Para compreendermos o conceito de metempsicose dos antigos filósofos platônicos é necessário, primeiro, compreendermos as idéias que eles tinham sobre “psichí” ou “princípio vital”, “pnevma” ou “espírito” e “idiótis” ou “personalidade”. Esses três termos são essenciais para a compreensão das idéias centrais do tema.
Psichí é o conjunto de forças que:
-Dão vida à matéria;
-Dão à matéria a capacidade de comunicar-se com o mundo que a cerca;
-Conferem inteligência e capacidade de sobrevivência;
-Nos seres-humanos controlam os instintos, percebem coisas e as classificam (como boas, más ou neutras);
-Guiam as ações de acordo com aquilo que é classificado e de acordo com as experiências prévias armazenadas na memória;
-Se comunica com o “soma”, o corpo, dele faz parte indissociavelmente e a ele transmite influências que podem ser benéficas ou maléficas.
Pnevma é aquilo que não pertence às classificações possíveis, ou seja, é parte do Absoluto, é a parcela que possui as “reminiscências da Verdade” e que faz com que Psichí identifique no mundo sensível aquilo que existe no mundo das idéias. Para compreender essa parte, é importante compreender bem a distinção que Platão faz entre o Mundo dos Sentidos e o Mundo das Idéias.
Pnevma é emanação do Todo, faz parte do Todo, é indissociável do Todo. Os antigos filósofos cristãos compreenderam muito bem isso quando aplicaram o termo “Pnevma” para a hipóstase mais abstrata da Trindade, ou seja, o “Espírito Santo”.
Idiótis é aquilo que chamamos de “personalidade” e que o filósofo budista Vasubhandu denominava “pudgala”. É apenas um conjunto de agregados, são características que temos devido a uma série de causas e condições mas que, individualmente, são vazias de substância real. Nós habitualmente chamamos as características de nossa personalidade de “eu” ou “meu”, mas isso não é real. Isso não é o eu (anatma).
Os tradutores latinos de Platão, até por uma questão lingüística, convencionaram chamar às três definições de Platão de “três almas”, ou seja, uma alma “racional”, uma alma “irascível” e uma alma “concupiscível”.
A alma irascível é a parte superior da psichí. Ela controla os instintos, dá o senso de bom, belo e verdadeiro ao homem e o faz buscar pela Verdade.
A alma concupiscível é a parte inferior da psichí. Ou seja, é o ponto onde as noções da psichí superior são submersas pelos instintos, pelas necessidades físicas, pelos desejos, pelos vícios etc.
Ambas as almas (concupiscível e irascível) formam a personalidade – idiótis - ambas são mortais, transitórias, efêmeras e ilusórias.
Há uma terceira alma, a “alma racional”. O termo “racional” pode ser facilmente confundido com a noção moderna que temos de “racionalidade” (um sentido cartesiano-iluminista), mas no caso, “racionalidade” se refere à potências superiores presentes no ser humano, ou seja, a capacidade de conhecer a Verdade além das definições e palavras, conhecer a Verdade pela “Reminiscência”, ou seja, pela “lembrança” da estada dessa “alma racional” no “hiperurânio”, no “Mundo das Idéias”.
A “alma racional” é justamente “Pnevma”. Pnevma é emanação do Absoluto, portanto, dele veio e para ele vai. Não é nossa personalidade, não tem nossas características, não tem “personalidade” diferenciada ou individualidade. É parte do Absoluto e, portanto, é indefinível. Isso é Atman. Todo o resto é desprovido de realidade intrínseca (anatman).
O que “transmigra” é Pnevma, pois é indestrutível e Eterno.
Quando morremos nossos agregados, aquilo que forma nossa personalidade, isso que denominamos de “eu”, acaba. Nosso cérebro seca, nossos órgãos se desfazem e cada um dos elementos retorna para outras formas de vida manifesta. No entanto, aquilo que se manifestou em nós como “Verdadeira Natureza” não morre, simplesmente retorna ao Absoluto.

Quando Platão fala de metempsicose está se referindo, justamente, a esse processo de emanação do Todo Absoluto para a vida manifesta. Quando uma vida se manifesta de acordo com seu nível de consciência, traz a reminiscência, ou seja, a lembrança de seu ponto de partida (O Mundo das Idéias).
A lembrança é processada pela “psiquí” ou seja, daí o termo “metempsicose” (passar através das “psiquís” – desculpem o plural aportuguesado...).
Como fica claro, isso nada tem a ver com “reencarnar”, com um “espírito” que vai trocando de corpos ou com “lembrança de vidas passadas” ou coisa que o valha.
Infelizmente hoje podemos dizer que os acadêmicos nada compreendem dos ensinamentos originais dos grandes filósofos do passado. Ficam tentando ensinar aquilo que eles mesmos ainda não entenderam...
( texto original do excelente blog "Budismo Aristocratico": http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2010/04/metempsicose-platonica-x-reencarnacao.html )
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