terça-feira, 6 de março de 2012

Inadaptáveis

" Dedicado 'aqueles que não se encaixam num mundo em constantes mudanças "





sexta-feira, 2 de março de 2012

a Corrente Psicologica






Discussão entre Jiddu Krishnamurti, Alain Naudé e Mary Zimbalist, em 4 de janeiro de 1972, no dia seguinte àquele em que Krishnamurti e Sidney Field, um velho amigo, se encontraram para falar da recente morte do irmão deste :

K. (Jiddu Krishnamurti) - No outro dia, Sidney Field veio ver-me. Seu irmão John havia falecido recentemente. Ele desejava saber se o irmão vivia em outro nível de consciência; se havia uma entidade John que devesse nascer numa próxima vida; se eu acreditava em reencarnação e o que signi­ficava ela. Eram muitas as perguntas. Ele estava sofrendo porque amava o irmão. Dessa conversa surgiram duas coisas: primeira - haverá um ego permanente? Se há, então qual será sua relação com o presente e com o futuro - sendo o futuro uma próxima vida ou daqui a dez anos? Caso se admita, aceite ou afirme que há um ego permanente, então a reencarnação...

N. (Naudé) - ...é inevitável.

K - Não. Não diria que é inevitável, mas, possível, pois, para mim, o ego permanente (se é que é permanente) pode mudar no espaço de dez anos. Em dez anos, ele pode encarnar mudado.

N - Em todas as escrituras indianas lemos isso. Soubemos de ca­sos de crianças que se lembram da vida passada; de uma garotinha que disse: "Que é que eu estou fazendo aqui? Minha casa fica em outra vila. Sou casada com Fulano. Tenho três filhos." Creio que muitos desses casos foram verificados.

K - Não sei. Portanto a coisa é essa. Se não há qualquer entidade permanente, o que é reencarnação? Ambas as coisas implicam tempo; ambas implicam movimento no espaço - espaço como meio-am­biente, relação, compulsão - tudo dentro do espaço-tempo.

N - No tempo e nas circunstâncias do tempo. 

K - E isso significa cultura, etc.

N - Dentro de uma estrutura social.

K - Haverá, portanto, um eu permanente? Claro que não. Mas Sidney afirmou: "Então, por que é que eu sinto que John está co­migo" Quando entro no quarto, sei que ele está lá. Eu não estou ficando doido. Não estou imaginando nada. Eu o sinto como sinto minha irmã que esteve ontem naquele quarto. isso é evidente.?

N - Por que diz "claro que não"? Pode explicar?

K - Espere aí. Ele disse: "Meu irmão está lá." Eu respondi: "Claro que sim. Antes de mais nada, porque o senhor projeta as associações e recordações que tem de John. Essa projeção é a sua própria me­mória."

N - Nesse caso, trata-se do John que está dentro do senhor.

K - Isso mesmo. "Quando John vivia, estava associado ao senhor. Estava junto do senhor. Enquanto ele vivia, embora não o visse du­rante o dia todo, ele estava presente naquele quarto."

N - Estava presente lá. E talvez seja isso o que as pessoas querem dizer quando falam da aura.

K - Não. Aura é outra coisa. Não vamos falar disso agora. 

Z (Zimbalist) - Posso interromper? Quando diz que ele estava naquele quarto, vivo ou morto, quer dizer que havia algo fora do seu irmão ou da sua irmã, ou estava na consciência deles?

K - Estava não só na consciência deles como fora também. Posso projetar meu irmão e dizer que ele esteve comigo na noite passada, sentir que ele estava comigo; isso pode provir de mim. A atmosfera de John, que morreu há dez dias, seus pensamentos, sua maneira de agir ainda permanecem lá, mesmo que, fisicamente, ele possa ter ido embora.

N - É a força psíquica. 

K - É o calor físico.

Z - Está dizendo que existe uma espécie de energia, na falta de melhor palavra, que os seres humanos desprendem?

K - Tiraram uma fotografia de um estacionamento que estivera cheio de carros e, embora já não houvesse mais nenhum, a foto mos­trava a forma dos carros que tinham estado.

N - É, eu vi isso.

K - Isso significa que o calor deixado pelos carros ficou no nega­tivo.

N - Quando estivemos em Gstaad (na primeira vez em que fui seu hóspede em Gstaad, em Les Capris) e o senhor viajou, antes de nós, para a América, eu entrei no seu apartamento. O senhor já estava a caminho da América, mas sua presença lá era muito forte.

K - É isso aí.

N - Sua presença era tão forte, que tínhamos a impressão de po­der tocá-lo. E não era simplesmente porque estivesse pensando no senhor antes de entrar.

K - Há, portanto, três possibilidades: projeção da minha lem­brança e da minha consciência ou captação da energia residual de John. 


N - Como um cheiro que permanece.

K - O pensamento de John ou a existência de John ainda está lá.

N - Essa é a terceira possibilidade. 

Z - Que quer dizer com a existência de John?

N - Que John está realmente lá como antes de morrer.

K - Eu vivo num quarto durante anos. Nele ficam presentes minha energia, meus pensamentos e meus sentimentos. 

N - Ele conserva aquela energia; é por isso que, quando vamos para uma nova casa, às vezes leva tempo até que fiquemos livres da pessoa que morava lá antes, embora não a tenhamos conhecido.

K - Aí estão, portanto, as três possibilidades. E a outra é o pen­samento de John, pois John se apega à vida. Os desejos de John estão no ar; não, no quarto.

N - Imaterialmente.

K - Sim. Estão lá exatamente como um pensamento.

N - Significa isso que John está consciente, que há um ser auto­-consciente que se chama John e que emite esses pensamentos?

K - Duvido.

N - Creio que é isso o que afirmariam as pessoas que acreditam na reencarnação.

K - Veja o que acontece, senhor. Isto cria uma quarta possibili­dade: a idéia de que John, cujo corpo físico já se foi, existe em pensamento.

N - Em seu próprio pensamento ou no de outro?

K - Em seu próprio pensamento.

N - Existe como uma entidade pensante?

K - Como uma entidade pensante. 

N - Como um ser consciente.

K - Ouça isto: é interessante. John continua porque ele é o mundo da mediocridade, da ambição, da inveja, da bebida, da competição. Esse é o padrão normal do homem. Esse padrão continua e John pode estar identificado com isso, ou é isso.

N - John é um conjunto de desejos, pensamentos, crenças, asso­ciações...

K - Do mundo.

N - Que estão encarnados e que são materiais...

K - E isso é o mundo, isso é todo mundo.

N - É muito importante o que o senhor está dizendo. Seria bom se pudesse explicar um pouco mais. O senhor diz que John continua e que ele contínua porque é a continuação do vulgar nele, isto é, uma ligação material e mundana.

K - Correto. É o medo, o desejo de poder, posição. É o que é comum no mundo. Ele é do mundo e é o mundo que encarna.

N - O senhor diz que o mundo encarna?

K - Considere a multidão. Estão todos agarrados a essa corrente e ela prossegue. Eu posso ter um filho que faz parte da corrente e preso a ela também está John. E meu filho pode ter algumas atitu­des semelhantes às de John.

N - Ah! mas o senhor está dizendo coisa diferente.

K - Estou.

N - O senhor está dizendo que John se acha em todas as recorda­ções que diversas pessoas têm dele. Nesse aspecto, vemos que ele realmente existe. Lembro-me de um amigo meu, não há muito fale­cido; era evidente para mim, quando pensava no fato, que ele per­manecia bem vivo na lembrança de todos que gostavam dele.

K - Exatamente.

N - Portanto ele não estava ausente do mundo. Ele ainda se encon­trava na corrente dos acontecimentos a que chamamos mundo, isto é, as pessoas que se haviam ligado a ele. Nesse sentido, talvez ele viva para sempre.

K - A menos que ele saia da corrente, se não for um homem vul­gar - usando a palavra vulgar com o sentido de ambição, inveja, poder, posição, ódio, anseios e tudo mais. A menos que eu esteja liberto da vulgaridade, continuarei sendo vulgar, conservarei toda a vulgaridade humana.

N - Sim, serei essa vulgaridade se persistir nela, se nela encarnar, se lhe der vida.

K - Portanto, eu encarno na vulgaridade. Assim, eu posso, pri­meiro, projetar meu irmão John.

N - Nos meus pensamentos, na imaginação, na minha lembrança. O segundo ponto é este: posso captar sua energia cinética que está em volta.

K - Seu cheiro, suas inclinações, suas palavras.

N - O cachimbo não fumado sobre a escrivaninha, a carta inaca­bada.

K - Tudo isso.

N - As flores colhidas no jardim.

K - Em terceiro lugar, o pensamento que permanece no quarto.

N - O pensamento permanece no quarto?

K - As emoções. 

N - Talvez que o equivalente psíquico da energia cinética.

K - Sim.

N - O pensamento dele permanece quase como um cheiro mate­rial, como um cheiro físico.

K - Correto.

N - A energia do pensamento permanece como um velho casaco pendurado.

K - O pensamento, o desejo. Se ele possuía vontade, desejos e pensamentos intensos, isso também permanece. 

N - Mas isso não difere do terceiro ponto. O terceiro ponto é que o pensamento permanece, isto é, a vontade, o desejo.

K - O quarto ponto é a corrente da vulgaridade.

N - Mas isso não ficou bem claro.

K - Veja, senhor: eu vivo uma vida normal, como milhões de outras pessoas. Eu vivo a vida comum, um pouco mais refinada, mais ou menos elevada, dentro, porém, da mesma corrente. Eu sigo esse curso. Eu sou essa corrente. O eu, que é esse curso, continua na corrente, na corrente do eu. Não sou diferente de milhões de outras pessoas.

N - Então, o senhor está dizendo que, embora morto, eu continuo porque continuam as coisas que eu sou?

K - No ser humano. 

N - Nesse caso, eu sobrevivo. Eu não era diferente das coisas que preenchiam minha vida e me preocupavam.

K - Isso mesmo.

N - Significa isso, então, que, por assim dizer, eu sobrevivo por­que sobrevivem as coisas que preenchiam e ocupavam minha vida.

K - Certo. Esse é o quarto ponto.

N - A questão é o quinto. Haverá uma entidade pensante e cons­ciente que sabe que está consciente quando todos dizem: "Lá se vai o pobre e velho John; nós o enterramos"? Haverá uma entidade cons­ciente que, embora imaterialmente, diz: "Santo Deus! eles enter­raram meu corpo, mas sei que estou vivo"?

K - Sim.

N - A essa pergunta é que eu acho difícil responder.

K - É o que Sidney perguntava.

N - Porque é claro que, dos outros vários modos, todos existem após a morte.

K - Agora o senhor pergunta: será que John, essa entidade cujo corpo foi cremado, continua a viver? 

N - Será que essa entidade continua a ter consciência de que existe? 

K - Eu pergunto se há um John separado.

N - No começo, o senhor disse: "Há um ego permanente?" E res­pondeu: "Claro que não."

K - Quando o senhor diz que meu irmão John morreu e pergunta se ele vive como urna consciência isolada, eu indago se ele, em al­gum momento, esteve desligado da corrente.

N - Sim.

K - Está acompanhando o que estou dizendo, senhor?

N - Havia um John vivo?

K - Enquanto John vivia, estava separado da corrente?

N - A corrente alimentava sua autoconsciência. Sua auto-consciência era a própria corrente a se conhecer.

K - Não, senhor, vamos devagar. É um tanto complicado. A cor­rente da humanidade é cólera, ódio, ciúme, busca de poder, posição, trapaça, corrupção, poluição. Essa é que é a corrente. Meu irmão John faz parte disso. Enquanto existia fisicamente, ele possuía um corpo físico, mas, psicologicamente, era isso. Em algum momento, portanto, estava separado da corrente? Ou estaria apenas fisicamente separado, crendo, por esse motivo, ser diferente? Compreende meu ponto?

N - Havia uma entidade auto-consciente.

K - Como John.

N - Ele tinha auto-consciência, mas fazia parte da corrente.

K - Sim.

N - Minha esposa, meu filho, meu amor.

K - Mas será que, interiormente, John estava desligado da cor­rente? Esse é o meu ponto de vista. Portanto o corpo dele é que está morto. John continua como parte da corrente. Na qualidade de seu irmão, gosto de considerá-lo diferente já que ele vivia comigo como um ser fisicamente separado. Interiormente, contudo, ele fazia parte da corrente. Por conseguinte, havia algum John realmente distinto da corrente? Se havia, o que acontece então? 

N - Há uma corrente vista de fora e outra, de dentro. No mo­mento de um ato vulgar, a vulgaridade é uma coisa distinta do ho­mem que pratica o ato. Vemos essa vulgaridade por fora e dizemos que é um ato vulgar. Mas eu, que estou ofendendo alguém, vejo o ato de outra maneira. Eu estou consciente no momento em que ofendo. De fato, eu ofendo porque estou pensando conscientemente. Eu ofendo para me proteger.

K - O meu ponto de vista é que é isso que está acontecendo com milhões de pessoas. Enquanto estiver nadando nessa corrente, sou diferente dela? Será que o John real difere da corrente?

N - Será que sempre houve um John?

K - É exatamente esse o meu ponto.

N - John resultava de uma decisão consciente.

K - Sim. Eu posso inventar, imaginar que sou diferente.

N - Havia uma imagem, um pensamento que se denominava a si mesmo John.

K - Sim, senhor.

N - Mas será que esse pensamento ainda se autodenomina John?

K - Acontece que eu pertenço a essa corrente. 

N - Nós sempre pertencemos à corrente.

K - Não existe uma entidade separada como John, que era meu irmão e que, agora, está morto. 

N - Está afirmando que não havia nenhum indivíduo?

K - Não. A isso é que chamamos permanente. O ego permanente é isso.

N - Que pensamos ser individual?

K - Individual, coletivo, o eu.

N - Sim, a criação do pensamento que se considera o eu.

K - Pertence a essa corrente. Portanto, será que sempre houve um John? Só existe um John quando ele está fora da corrente.

N - Certo.

K - Desse modo, estamos tentando descobrir, primeiro, se há um ego permanente que encarne.

N - O ego, por natureza, é impermanente.

K - Toda a Ásia aceita a reencarnação e as pessoas que, atual­mente, acreditam nela afirmam que há um eu permanente. Levamos muitas vidas até que ele se dissolva e se absorva em Brahma e tudo mais. Haverá, contudo, uma entidade permanente - uma entidade que dure séculos? É claro que não existe essa entidade permanente. Eu gosto de pensar que sou permanente. Eu identifico minha perma­nência com meus móveis, minha esposa, meu marido, as circunstân­cias. Mas isso são apenas palavras e imagens do pensamento. De fato, eu não possuo esta cadeira. Eu digo que ela é minha. 

N - Exatamente. Pensamos que possuímos a cadeira.

K - Gosto de pensar que a possuo.

N - Mas é tão-somente uma idéia.

K - Portanto, veja: não há um eu permanente. Se houvesse, ele seria a própria corrente. Percebendo, porém, que sou como o resto do mundo, que não há nenhum K separado, nem John, como meu irmão, então, se saio da corrente, posso encarnar. Posso encarnar no sentido de que a mudança ocorre fora da corrente. Na corrente não há mudança.

N - Se há permanência, ela se dá fora da corrente. 

K - Não, senhor; a permanência e a semipermanência são a cor­rente. 

N - Nesse caso, não é permanente. O que é permanente não faz parte da corrente. Por conseguinte, se há uma entidade, tem de estar fora da corrente. Portanto, o verdadeiro, o permanente, não é uma coisa.

K - Não está na corrente. Quando Naudé faz parte da corrente e morre, a corrente, com seu fluxo, é semi-permanente. Mas se Naudé disser: "Vou sair da corrente, não na próxima vida, mas, agora" - então ele já não fará parte dela e, desse modo, nada há de perma­nente.

N - Não há coisa alguma para reencarnar. Portanto, o que reen­carna, se é que é possível a reencarnação, não é, em absoluto, o permanente.

K - Não. É a corrente.

N - É demasiado terra-a-terra. 

K - Não coloque a coisa dessa maneira.

N - Uma entidade separada não é real.

K - Não - enquanto fizer parte da corrente.

N - Eu, de fato, não existo.

K - Não há entidade isolada. Eu sou o mundo. Quando saio do mundo, há algum eu que continue?

N - Exatamente. Magnífico! 

K - Portanto, o que estamos tentando fazer é justificar a existência da corrente.

N - É o que estamos fazendo?

K - Claro; é o que fazemos quando afirmamos que devemos ter muitas vidas e que, por isso, devemos continuar na corrente.

N - O que estamos tentando é demonstrar que somos diferentes da corrente.

K - Mas não somos.

N - Não somos diferentes da corrente.

K - Isso mesmo, senhor. E o que acontece? Se não há nenhum John permanente nem K nem Naudé nem Zimbalist, o que é que acon­tece? O senhor deve lembrar-se: creio que li, na tradição tibetana ou qualquer outra, que, quando uma pessoa está morrendo, o sacerdote ou o monge entra no quarto, manda toda a família sair, fecha a porta e diz ao moribundo: "Olhe! Você está morrendo. Largue todos os seus antagonismos, experiências mundanas, ambições. Livre-se de tudo isso porque você vai ao encontro de uma luz na qual mergulhará se estiver livre. Do contrário, voltará, voltará à corrente. Estará, outra vez, na corrente."



N - Sim.

K - Portanto, o que acontece quando saímos da corrente?


N - Quando saímos da corrente, deixamos de existir. Mas o que existia tinha sido criado pelo pensamento...

K - Que é a corrente. 

N - A vulgaridade.

K - A vulgaridade. E o que lhe acontece se sair da corrente? Essa saída é a encarnação. Sim, senhor. Mas isso é algo novo em que pene­tra. É uma nova dimensão que surge.

N - Sim.

K - E, então, o que acontece? Está seguindo? Naudé saiu da cor­rente. O que acontece? Já não é mais o artista nem o homem de ne­gócio. Já não é mais político nem músico. Todas essas identificações fazem parte da corrente.

N - Todos os atributos.

K - Todos os atributos. Quando nos desembaraçamos de tudo isso, que acontece?

N - Não temos identidade alguma.

K - Aqui é que está a identidade - Napoleão, por exemplo, ou qualquer outro dito líder mundial. Eles mataram, trucidaram. Pratica­ram todos os horrores imagináveis. Viveram e morreram na corrente. Tudo isso é muito simples e claro. Mas, de repente, há um homem que sai da corrente.

N - Antes da morte física? 

K - Evidente. Do contrário, não teria graça.

N - Então surge outra dimensão.

K - E o que acontece?

N - Ao fim de uma dimensão conhecida começa uma nova dimen­são; mas não podemos comprová-la uma vez que toda comprovação se fará nos termos da dimensão em que nos encontramos.

K - Sim. Mas suponha que, agora, enquanto vive, saia da corrente. Que acontece? 

N - Isso é a morte, senhor.

K - Não, senhor.

N - É a morte; mas, não, a morte física.

K - Veja: o senhor sai da corrente. Que acontece?

N - Nada se pode dizer sobre o que acontece.

K - Um momento, senhor. Veja: nenhum de nós sai do rio e é no rio que estamos sempre tentando alcançar a outra margem.

N - É como, na insônia, falar do sono profundo.

K - Isso mesmo, senhor. Nós somos parte da corrente - todos nós. Fazendo parte da corrente e sem jamais sair do rio, o homem deseja alcançar a outra margem. Então, o homem diz: "Muito bem; percebo esse engano, o absurdo de minha atitude."

N - Na velha dimensão não se pode falar da outra. 

K - Então, eu saio dela. A mente diz: "Fora!" Ele sai e o que sucede? Não verbalize.

N - Dentro da corrente, a única coisa que cabe, em relação a isso, é o silêncio, pois é o silêncio da corrente. E podemos também dizer que é a morte da corrente. A isso, na expressão da corrente, muitas vezes se chama esquecimento.

K - Sabe o que significa sair da corrente? Não possuir mais um caráter, um modo de ser.

N - Não ter mais memória. 

K - Não, senhor; veja: é não ter mais um modo de ser, uma vez que possuir um caráter ainda é coisa da corrente. No momento em que nos consideramos virtuosos ou não virtuosos, ainda fazemos parte da corrente. Sair da corrente implica sair de toda essa estrutura. Portanto, a criação, como entendemos, ainda está na corrente. Mozart, Beetho­ven, os pintores, todos eles se encontram nela. 

N - Às vezes me parece, senhor, que o que está na corrente é como que animado por algo que está além.

K - Não, não, não pode ser. Não diga isso, pois, dentro da cor­rente, eu posso criar. Posso pintar quadros maravilhosos. Por que não? Posso compor as mais extraordinárias sinfonias; possuir toda a téc­nica.

N - Por que, então, são coisas extraordinárias? 

K - Porque o mundo precisa disso. Há necessidade, há procura e há o preenchimento. Eu me pergunto o que sucede ao homem que realmente sai. Dentro do rio, a energia está em conflito, em contradi­ção, em luta, na vulgaridade. E isso acontece o tempo todo.

N - Eu e você.

K - É. O tempo todo. Quando ele sai da corrente, não há mais divisões tais como meu país e seu país. 

N - Nenhuma divisão.

K - Nenhuma divisão. Portanto, que espécie de homem, que espé­cie de mente é essa que já não divide mais? É energia pura, não? Desse modo, o que nos interessa é a corrente e sair dela.

N - Isso é meditação. Essa é a meditação real, pois a corrente não é a vida. A corrente é inteiramente mecânica.


K - Devo morrer para a corrente.

N - A todo momento.

K - A todo momento. Por isso tenho de rejeitar John, que está na corrente; não devo ficar preso a ele.

N - Precisamos repudiar tudo que é da corrente.

K - Significa isso que tenho de rejeitar meu irmão. Vejo que ele e parte da corrente e, no momento em que me afasto dela, minha mente se abre. Creio que isso é compaixão.

N - Quando se olha a corrente fora dela.
K - Quando o homem sai da corrente e olha para ela, sente com­paixão.

N - E amor.

K - Vê, portanto, senhor, que a reencarnação, encarnar repeti­damente, é coisa da corrente. Isso não serve para consolar ninguém. Eu comunico ao senhor que meu irmão morreu ontem e o senhor me diz tudo isso. Vou considerá-lo um homem extremamente cruel. Mas o senhor está lamentando por si mesmo; está lamentando por mim e pela corrente. E por isso que as pessoas não querem saber. Quero saber onde está meu irmão; não, se ele está. 





Boletim 57 (1988) da Krishnamurti Foundation of America
Carta de Notícias no 256 - julho-dezembro/1988
Trad.: Vanfredo. Rio, 1988 

( http://www.krishnamurti.org.br/cne/cne003.html )

- Krishnamurti, nas proprias palavras dele, quer dizer  o seguinte: Toda a humanidade, desse vasto rio, que não tem começo, que continua a fluir. E eu e o outro somos parte dessa corrente . Eu e o outro morremos . O que acontece com todos os meus desejos, todas as minhas ansiedades, medos, ânsias, aspirações, o fardo imenso de tristezas  que carreguei durante anos – o que acontece a tudo isso quando o corpo morre? Mistura-se com a corrente do mundo. Elas não são minhas, são partes da corrente, que se manifestou como Krishnamurti, com essa forma (física e psicológica), Senhor, o que estou dizendo é muito radical em comparação com os que dizem as religiões.

- De fato, a observação isenta mostra que nas manifestações ocorridas não somente nas diversas denominações religiosas,mas tambem individualmente  nas formas de algum "estado alterado de consciencia" ou da psiqué, leva-se a pensar  em uma  "corrente psicológica" atuante. Sendo o Eu formado por feixes de memória, de passado, desconhece-se até hoje alguém que tenha seguido adiante  em uma nova vida, com sua completa memoria passada, o que nos leva  a pensar na perda total da atual identidade, supondo a veracidade dessa teoria, porém,como na metempsicose, doutrina que explica a transmigração  da alma em diversos corpos não necessariamente humano,algumas caracteristicas de vida anterior são  apresentadas. A idéia da reencarnação é uma crença relativamente criada há pouco tempo pelo filósofo alemão Lessing  em meados de 1750 ,e retomada em circulos socialistas  franceses , pelos personagens com tendencias esotericas Pierre Leroux e  Fourier seculo após Lessing, adaptando-a como uma possivel explicação das diferenças sociais existentes e observadas em sua epoca.   "Allan Kardec" participante e influenciado por tais circulos socialistas, deu continuidade 'a idéia, levando-o  a formular e firmar  essa ideia em uma  doutrina criada , influenciando posteriormente Blavatsky na formação da Sociedade Teosofica, e, com isso, ao se instalar no Oriente, influenciou  todas as religioes , segundo  essa linha de raciocinio, deturpando-as (destaque 'as obras de  Rene Guenon : "O Teosofismo: historia de uma pseudo religiao" e  "O Erro Espirita" ), onde até hoje perdura. Segundo os Tradicionalistas, essa idéia nunca existiu em qualquer religião ou obra religiosa no passado antes de Lessing, inclusive longinquo, surgindo após  o filosofo pela incapacidade de compreensão e significados profundos de metafisicas antigas, inclusive  com dificuldades em  traduções  de  suas linguagens originais. Essa é a  explicação que nos informa algumas sociedades misticas mais tradicionais e mais desconhecidas e segundo os estudiosos Tradicionalistas ( aqueles que buscam a origem das tradições, religioes e mistica) ; A Reencarnação é  o desejo  de continuidade dessa memória passada  ou identidade formadora do Eu. Mas  o que é imortal e atemporal, não pode evoluir nem  ter continuidade: o que  nasceu e se formou com o tempo, necessariamente deve deixar de existir. Krishnamurti, acima, parece explicar de uma maneira bem simples  e resumida o que é ensinado no Budismo.
Em outras palavras: em quase todas as manifestações psiquicas naqueles propensos 'as tais, são criações  advindas de seus próprios condicionamentos (o animismo antigo), ou (mais raramente) surgem como "antena captadora"  dessa corrente psicologica, que aparentemente não é de forma alguma em sua maioria qualquer  manifestação de alguma entidade ou "espirito desencarnado", mas sim uma "energia" existente desde milenios, além de outras formas manifestantes consideradas mais grosseiras - onde certo tipo de elementos não humanos se comunicam ; Em todas essas formas sempre recomendam evitá-las, conforme esse modelo metafisico.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Grito da alma



Vejo insatisfação em alguns, alguns poucos. Vejo um clamar das profundezas da alma por aquilo que lhes  foi furtado, sem seu proprio consentimento na profundeza de seu interior.
Lamurias de alguns poucos se ouve aqui  e ali, mas ainda sem muito sentido na explosão contida de dentro.
No fundo pede-se  liberdade.
Essa liberdade faltou-lhes desde pequeninos, pois assim foram deformados pelo onde vivem.
Empregos, salários, sistemas economicos, políticos, divertimento, obrigações, responsabilidades, tudo isso tornou-se um fardo porque é assim que exige-se. Não parece natural como instintivo, mas sim obrigado pelo meio que se vive.
Essa obrigação promove certa dor na alma, onde nem ao menos o amor vive-se - ele está sufocado por tudo aquilo que se exige.
E pensar que achavam-se certos, quando  aquela voz unica de dentro, revoltosa, diz  o contrário. É a intuição 'a favor daquilo primordial, mesmo com o opressor  fascinando-a exteriormente.
Quando  a vaidade se torna primazia, a sobrevivencia  destroe vidas .
Somos responsaveis por tudo isso que existe, pois vidrados ficamos pelos alucinantes brilhos.
O importante é pertencer nisso para muitos, quando sim, constroem suas proprias prisões.


A Montanha dos Adeptos


O ego, que se forma a partir da ativação do complexo de diferenciação da consciência, é um arquétipo muito identificado com o corpo e com a persona - que é o conjunto de personagens usadas nas várias relações da vida. 
Por isso, Jung afirma que o ego é uma espécie de gestor da consciência que, apesar de não representar a sua totalidade, ele está no centro e na periferia dela. 
No seu contraponto, o inconsciente, também existe um arquétipo gestor que é a sombra, e como ela transita livremente no inconsciente, é por meio dela que podemos adquirir consciência da existência da nossa alma - a psique; dos nossos contrapontos sexuais - anima ou animus, dependendo da estrutura corporal de gênero de cada indivíduo; do self - que é o arquétipo central e que pode nos remeter ao si - mesmo, ou Self - a totalidade; além de todo conteúdo reprimido acumulado desde a nossa concepção, que é o nosso inconsciente pessoal, e de toda história evolutiva da vida senciente, incluindo a da humanidade, presente no inconsciente coletivo.
Por isso, quem não está rendido conscientemente ao processo de individuação, geralmente por estar tomado por algum complexo, que sempre é formado por núcleos afetivos, necessita começar a perceber sua sombra, para poder diligentemente se entregar para seu caminho de integração/individuação, adquirindo sentido e significado existencial. Porém, como nosso ego consciência, identificado com o corpo e com a persona, geralmente fica paralisado tanto nas queixas e temáticas repetitivas, quanto nas demandas mais arcaicas e instintivas do sobreviver, crescer e perpetuar - fome, segurança e sexo; não conseguimos perceber e nos orientar por meio do nosso processo de individuação que, geralmente, se manifesta nos sonhos, nos eventos de sincronicidade e até nos sintomas - que são feridas por onde atravessam os deuses e toda potencialidade existencial.
Nossa consciência não tem capacidade infinita, apenas o inconsciente que tem! Seu espaço é minúsculo, precioso e valioso. Por isso, é crucial decidirmos o que manter dentro dela e o que jogar fora. Porém, apesar de não precisarmos ficar paralisados nas dores do passado, nem das injustiças que aconteceram conosco, ou das coisas que nos causaram tristeza, devido à existência dos complexos, não é fácil nos libertarmos do automatismo causado por eles. Então, precisamos aprender com as lições do passado, mas não devemos ficar com elas no presente, dando espaço para a dor e para um contínuo sofrimento. Porém, só por meio de um processo de autoconhecimento é que poderemos superar as queixas e os sintomas físicos ou relacionais. Porque os complexos nos mantêm nas lembranças afetivas do passado, são autônomos e acabam dominando nossa mente, nos mantendo no auto-engano e na repetição do automatismo alienante.
Toda nossa existência, desde a concepção, está pautada pelos afetos. Tudo aquilo que direta ou indiretamente, física ou energeticamente, consciente ou inconscientemente nos atinge e produz mudanças, que vão do físico ao espiritual, passando pelo psíquico, familiar, profissional e social, podemos chamar de afetos. 
Muitos afetos são percebidos pela nossa consciência, atingindo uma ou mais das quatro funções psíquicas estudadas na psicologia junguiana. Porém, mesmo quando eles surgem subliminarmente, ficando imperceptíveis para nossa mente consciente, eles produzem efeitos no nosso pensamento, sentimento, intuição ou sensação, podendo despertar emoções e, conseqüentemente, os complexos. Sendo que, em muitas vezes, surgem desejos regressivos, advindos das experiências de segurança primordial vivenciados nos estágios pré egóicos da relação mãe-bebê. Lembrando que nos primeiros seis meses de vida, também vivenciamos a experiência da solidão primordial.
Além disso, devido ao processo associativo que nossa psique opera e toda a formação de rede existente em nosso cérebro, um afeto pode surgir de um modo, com intensidade e forma específica, e acabar desencadeando mudanças no ser total. Ou seja, devido à rede associativa, um cheiro ou uma música, podem despertar mudanças bioquímicas que interferem no nosso pensamento, sentimento, intuição ou na percepção. 
Mudanças completamente injustificáveis para quem está de fora, como mero observador. Por isso os complexos são autônomos, mantendo-nos reativos aos afetos, sempre num padrão de emoções repetitivas que, devido à reprodução constante, acabam nos deixando dependentes até das suas bioquímicas correspondentes. Só por meio do autoconhecimento é que poderemos sair desse padrão. Porém, esse processo não segue um caminho linear e sua manifestação acontece em saltos, geralmente de forma descontínua e assimétrica, do ponto de vista do mundo manifesto. Mas, para o Self, ele tem continuidade.
Então, para que o autoconhecimento aconteça, precisamos fomentar crises, situações de desarranjo e desconstrução do automatismo. Sendo que, na minha experiência junguiana, os conteúdos metafóricos, os símbolos, imaginações, sonhos e fantasias são grandes ferramentas para a ampliação da consciência. 
Como na metáfora alquímica que passo a descrever, por meio da alegoria da gravura da montanha dos adeptos, onde a pedra bruta, geralmente cinzenta e carregada de sofrimentos e dores, por estar queimando por dentro, devido a autonomia dos complexos e a existências de mágoas e ressentimentos, para poder seguir seu caminho de lapidação evolutiva deve se submeter ao fogo exterior. O fogo que irá eliminar a água, os sentimentos corrosivos, que dará a pedra a capacidade de ficar menos suscetível aos afetos e suas respectivas emoções. Esse processo é contínuo e principia pelo confronto consciente proposto pela fórmula alquímica denominada V.I.T.R.I.O.L.
Vitriol é uma palavra advinda do latim, e é formada pela fórmula iniciática que sintetiza a doutrina alquimista: "Visita Interiorem Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem" e quer dizer: "visite o seu interior para encontrar sua pedra oculta". Com isso podemos deixar de ser pedras brutas. Porque, devido a contínua lapidação do autoconhecimento e do domínio da máquina, vamos ficando mais cristalinos até atingirmos o diamante original - que é a nossa essência! Ou seja, devemos entrar em contato com a prima matéria, retificando-a por meio de várias passagens, ritos e conhecimentos até alcançarmos a tintura mãe!
O autoconhecimento após o confronto da calcinação permite que o ar espalhe o o material seco, desembocando na sublimação alquímica, que é a melhor maneira para diminuir os efeitos cáusticos e emotivos dos afetos que provocam sensações, sentimentos, pensamentos e intuições dramáticas e traumáticas e que ocupam nosso ego/consciência na forma de complexos, que estão na raiz das doenças produtoras de todos os tipos e formas de sintomas. 
A sublimação produz a ampliação da nossa consciência, dando razão para nossa história, vivencias e emoções, ajudando na superação da calcinação. Por meio da sublimação poderemos adquirir entendimentos mais amplos sobre as ocorrências da vida.
 Só depois de arejarmos a terra, o calcário cristalizado, é que poderemos regá-la com nossos sentimentos, a água da diluição ou até solução das queixas. Porque, antes da sublimação a cal estava viva e com água ela calcinava produzindo mais queimação e dor.
Depois do ar e da água, sublimacio e solucio alquímicos, é que vão surgir os insights, o calor das intuições criativas que produzirá a germinação ou putrefação das sementes, fermentando possibilidades férteis para o crescimento e superação da queixa paralisante e cáustica. Neste momento é que revolvemos os conteúdos dramáticos e ou traumáticos para diminuir a sensibilidade e atribuir novos significados.
A partir desta etapa, poderemos preencher nossa consciência com coisas boas, fazendo a escolha, a separação, destilação das emoções, para ficarmos mais leves, mais felizes, mais focados. Daí vem a necessidade de atitudes concretas serem tomadas, coagulando, curando, dando consistência e colorido à tintura da vida, que é a nossa verdadeira essência. Todas essas sete etapas alquímicas, acima descritas, estão representadas na gravura da montanha dos adeptos que está abaixo:


( Texto acima de Waldemar Magaldi Filho - http://www.waldemarmagaldi.com )

  - V.I.T.R.I.O.L. : Visita o Centro da Terra, Retificando-te, encontrarás a Pedra Oculta (ou Filosofal) : Visita o Teu Interior, Purificando-te, Encontrás o Teu Eu Oculto, ou, "a essência da tua alma humana". É o símbolo universal da constante busca do homem para melhorar a si mesmo e a sociedade em geral.
- A Montanha dos Adeptos, do livro e gravura de  Stephen Michelspacher (ALCHIMIA, 1654), 
apresenta os elementos fogo, ar, terra, água e as fases ou degraus que um iniciado sobe até o Templo, na montanha ou rocha . Começa sua caminhada ignorante ( olhos vendados) e que tem um companheiro de olhos abertos (reflexo do que virá  a ser) , perseguindo dois coelhos -  simbolos da multiplicação e da fecundidade que essa busca promove em outros . Os degraus são Calcinação (transformação pela ação do fogo-destruição dos apegos ou do Ego)  ,Sublimação ( a pureza separa-se da impureza-imersão no inconsciente), Dissolução (quente e frio dissolvem gorduras e sais- substancias corrosivas e corpos calcinados-descoberta da essencia), Putrefação (o "vivo" morre para o "morto" viver - 1 iniciação), Destilação ( sutilização de liquidos-purificação da personalidade) , Coagulação (subjetivamente, onde a  fase depressiva da psiqué que se volta ao seu interior ,  transforma o mercurio em terra rumo a pedra filosofal ) , Tintura ( o imperfeito torna-se perfeito - o Adepto ou Iniciação final).
Diversas figuras estão em cada degrau da montanha conversando entre sí, o que sugere estudar muito.
As figuras astrologicas representam tanto os aspectos na psiqué quanto os simbolismos alquimicos das substancias, inclusive.
O objetivo é a Tintura - um dos nomes do Elixir de Vida ,ou de Sabedoria, ou da Pedra Filosofal. 
A Fênix é a ave da transformação ou ressurreição para uma nova vida, onde agarra-se ao Templo interior em equilibrio , simbolizados pelo Sol e  a Lua ou o Dia e  a Noite - aspectos masculinos e femininos, "luz e sombra" unidos em  seu interior- consciente de sí mesmo.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Lucidez


Enquanto o Mundo for desse mundo,
o Mundo não tem muito rumo.


O preço a pagar pela inconsciencia, é  dor, ilusão profunda e  subserviencia.
Enquanto muitos são poucos, poucos se aproveitam de muitos.
Assim se criam sistemas econômicos e políticos, onde a válvula de escape é a Religião, e não a Conscientização.


A lucidez é terrível.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Fênix

O Mito da Fênix remonta ao antigo Egito, sendo depois transmitido para os gregos e outras civilizações. 
Entre os egípcios, esta ave era conhecida como Bennu, porém ambas eram associadas ao culto do Deus-Sol, chamado Rá no Egito. Ao morrer, este pássaro era devorado pelas chamas, ressurgindo delas uma nova Fênix, a qual juntava as cinzas de seu progenitor e, compassivamente, as conduzia ao altar do deus solar, localizado em Heliópolis, cidade egípcia. 
Os pesquisadores não chegaram ainda a um consenso sobre a duração da vida da Fênix; uns apontam quinhentos anos, bem mais que um corvo, o qual já vive muito tempo; outros garantem um prazo bem maior, aproximadamente 97mil anos. Ao cabo de cada ciclo existencial, a ave sente a proximidade da morte, prepara uma fogueira funerária com ramos de canela, sálvia e mirra, e automaticamente se auto-incendeia. 
Algumas narrativas apresentam uma versão distinta, segundo a qual a fênix, à beira da morte, se dirigia a Heliópolis, aterrissava no altar solar e então ardia em chamas. Depois de um período ainda não definido precisamente, ela retorna à vida, simbolizando assim os ciclos naturais de morte e renascimento, a continuidade da existência após a morte. O povo egípcio acreditava já, nesta época, que este pássaro simbolizava a imortalidade. 
Ela também é conhecida por sua intensa força, que lhe permite levar consigo fardos de grande peso; segundo alguns contos, seria capaz de transportar inclusive elefantes. 
De acordo com as lendas difundidas por cada povo, a ave assumia características específicas – com penas roxas, azuis, vermelhas, brancas e douradas entre os chineses; douradas e vermelhas com matizes roxos para os gregos e egípcios. Era maior que uma águia. 
Para os povos antigos, a fênix simbolizava o Sol, que ao final de cada tarde se incendeia e morre, renascendo a cada manhã. Neste sentido, os russos acreditavam que ela vivia constantemente em chamas, por isso era conhecida como Pássaro de Fogo. Diante da perspectiva da morte, ela era considerada como um símbolo de esperança, de persistência e de transformação de tudo que existe,um sinal da vitória da vida e da inexistência da morte como ela é atualmente concebida pela civilização ocidental. Seu canto era extremamente doce, ganhando tons de intensa tristeza com aproximidade da morte. 
As lendas afirmam que sua formosura e sua melancolia influenciavam profundamente outros animais, podendo mesmo levá-los à morte. Afirma-se que somente um pássaro podia existir de cada vez, e que suas cinzas tinham o dom de ressuscitar alguém que já morreu. 
O nome adotado entre os gregos para esta ave pode ter surgido de um erro de Heródoto, grande historiador da Grécia Antiga, pois ele possivelmente confundiu o pássaro com a árvore sobre a qual ela era geralmente representada, a palmeira – phoinix em grego. 
Os cristãos associam a Fênix, na arte sacra, à ressurreição de Cristo; nas mais diversas mitologias ela tem o mesmo significado, tanto entre gregos e egípcios, quanto entre os chineses. Diversos escritores se referiram à Fênix, tanto na Antiguidade quanto nos dias atuais, entre eles Hesíodo, Heródoto, Ovídio,Voltaire, Rabelais. 
A Fênix é um pássaro da mitologia grega que quando morria entrava em auto-combustão e passado algum tempo renascia das próprias cinzas. 
Outra característica da Fênix é sua força que a faz transportar em vôo cargas muito pesadas, havendo lendas nas quais chega a carregar até elefantes. 
A Fênix nas tradições germânicas é a deusa Gullweig. Teria penas brilhantes, douradas, e vermelho-arroxeadas, e seria do mesmo tamanho ou maior do que uma águia. 
Segundo alguns escritores gregos, a Fênix vivia exatamente quinhentos anos. Outros acreditavam que seu ciclo de vida era de 97.200 anos. No final de cada ciclo de vida, a Fênix queimava-se numa pira funerária. A Fênix, após erguer-se das cinzas, levava os restos do seu pai ao altar do deus Sol na cidade egípcia de Heliópolis (Cidade do Sol). 
A vida longa da Fênix e o seu dramático renascimento das próprias cinzas transformaram-na em símbolo da imortalidade e do renascimento espiritual. 
Os gregos provavelmente copiaram dos egípcios a idéia da Fênix. Esses últimos adoravam “benu”, uma ave sagrada semelhante à cegonha. O “benu”,assim como a Fênix, estava ligada aos rituais de adoração do Sol em Heliópolis. As duas aves somente representavam o Sol, que morre em chamas toda tarde e emerge a cada manhã. 
Segundo a uma antiga versão russa tinha o nome de pássaro de fogo,na qual vivia em chamas. 
A Fênix, o mais belo de todos os animais fabulosos, simbolizava a esperança e a continuidade da vida após a morte. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do Sol nascente, possuía uma voz melodiosa que se tornava triste quando a morte se aproximava. A impressão que a sua beleza e tristeza causava em outros animais, chegava a provocar a morte deles. Segundo a lenda, apenas uma Fênix podia viver de cada vez. 
Hesíodo, poeta grego do século VIII a.C., afirmou que esta ave vivia nove vezes o tempo de existência do corvo, que tem uma longa vida. Outros cálculos mencionaram até 97.200 anos. Quando a ave sentia a morte aproximar-se, construía uma pira de ramos de canela, sálvia e mirra em cujas chamas morria queimada. Mas das cinzas erguia-se então uma nova Fênix, que colocava piedosamente os restos da sua progenitora num ovo de mirra e voava com eles à cidade egípcia de Heliópolis ,onde os colocava no Altar do Sol. Dizia-se que estas cinzas tinham o poder de ressuscitar um morto. 
O devasso imperador romano Heliogábalo (204-222 d. C.) decidiu comer carne de Fênix, a fim de conseguir a imortalidade. Comeu uma ave-do-paraíso, que lhe foi enviada em vez de uma Fênix, mas foi assassinado pouco tempo depois. 
Atualmente os estudiosos crêem que a lenda surgiu no Oriente e foi adaptada pelos sacerdotes do Sol de Heliópolis como uma alegoria da morte e renascimento diários do astro-rei. 
Tal como todos os grandes mitos gregos,desperta consonâncias no mais íntimo do homem. 
Na arte cristã, a Fênix renascida tornou-se um símbolo popular da ressurreição de Cristo. Curiosamente, o seu nome pode dever-se a um equívoco de Heródoto, historiador grego do século V a.C.. Na sua descrição da ave, ele pode tê-la erroneamente designado por Fênix (phoenix), a palmeira (phoinix em grego) sobre a qual a ave era nessa época representada. 
A crença na ave lendária que renasce das próprias cinzas existiu em vários povos da antiguidade como gregos, egípcios e chineses. 
Em todas as mitologias o significado é preservado: a perpetuação, a ressurreição, a esperança que nunca têm fim. 
Para os gregos, a Fênix por vezes estava ligada ao deus Hermes e é representada em muitos templos antigos. Há um paralelo da Fênix com o Sol, que morre todos os dias no horizonte para renascer no dia seguinte, tornando-se o eterno símbolo da morte e do renascimento da natureza. Os egípcios a tinham por “Benu” e estava sempre relacionada a estrela “Sótis”, ou estrela de cinco pontas, estrela flamejante, que é pintada ao seu lado. 
Na China antiga a fênix foi representada como uma ave maravilhosa e transformada em símbolo da felicidade, da virtude, da força, da liberdade, e da inteligência. Na sua plumagem, brilham as cinco cores sagradas. 
No início da era Cristã esta ave fabulosa foi símbolo do renascimento e da ressurreição. Neste sentido, ela simboliza o Cristo ou o Iniciado, recebendo uma segunda vida, em troca daquela que sacrificou pela humanidade. 
A Fênix representa a ave legendaria que vivia na Arábia. Segundo a tradição, era consumida por ação do fogo a cada 500 anos, e uma nova e jovem fênix surgia das suas cinzas. Na mitologia egípcia, a ave fênix representava o Sol,que morria à noite e renascia pela manhã. 

A Fênix é símbolo de ressurreição.

( http://pt.scribd.com/doc/53120066/O-Mito-da-Fenix )


“Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam. Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte. Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que emite é uma evidência de sua alma imaculada. Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia, outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento apaixonado. Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de cinzas.
Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte? Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix, terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida. A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento, a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra. Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte. Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais dura prova que o Caminho nos exigirá”.

( Farid al-Din Attar – A Conferência dos Pássaros )


domingo, 22 de janeiro de 2012

Civilização

Devo pertencer 'aqueles poucos que percebem certo poder.
O poder da civilização e sua fascinação.
Quanto maior esse poder, maior a ilusão.
Quanto maior o despertar, mais impede libertar.
Porque a luta agora não é oculta, escondida, despercebida.
Onde nossos sentidos, intuições e instintos são subjugados
É francamente percebida, descoberta e aberta .
E esse inimigo poderoso chance alguma dá.
Mas o pior de tudo não é a luta em sí,
Mas a solidão que ela produz.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Plenamente feminina

"A civilização atual, ainda dominada pela ganância do homem, desenvolveu um pouco a percepção da mulher, mas aumentou muito suas dores.
Ontem, a mulher era uma serva feliz; hoje, é uma senhora infeliz.
Ontem, era uma cega que andava 'a luz do dia; hoje, tem visão, mas anda nas trevas da noite.
Ontem, era bela na sua ignorancia, virtuosa na sua ingenuidade, forte na sua fraqueza; hoje, tornou-se feia na sua sofisticação, superficial nos seus conhecimentos, distante do coração pelas suas pretensões.
Virá um dia em que a mulher reunirá a beleza e o conhecimento, a arte e a virtude, a fraqueza do corpo e a força da alma ?"

("Asas Partidas" - Khalil Gibran )

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Questão de limites

Um problema sério que nos dias atuais vem se intensificando é a questão de limites das crianças e dos jovens.
Vejo isso com muito pesar, e penso muito em um escritor e sociólogo, Lasch, que advertiu que estávamos criando uma sociedade sem senso de limites.
A minha geração tinha hora de ir para a cama, ganhava presente no aniversário e no natal, e não exigia tanto dos pais.
Hoje, é com tristeza que vejo meninas de dois anos usando moda feita para elas, imitando a moda de adultos. Crianças pirraçando para não dormirem cedo. Escolhendo comida.
E digo sem medo de errar: culpa dos psicólogos. Fui de uma geração que levava uns tapas na bunda quando passava das medidas, e não ficou com traumas por isso.
Hoje não se encosta um dedo nos filhos, embora no outro extremo da história se jogam filhos pela janela.
Mas não vou falar disso hoje. Fica para outro dia, porque o assunto é muito mais sério para ser discutido “em passant”.
Adolescentes mal saídos das fraldas frequentam a noite, vão a baladas, onde tudo pode acontecer, as meninas ficam grávidas cada vez mais cedo, e empurram o serviço para cima das mães.
Há uma juventude muito séria, justiça seja feita, e como tenho visto meninos de 13, 14 anos, cabeças feitas. Mas como há pilantrinhas também.
E sabem exigir! Estudar é algo que só é feito em troca de prêmios, como se estivessem sendo submetidos a castigos, e não plantando para o próprio futuro.
O bullying cresce assustadoramente, e eu não iria ser professora atualmente por nada.
Isso tudo só mostra pais despreparados, se borrando de medo de que seus filhos façam alguma bobagem.
Pais que não sabem onde seus filhos estão. Ou de tão apavorados chegam a achar legal colocar chips nos filhos.
Entendo, o mundo está violento, mas está faltando diálogo. Conversas francas.
Um destes dias tive um pai que me procurou para perguntar o que fazer em relação à rebeldia dos filhos.
Tudo uma questão de saber colocar limites. Não pode porque não pode, eu não deixo e ponto final. Filho tem que saber que pais ainda mandam, quando é o contrário que se vê.
Este pai disse que paga a seus filhos para aparar a grama. Correto. Embora o mais correto seria dizer: Fulano vai aparar a grama. Não comem? Não moram? Por que não podem colaborar?
Medo, puro medo dos pais. Não querem traumatizar seus anjinhos. Estão errando feio. O mundo não vai dar a eles o que estes pais estão dando. E vai se criar um monte de preguiçosos, gente que acha que o mundo deve algo a eles.
Para evitar serem desrespeitados publicamente, nem sequer têm mais com seus filhos aquela linguagem de olhar que os filhos antes entendiam e não discutiam.
Os pais é que sabem que tipo de gente estão criando. Gente que não vai parar em emprego, porque não têm a menor noção de que manda quem pode e obedece quem tem juizo.
Pais que vão à escola ( aconteceu estes dias) e agridem professores e diretores, fisicamente, porque seus filhos foram punidos por algo errado.
Para tudo há meios legais. Se a punição foi injusta, que reclamem a quem de direito, mas ir lá espancar os mestres, isso é coisa que se faça? Que exemplo!
No futuro estes anjinhos vão precisar terapia, ou coisa pior. Se houvesse mais limites em casa as cadeias teriam menos gente.
Vejo pais se individando para dar ao filhinho o que não podem. Mas o filhinho quer...
A menina quer roupas novas a cada dia, afinal a tribo dela mudou o uniforme. E a personalidade, não existe? Todos andam em grupos?
Nossa sociedade está decadente, Lasch avisou. Quando vamos dar atenção aos alertas?

( Texto da psicanalista Marcia Lee-Smith )

Diferenças e Respeito


Quero falar sobre as difíceis relações entre pessoas que tem culturas diferentes. Este assunto é um tabu, porque todos são igualmente necessários ao mundo.
Há lugar para todos os seres, a sociedade nem sequer sobreviveria sem que houvesse do que planta ao que consome o produto final. O indivíduo que varre o escritório tem uma importância imensa, embora ganhe pouco, a pessoa que faz o café geralmente não aparece, mas na hora que os funcionários querem um cafezinho, ou quando se pensa em servir um café ao cliente, este café deve estar pronto.
A pessoa que lava o banheiro tem uma função enorme, afinal banheiros limpos dão aos aeroportos e shoppings uma sensação de higiene e limpeza.
Mas infelizmente a comunicação entre estes funcionários e os usuários é praticamente impossível.
Não sei se a palavra seria cultura, ou se o termo função ficaria mais bem empregada ao caso.
É preciso entender que todos tem seu papel social, mas existe naturalmente e é impossível não existir uma dificuldade na comunicação entre estas pessoas.
E em geral o funcionário gola azul, como os americanos os chamam, sente-se inferiorizado frente aos gola branca.
Que seria de uma cidade sem os lixeiros, os coveiros, os varredores de ruas?
Tem até aquela piada dos dois leões que fugiram do zôo, e um deles foi recapturado em horas, e o outro demorou dias a voltar.
O que foi recapturado logo perguntou ao outro? Como pode, você some por 10 dias, e ainda volta gordo?
E ele responde: eu me escondi num escritório. Todos os dias comia um funcionário, e só me pegaram porque comi, sem querer, o rapaz que fazia o café.
Esta piada mostra que a importância dos golas azuis não é tão pequena assim.
Mas deixando para o fim a questão social, vejamos o porquê da dificuldade de comunicação.
Uns foram educados para determinados papéis na sociedade, outros para outros.
Eu sou totalmente intelectual. Besteira mentir e dizer que não sou. Fiz várias faculdades, mestrados, sou ruim com uma vassoura na mão e não sei deixar uma panela brilhando.
Mas dou valor a quem sabe. Só não consigo ter um papo gostoso com essas pessoas. Nós somos de mundos diferentes.
Profissionalmente consigo. Mas como ser humano não. O profissional é diferente do indivíduo. Como gente, como pessoa, prefiro conversar com os meus iguais. Como profissional não vejo diferença entre ninguém.
Aliás, aqui no meu caso há um pouco de inverdade nisso. Como física, jamais poderia conversar com muita gente, não me entenderiam. Como psicanalista chego à conclusão de que a psicanálise como dizia Freud, exige que haja alguma cultura do analisando, ou ele não entenderá as metáforas.
Assim, é com todo mundo. Quem disser que não é está mentindo.
Não adianta eu querer ser amiga de alguém que se distrai costurando, se para me distrair eu preciso de um bom livro que me faça pensar.
Homens também são assim. Menos que as mulheres.
E eu até me pergunto se gostaria de ser diferente. Muito acham que isso é uma questão de esnobismo. A palavra é pesada. Mas se eu entendo de política internacional não consigo levar um papo com quem diz que a culpa da cotação do dólar é alguma coisa que nada tem a ver. O máximo que posso fazer é dizer hm hm...
Não é esnobismo, é mais o que a minha mãe diria: lé com lé, cré com cré, um sapato em cada pé.
Se eu fosse convidada para uma recepção no palácio da rainha da Inglaterra, ficaria totalmente perdida, não é o meu lugar. Também se fosse convidada para um evento bem popular, ficaria encolhida num canto, porque não saberia agir.
Socialmente existem diferenças, que não estão calcadas em dinheiro. Um cara pode ser milionário e gostar de coisas bem populares. Outro pode ser um pobretão e gostar de ler Shakespeare.
Não é o que se ganha, ou o quanto se tem que determina isso. Não somos iguais, esta é a verdade. Não me importaria de morar numa roça, mas levaria para lá centenas de livros, e não participaria das festas do povo, eu sei disso.
Outros, ricos ( e diga-se de passagem que rica eu não sou), adorariam trocar a vida deles por uma vida bem “fuleira”, esquecer as faculdades estudadas, e entrar num grupo de violeiros e se divertiriam.
Então o ponto aqui é: temos de saber quem somos, o que somos, e procurar nos relacionar com nossos pares, seja para amizades, ou principalmente no casamento.
Muitas vezes alguém nos atrai exatamente por serem o que não somos, e sabemos que jamais seremos. Mas por quanto tempo?
Isso tudo tem que ser muito pensado antes de um casamento, antes de uma mudança para um lugar. É o marido certo? É a cidade certa?
Isto tem a ver com psicanálise? Tudo a ver. Se nossos problemas começam na infância, e se na infância definimos quem seremos, pois é isso que acontece, em decorrência do nosso ser e da educação dada por nossos pais, ou quem tenha nos criado, os problemas futuros são todos de fundo analítico.
Queremos dar a nossos filhos uma educação sempre melhor do que a que tivemos e queremos que tenham amigos de bom nível.
Isso, gostando ou não, de muitas forma se relaciona com dinheiro, infelizmente. Pais pobres nem sempre podem dar o melhor a seus filhos, exceto incutir neles a vontade de crescer.
Mas o ambiente pesa bastante. E as histórias de Cinderela são apenas histórias.
Então vamos admitir que somos quem somos, temos nossos referenciais, e não vamos ter traumas por isso. Muito menos passar nossos traumas a nossos filhos. Todos temos nossas funções no mundo. Pelo menos saibamos nos respeitar, se outros são aparentemente “mais “ que nós, e saibamos respeitar aqueles que tem um nível de cultura e/ou dinheiro e gostos não compatíveis com o nosso.
Só assim podemos viver em paz dentro de uma sociedade pluralista.

( Texto da psicanalista Marcia Lee-Smith )

Textos de Khalil Gibran

"Os corações que as tristezas unem permanecem unidos para sempre. O laço da tristeza é mais forte que o laço da alegria. E o amor que as lágrimas lavam torna-se eternamente puro e belo."

"Deve existir algo extranhamente sagrado no sal: está em nossas lágrimas e no mar..."

"Sua razão e sua paixão são o leme e a vela de sua alma navegante. Se um dos dois quebrar, você pode adernar e ficar á deriva ou ficar imóvel no meio do mar. Porque a razão, reinando sozinha, restringe todo impulso. E a paixão, deixada a si é fogo que arde até sua própria destruição."

( a Abelha e a flor ) : "Ide pois aos vossos campos e pomares, e lá aprendereis que o prazer da abelha é de sugar o mel da flor, mas que o prazer da flor é de entregar o mel à abelha.
Pois, para a abelha, uma flor é uma fonte de vida. E para a flor uma abelha é mensageira do amor
E para ambas, a abelha e a flor, dar e receber o prazer é uma necessidade e um êxtase"

" Conhecer a dor da excessiva ternura. Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente. Mas se amarem e tiverem desejos, deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite."

"Entre as colinas, quando vos sentardes à sombra fresca dos álamos brancos,
partilhando da paz e da serenidade dos campos e dos prados distantes, então que
vosso coração diga em silêncio: "Deus repousa na Razão". E quando bramir a
tempestade, e o vento poderoso sacudir a floresta, e o trovão e o relâmpago
proclamarem a majestade do céu, então que vosso coração diga com temor e
respeito: "Deus age na Paixão". E já que sois um sopro na esfera de Deus e uma
folha na floresta de Deus, também devereis descansar na razão e agir na paixão. "

" Os vossos corações conhecem, no silêncio, os segredos dos dias e das noites. Mas os vossos ouvidos têm sede de ouvir finalmente o eco do saber dos vossos corações. Gostaríeis de saber pelo verbo o que sempre soubeste pelo pensamento. Gostaríeis de sentir com os dedos o corpo nu dos vossos sonhos.
E está certo que assim o queirais.
A fonte oculta da vossa alma deve necessariamente jorrar e correr a murmurar para o mar; e o tesouro das vossas profundezas infinitas revelar-se aos vossos olhos. Mas que não haja balança que pese o vosso tesouro desconhecido; e não procureis explorar os abismos do vosso saber com a vara ou com a sonda, pois o eu é um mar sem limites e sem medida.
Não digais: "Encontrei a verdade", mas antes: "Encontrei uma verdade."
Não digais: "Encontrei o caminho da alma." Mas antes: "Cruzei-me com a alma que seguia pelo meu caminho."
Pois a alma percorre todos os caminhos. A alma não caminha sobre uma linha nem se alonga como uma vara. A alma abre-se a si própria como se abre um lótus de inúmeras pétalas."

"É errado pensar que o amor vem do companheirismo de longo tempo ou do cortejo perseverante. 
O amor é filho da afinidade espiritual e a menos que esta afinidade seja criada em um instante, ela não será criada em anos, ou mesmo em gerações. "


"Na floresta não existe ignorante ou sábio
Quando os ramos se agitam, a ninguém reverenciam
O saber humano é ilusório como a cerração dos campos
que se esvai quando o sol se levanta no horizonte
Dá-me a flauta e canta!
O canto é o melhor saber, e o lamento da flauta sobrevive ao cintilar das estrelas"

"O conhecimento de si mesmo é a mãe de todo conhecimento. Portanto estou incumbido de conhecer a mim mesmo, me conhecer completamente, conhecer minhas minúcias, minhas características, minhas sutilezas, e cada átomo meu."

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Alquimistas


Transmutações na alma ditadas pela quintessencia de nossos proprios descobrimentos em vivências, tornam-nos alquimistas únicos, onde a mente, onde o pensamento agora readapta-se ao vazio de ditames desse valioso presente que nós mesmo nos damos, ao nos permitirmos, e cujo fruto nosso proprio coração regozija-se .



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A Ponte




Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida - ninguém, exceto tu, só tu. Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva? Não perguntes, segue-o!

( Nietzsche )


domingo, 8 de janeiro de 2012

Spinoza


Diz a lenda que apenas dois homens conheceram Deus: Cristo e Spinoza . Esse, perseguido tambem pela Religião criada pelos homens, "em nome do outro".

( Texto de Paul Strathern ): "Spinoza é o filósofo dos filósofos. Construiu um sistema metafísico de beleza surpreendente, brilhante, tanto mais que não se inspira nem na realidade nem na experiência. Era um homem profundamente religioso, embora aparentemente não professasse nenhuma fé. Sua filosofia é permeada pela idéia de Deus e ele mesmo viveu uma vida de santo. Consequentemente, foi abominado em vida por todas as religiões e, após a morte, suas obras seriam difamadas, perseguidas e queimadas. Hoje em dia, quando não se exige mais dos filósofos a crença em deus, quando eles levam - como todos nós - vidas escandalosas e tem que prestar atenção na realidade, Spinoza é tido como o filósofo exemplar. Se eventualmente for canonizado, será o padroeiro dos hipócritas. "

Spinoza nasceu em Amsterdã em 24 de Novembro de 1632 e faleceu em 21 de Fevereiro de 1677 em Haia. Excomungado e expulso pelas religiões Judaica e Cristã, quase tiram sua vida em atentados. Fugiu e viveu uma vida simples e reclusa, como lapidador de lentes.
Criou uma filosofia aparentemente anacrônica para nós, com seu pensamento teísta e sistemático. Ironicamente, as conclusões que tirou desse antiquado sistema estão profundamente afinadas com o pensamento moderno - do campo científico 'a política. Tanto o sistema como suas conclusões são de uma beleza sem par na história da filosofia. E se a beleza é a verdade e a verdade é a beleza, a filosofia de Spinoza é tudo o que precisamos saber.
Escreveu sua obra maior, "Ética" (de Deus ) além de "Tratado Político" , "Tratado sobre a Religião e o Estado", "Melhoramento do Intelecto" .

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Ser sério


"Somos muito sérios em relação a certas coisas que nos proporcionam grande prazer, satisfação; desejamos a todo custo cultivar esse prazer - seja o prazer do sexo, seja o do preenchimento de uma ambição - um prazer qualquer. Mas bem poucos de nós são sérios no tocante ao percebimento do problema da existência, dos conflitos, das guerras, das ânsias, dos desesperos, da solidão, do sofrimento.
Ser sério em relação a essas coisas fundamentais significa aplicar a elas uma atenção contínua, e não um simples e esporádico interesse . Aquela seriedade deve constituir a base de nosso pensar, viver e agir. Quanto mais sérios formos, interiormente, tanto mais madureza teremos. A madureza nada tem que ver com a idade . Não é questão de acumular incontáveis experiências ou um saber imenso. Só é possível essa madureza com o conhecimento mais amplo e mais profundo de nós mesmos.
Que entendeis por “seriedade”? Ser sério, ardoroso, implica naturalmente a capacidade de descobrir o que é verdadeiro. Se a mente está acorrentada pelo saber, pela crença, à mercê das influências condicionadoras , pode ela descobrir alguma coisa nova?
Porque seriedade supõe aplicação ao aprender, quer dizer, aplicar toda a atenção a estudar não apenas determinada matéria, uma particularidade da vida, porém o todo da vida, que é um campo imenso. Sério, ardoroso, apaixonado, “intenso”, é aquele que procura compreender o inteiro processo da consciência, ou seja, o todo da vida.
Por conseguinte, para o homem sério, que deseja aprender, o primeiro requisito é que esteja livre para investigar - isso significa não ter medo; que esteja livre para olhar, observar, criticar; que seja inteligentemente cético, não aceite opiniões. Como antes dissemos, quando caminhamos com a luz de outrem, essa luz nos levará à escuridão - não importa quem seja o que nos oferece a luz. Mas, para podermos caminhar com a luz de nossa própria compreensão, é preciso atenção e silêncio e, por conseguinte, muita seriedade.
Se um homem deseja descobrir uma nova maneira de vida - uma vida livre de violência, de total liberdade interior, e a esse descobrimento devota seu tempo, sua energia, seus pensamentos, tudo - a essa pessoa eu chamaria de homem sério. Esse homem não se deixa facilmente desviar de seu intento; poderá buscar entretenimentos, mas sua rota está traçada. Isso não significa ser dogmático, obstinado, inadaptável. Ele está pronto a prestar ouvidos a outros, a considerar, examinar, observar.
A maior parte de nós, em ficando graves, perde o senso de alegria. A seriedade sem alegria, em muitos casos é artificial, e por isso deve ser evitada.
Se cultivardes a seriedade com a alegria que decorre do fato de o terdes em vosso coração (o Eterno), como parte de vós mesmos, então essa seriedade se torna deleite em vez de se tornar morbidez e expressões rudes. "

Jiddu Krishnamurti

- Resolução de início de ano: continuar o mesmo caminho de ameaça 'as sombras, 'as falsidades e 'as mentiras, em batalhas mais duras, porém, cheias de ternura.