente

Sou um observador ausente...
Mas o que seria isso ?
Seria algo surgido,
quando não se está presente
Detalhes eu vejo, além das cores, formas e brilhos
E nisso reside o meu presente;
Pois não desejo vir-a-ser,
muito menos algo que fui
Mas apenas estar Ausente...
E, estranho...
ao mesmo tempo,
Presente "nisso tudo"

sábado, 9 de outubro de 2010

Ética Universal


Uma ética universal esta além dos valores comuns, dos valores de uma sociedade e suas leis 'a regrarem-na e, por isso, de dificil entendimento pelo comum, de algo incomum, pois quem nesse estado vive, vive além de um "centro de reações" psicológicas na qual não mais se julga, avalia ou reage, condena ou aprova, mas sim isento de tais reações, conduz a uma reta ação, correta, Universal, que apareceu em muitos no passado 
(sábios) e que ainda hoje, aparece .
Nesse "estado de sabedoria" age-se sem causar ou sofrer danos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Dois mundos, uma unidade


DOIS MUNDOS, UMA UNIDADE, UMA REALIDADE

O mundo material, objetivo e racional é regido pela lei da causalidade.
Nada acontece sem uma causa correspondente, nenhum efeito é maior do que a sua causa.
Tudo que está sujeito à lei da causalidade acontece no tempo e no espaço, que não são objetos, mais sim modos ou atributos de percepção sensitiva e concepção intelectual. A ciência, a técnica e a arte, isto é, a cultura e a civilização assentam alicerces na lei da causalidade, que é o objeto específico da inteligência. Existem, entretanto, fenômenos de causas desconhecidas e que o homem comum chama de casualidade.
Este é o mundo dos sentidos e do intelecto, o mundo do ego. O mundo que não pode ser explicado pela lei da causalidade nem pelos sentidos e pelo intelecto é o mundo dos instintos, da emoção, do sentimento, o reino do eterno, do infinito, do absoluto.
Este é o mundo do Ser. O ser humano interage com esses dois mundos.
A distinção entre dois mundos, segundo Nietzsche apareceu claramente com Sócrates, pela oposição entre essencial e aparente, verdadeiro e falso, inteligível e sensível, fazendo da vida aquilo que deve ser julgado, medido, limitado; foi criado o "homem teórico", racional e lógico, separando o pensamento e a vida.
"Enquanto em todos os homens produtivos o instinto é uma força afirmativa e criadora, e a consciência uma força crítica e negativa, em Sócrates o instinto torna-se crítico e a consciência criadora".
Todos os fenômenos conhecidos e desconhecidos estão interrelacionados. Não há dois mundos separados, estanques. Não há um "vale de lágrimas" aqui no mundo do ego e um céu ou inferno em outro mundo, em outra dimensão. O ser humano move-se dentro de um todo e cabe a cada um, individualmente, tomar consciência dessa realidade.
Quando toda a nossa motivação e ação, toda a nossa energia e interesses estão canalizados para o mundo do ego somos incapazes de perceber o Todo. Ao nos afastarmos do mundo sensível e desenvolvermos apenas o intelecto, nós nos separamos da Unidade. Ao desenvolvermos somente a capacidade intelectual nós nos afastamos da nossa essência, nós nos incapacitamos, nos
aleijamos, desenvolvemos apenas uma parte, deixamos de viver pelas leis da natureza, do nosso mundo interior. O "homem teórico" de que nos fala Nietzsche afastou-se de sua humanidade e, pela inteligência, criou Deus.
O homem criou Deus e, agora, busca desenfreadamente, provas da sua existência. Não é fantástico? Tudo é extremamente simples, mas o homem quer uma explicação lógica, racional, científica! Desviou-se, separou-se, pela força da vontade, do seu mundo interior que faz a ligação com o Todo e agora, busca, freneticamente, respostas racionais para a sua existência.
Mas o seu Deus racional, objetivo não existe porque é uma criação sua, e, portanto, uma ilusão.
O homem primitivo vive instintivamente; o homem intelectual vive racionalmente; o homem superior promove a paz entre os instintos, transformados em sentimento, e o intelecto e, assim, pelo sentimento interage com o Todo, o eterno e o infinito.