domingo, 29 de julho de 2012

Experiencia de Luz


Abalam alicerces antes constituídos. Alguns se veem fora do corpo, outros veem alguma luz, outros ainda viajam pelos confins do Universo em algum "corpo diferente" , mas em todos a experiencia muda a visão da vida, da morte, de perguntas basicas como "qual sentido da vida" porque perde o sentido uma pergunta como essa. Certezas são construidas, muitas vezes baseadas no que aprenderam na fé e na crença, ou mesmo utilizando-se de alguma substancia quimica, mas tudo isso ainda é algo relativo ao "Eu" com seus conceitos próprios que não responde a Universalidade do fenomeno, porque justamente o fenomeno não é especifico a alguma crença que se carrega.
Há algo mais "além". Esse algo mostra que não podemos nos basear apenas no que nosso aprendizado e constituição nos formatou, mas sim podemos nos permitir expandir nossa visão do mundo. Alguma certeza pode ser criada sim, relativa 'a eternidade, mas ao mesmo tempo não há eternidade naquilo que é formado pelo Tempo. O Ego, o Eu, aquilo que faz parte da memoria que acumula-se durante a vida e morre, não pode ser aquilo que é imortal e atemporal, porque o que é atemporal não morre e evidentemente está fora do tempo.
Somos formados pelo tempo. Nos desenvolvemos formatados pelo que nos chega em nossa volta. Nossa consciencia é o que experienciamos, aprendemos, gostamos, evitamos, brigamos , fugimos ou aceitamos. Somos e/ou nos iludimos profundamente com nossa memoria.
Existem pontos de vista quanto ao fenomeno. Um diametralmente oposto ao outro. Duas maneiras de pensar digladiam-se: Materialismo e Espiritualismo. Um nos diz que somos produto da materia e com a morte, desapareceremos.O outro modo nos diz que temos algo que é e faz parte da imortalidade, e todos nascem com isso.
Experiencias são explicadas pelos dois pontos de vista. Basicamente um ponto de vista nos diz que naqueles que tais experiencias ocorrem, algumas interações quimicas cerebrais provocam mudança do foco da consciencia, enquanto o outro ponto de vista nos diz basicamente o contrário: a mudança do foco da consciencia promove alterações quimicas no cerebro. Há dentro desses dois pontos de vista, outros fatores também, como alucinaçoes, alterações promovidas por drogas, auto-ilusão, etc. São estados alterados de consciencia. Sabemos que a mente, mente. Um exemplo clássico é visualizar imagem de santa em alguma deformação em vidros. Ocorre que há fenomenos na qual experiencias são relatadas não na fronteira da propria morte, muito menos pelo consumo de drogas, menos ainda pelo treinamento para tais experiencias, ou mesmo promovida pela Ciencia em seus experimentos provocado em alguma parte do cerebro.
Como explicar fenomenos onde visualiza-se a mesma imagem que um outro ser humano está vivendo no mesmo instante? Há , dizem, outra explicação. Essa não passa pelos polos radicais e opostos daqueles dois pontos de vista, sem antes uni-los , sem antes ultrapassa-los, transcende-los, e desse modo expandir-se na compreensão. Essa necessita de muito aprofundamento na alta espiritualidade, junto 'a  Metafísica - muito além que simples explicações tentam promover.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Metempsicose


Para compreendermos o conceito de metempsicose dos antigos filósofos platônicos é necessário, primeiro, compreendermos as idéias que eles tinham sobre “psichí” ou “princípio vital”, “pnevma” ou “espírito” e “idiótis” ou “personalidade”. Esses três termos são essenciais para a compreensão das idéias centrais do tema.
Psichí é o conjunto de forças que:
-Dão vida à matéria;
-Dão à matéria a capacidade de comunicar-se com o mundo que a cerca;
-Conferem inteligência e capacidade de sobrevivência;
-Nos seres-humanos controlam os instintos, percebem coisas e as classificam (como boas, más ou neutras);
-Guiam as ações de acordo com aquilo que é classificado e de acordo com as experiências prévias armazenadas na memória;
-Se comunica com o “soma”, o corpo, dele faz parte indissociavelmente e a ele transmite influências que podem ser benéficas ou maléficas.
Pnevma é aquilo que não pertence às classificações possíveis, ou seja, é parte do Absoluto, é a parcela que possui as “reminiscências da Verdade” e que faz com que Psichí identifique no mundo sensível aquilo que existe no mundo das idéias. Para compreender essa parte, é importante compreender bem a distinção que Platão faz entre o Mundo dos Sentidos e o Mundo das Idéias.
Pnevma é emanação do Todo, faz parte do Todo, é indissociável do Todo. Os antigos filósofos cristãos compreenderam muito bem isso quando aplicaram o termo “Pnevma” para a hipóstase mais abstrata da Trindade, ou seja, o “Espírito Santo”.
Idiótis é aquilo que chamamos de “personalidade” e que o filósofo budista Vasubhandu denominava “pudgala”. É apenas um conjunto de agregados, são características que temos devido a uma série de causas e condições mas que, individualmente, são vazias de substância real. Nós habitualmente chamamos as características de nossa personalidade de “eu” ou “meu”, mas isso não é real. Isso não é o eu (anatma).
Os tradutores latinos de Platão, até por uma questão lingüística, convencionaram chamar às três definições de Platão de “três almas”, ou seja, uma alma “racional”, uma alma “irascível” e uma alma “concupiscível”.
A alma irascível é a parte superior da psichí. Ela controla os instintos, dá o senso de bom, belo e verdadeiro ao homem e o faz buscar pela Verdade.
A alma concupiscível é a parte inferior da psichí. Ou seja, é o ponto onde as noções da psichí superior são submersas pelos instintos, pelas necessidades físicas, pelos desejos, pelos vícios etc.
Ambas as almas (concupiscível e irascível) formam a personalidade – idiótis - ambas são mortais, transitórias, efêmeras e ilusórias.
Há uma terceira alma, a “alma racional”. O termo “racional” pode ser facilmente confundido com a noção moderna que temos de “racionalidade” (um sentido cartesiano-iluminista), mas no caso, “racionalidade” se refere à potências superiores presentes no ser humano, ou seja, a capacidade de conhecer a Verdade além das definições e palavras, conhecer a Verdade pela “Reminiscência”, ou seja, pela “lembrança” da estada dessa “alma racional” no “hiperurânio”, no “Mundo das Idéias”.
A “alma racional” é justamente “Pnevma”. Pnevma é emanação do Absoluto, portanto, dele veio e para ele vai. Não é nossa personalidade, não tem nossas características, não tem “personalidade” diferenciada ou individualidade. É parte do Absoluto e, portanto, é indefinível. Isso é Atman. Todo o resto é desprovido de realidade intrínseca (anatman).
O que “transmigra” é Pnevma, pois é indestrutível e Eterno.
Quando morremos nossos agregados, aquilo que forma nossa personalidade, isso que denominamos de “eu”, acaba. Nosso cérebro seca, nossos órgãos se desfazem e cada um dos elementos retorna para outras formas de vida manifesta. No entanto, aquilo que se manifestou em nós como “Verdadeira Natureza” não morre, simplesmente retorna ao Absoluto.
A grande Iluminação é a percepção e identificação com esse “Atman” Imortal, a descoberta plena do Grande Mistério que habita em nós. Isso é impossível de definir com palavras ou tentar demonstrar.
Quando Platão fala de metempsicose está se referindo, justamente, a esse processo de emanação do Todo Absoluto para a vida manifesta. Quando uma vida se manifesta de acordo com seu nível de consciência, traz a reminiscência, ou seja, a lembrança de seu ponto de partida (O Mundo das Idéias).
A lembrança é processada pela “psiquí” ou seja, daí o termo “metempsicose” (passar através das “psiquís” – desculpem o plural aportuguesado...).
Como fica claro, isso nada tem a ver com “reencarnar”, com um “espírito” que vai trocando de corpos ou com “lembrança de vidas passadas” ou coisa que o valha.
Infelizmente hoje podemos dizer que os acadêmicos nada compreendem dos ensinamentos originais dos grandes filósofos do passado. Ficam tentando ensinar aquilo que eles mesmos ainda não entenderam...

( texto original do excelente blog "Budismo Aristocratico": http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2010/04/metempsicose-platonica-x-reencarnacao.html )


terça-feira, 17 de julho de 2012

Tentar compreender


"Passou no seu casamento por aquilo que é quase um fato universal – os indivíduos são diferentes uns dos outros. Basicamente, constituem um para o outro um enigma indecifrável. Nunca existe acordo total. Se cometeu algum erro, esse erro consistiu em ter-se esforçado demasiadamente por compreender totalmente a sua mulher e por não ter contado com o fato de, no fundo, as pessoas não quererem saber que segredos estão adormecidos na sua alma. Quando nos esforçamos demasiado por penetrar noutra pessoa, descobrimos que a impelimos para uma posição defensiva e que ela cria resistências porque, nos nossos esforços para penetrar e compreender, ela sente-se forçada a examinar aquelas coisas em si mesma que não desejava examinar. Toda a gente tem o seu lado obscuro que – desde que tudo corra bem – é preferível não conhecer.


Mas isto não é erro seu. É uma verdade humana universal que é indubitavelmente verdadeira, mesmo que haja imensas pessoas que lhe garantam desejar saber tudo delas próprias. É muito provável que a sua mulher tivesse muitos pensamentos e sentimentos que a tornassem desconfortável e que ela desejava ocultar de si mesma. Isto é simplesmente humano. É também por este motivo que tantas pessoas idosas se refugiam na própria solidão, onde não serão incomodadas. E é sempre sobre coisas de que elas não desejariam estar muito cientes. O senhor não é, obviamente, responsável pela existência destes conteúdos psíquicos. Se, apesar disto, ainda for atormentado por sentimentos de culpa, reflita então sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isto poderá eventualmente curá-lo dos seus sentimentos de culpa relativamente à sua mulher."


Carl Jung, in ‘Cartas’

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sofrer


“Quanto mais sofremos, mais o ego se fortalece.
Achamos que sofremos “por nós”, que o sofrimento é
necessário. Acreditamos que sofremos para suprimir o
sofrimento e que ele logo desaparecerá. Ora, ele sempre
volta mais forte e, habituados, nem mais o sentimos. É aí
que ele ganha terreno. E quanto mais sofremos, menos
queremos olhar o sofrimento de frente, pois tal atitude nos
obriga a “nos” questionar profundamente. Na verdade e
muito pelo contrário, só assim poderíamos nos
reencontrar. Mas é justamente esse o problema: não somos
capazes de distinguir entre o si e o ego e tememos,
portanto, nos perder. Não sabemos mais quem somos.
Então, continuamos a nutrir nossos parasitas, esperando
que isso provoque algum alívio em nossa situação. É
assim que nos tornamos dependentes do sofrimento.”
“Os mecanismos que provocam o sofrimento se autosustentam.
Nutrem-se da energia da alma para fazê-la
voltar-se contra si mesma. Tornam-se necessários, fazem-se
passar por ela, quando, na verdade, trabalham para
destruí-la. Chamamos de ‘ego’ a imagem protetora que o
conjunto desses parasitas edifica a fim de enganar a alma.”


( o Fogo Liberador - Introdução) 

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Ego illusion

Necessário deixar certas ilusões de lado, pela simples preguiça em raciocinar - e como consequencia se deixar levar por ideias falsas. A idéia de uma evolução ou crescimento espiritual pressupõe a necessidade em desenvolver-se ao longo do tempo. Oras! aquilo que em principio é eterno (espirito), imortal e atemporal não pode desenvolver-se , pois tudo que se desenvolve ou cresce, necessita de tempo - logo, não é eterno nem atemporal . Tudo que nasce, seja simples e ignorante, necessariamente  tem um fim.





Consciência de campo e ética de campo


* artigo escrito em 1978. Capítulo do livro O paradigma holográfico e outros paradoxos – Ken Wilber – Ed. Cultrix - Renée Weber


A teoria de David Bohm revela uma notável cosmologia. Talvez não menos notável que seu conteúdo seja a sua proveniência, um físico. Em nossa época de compartimentalização profissional, surge a questão: Por que um eminente físico teórico, com uma reputação científica em jogo, devota-se à exploração da consciência?

Uma abordagem abrangente e enfática da visão de Bohm acerca do universo traz luz a essa questão. Seu contacto com a filosofia indiana, em especial com o sábio hindu Krishnamurti, convenceu-o de que o pensamento, a forma de consciência que nos é mais familiar e na qual habitualmente funcionamos, corrompe a realidade. A velha esperança da metafísica e da física, de que o pensamento pudesse revelar a realidade, está necessariamente condenada. O pensamento é uma habilidade reativa e não ativa, sintonizando apenas parcialmente o homem com a natureza, e distorcendo a maior parte dela. O pensamento é uma espécie de consciência fossilizada, operando dentro do “conhecido” e, desse modo, por definição, não é criativo. A realidade ou aquilo que é fundamental (Bohm não iguala os dois, mas qualquer esclarecimento sobre isso está aquém do alcance deste artigo), as investigações de Bohm o convenceram disso, é algo sempre novo. Trata-se de um processo vivo. Uma vez que o pensamento está limitado pelo tempo, não pode apreender aquilo que se encontra além de um arcabouço finito espaço-temporal.
Bohm só admite com relutância as teorias de outros pensadores em suas discussões, insistindo em elaborar novamente a resolução de um determinado problema sem se apoiar no passado. Não obstante, ele admite que paralelos entre suas concepções e as de certos filósofos do passado. Um exemplo característico é o de Platão, cuja Alegoria de Caverna (República, VII) apresenta surpreendente coerência com a cosmologia de Bohm. Quando incitado, Bohm concorda com a correlação entre a caverna de Platão e a ordem explicada, e também com a correlação entre a metáfora da luz em Platão e a ordem implicada. Tanto a luz de Platão (Sol) como a ordem implicada de Bohm só podem ser apreendidas através de insight, ambas se acham além da linguagem, e ambassão inacessíveis exceto para indivíduos dispostos a sofrer uma mudança vigorosa e decidida. Os domínios que Bohm caracteriza como estando “infinitamente além” até mesmo da ordem implicada – a saber, verdade, inteligência, insight, compaixão – são comparáveis aos princípios fundamentais de Platão: verdade, beleza, o bem, a unidade.
Outras tradições históricas vêm à mente. No mundo ocidental, Plotino, Leibniz e Spinoza; no Oriente, Buda, Shankara e a jnana ioga. Esta, cuja afinidade com Krishnamurti e Bohm  é notável, é a ioga do discernimento e da discriminação. Ela evita a metafísica e a religião exotérica, o ritual e os sistemas de símbolos em favor de um puro estado de percepção atenta e livre de arcabouços ou filtros. É conhecida na tradição como “a via que sobe direto pelo lado da montanha”, e é considerada a via mais direta e difícil que existe. Diz-se que somente muito poucas pessoas estão propensas a satisfazer suas exigências ou são capazes de realizar tal façanha. De acordo com aqueles que nos deixaram o relato de suas experiências, seu ponto mais alto é o silêncio”, e junta essa descoberta à metodologia: “Por que você tagarela a respeito de Deus? Não sabe que tudo o que diz é falso?”
Além dessas poucas observações, devemos deixar a tradição para trás. Embora possa apresentar interesse histórico e psicológico unirmos-nos a outros exploradores dessa quietude fecunda, ficar agarrado ao passado é um obstáculo e uma traição ao momento vivo recém-criado, para onde se dirige o foco total de Bohm. Por mais interessantes que possam ser os filósofos ou os sistemas que alguém introduza numa discussão com ele, Bohm, firmemente, os reduz a um mínimo e traz o assunto de volta ao presente, a este momento. É seu compromisso com essa manifestação viva da realidade, momento-a-momento, que une seu trabalho em física a seu interesse pela consciência.
A desintegração do átomo só pode ocorrer no presente e sempre pode ocorrer de novo. A analogia do átomo com o pensamento, e com um suposto pensador que produz o pensamento, é crucial. O pensador assemelha-se ao átomo, que permanece coeso ao longo do tempo graças à sua energia de ligação. Quando a energia de ligação do átomo físico é liberada num acelerador, a energia resultante, vertiginosamente grande, fica livre. Analogamente, são necessárias enormes quantidades de energia de ligação para criar e sustentar o “pensador”, e para manter sua ilusão de que ele é uma entidade estável. Essa energia, estando “amarrada”, é indisponível para outros propósitos, forçada a prestar serviço àquilo que Bohm chama de “autofraude” (self-decepcion) (fenômeno descrito em detalhe por Buda como ignorância, avidya, que significa, literalmente, “não ver”). O pensamento, ou o que Bohm denomina mente tridimensional, acreditando-se, equivocadamente, autônomo e irredutível, requer e, por isso, dissipa vastas quantidades de energia cósmica nessa ilusão. A energia que, desse modo, pré-desemboca nessa via não pode fluir por outros canais. A conseqüência disso é uma ecologia cósmica insalubre, que polui o holomovimento em pelo menos duas direções destrutivas. Primeiro, o holomovimento ilude a si mesmo, escolhendo a ficção em vez do fato, e por isso se escraviza. Segundo, o holomovimento se dilacera, substituindo o eu isolado pela consciência da humanidade, numa abstração alicerçada no sofisma, escravizando outros por meio de sua ira, de sua ganância, de sua competitividade e de sua ambição. O resultado desses dois passos errados é um mundo de sofrimento pessoal e interpessoal.
O primeiro desses passos errados, a ilusão de um ego, de um eu pessoal ou pensador, acha-se intimamente relacionado ao tempo e à morte. Sejamos claros. O pensador, não a consciência, é limitado pela morte. Esta, de acordo com esses pontos de vista, consiste precisamente na desintegração atômica psicológica descrita acima e não é, necessariamente, um sinônimo da dissolução do corpo físico (como observam muitos autores em seus relatos sobre a tradição esotérica). A morte psicológica ocorre quando a consciência caminha em compasso com o presente, que está sempre em movimento e se auto-renovando, e não permitindo que nenhuma parte de si mesmo seja aprisionada nem fixada como energia residual. É a energia residual que proporciona o arcabouço para aquilo que se tornará o pensador, o qual consiste em experiências não-digeridas, isto é, não assimiladas nem ordenadas pela mente, em memórias, padrões do hábito, identificações, desejos, aversões, projeções e fabricação de imagens. Não se trata de um processo puramente pessoal mas sim da energia de eons de tais processos esclerosados com o passar do tempo, persistindo tanto em nível pessoal quanto coletivo. A morte do ego desmantela essa superestrutura, deslocando-a para seu lugar correto nos bastidores de nossas vidas, em vez de dominar e desordenar o palco, como atualmente acontece. Bohm argumenta que tal movimento requer maior adaptação biológica não reduzida, bem como saúde, e não deve nos ameaçar. Pelo contrário, a “morte” assim concebida é, na verdade, a sua negação, conduzindo-nos ao eterno presente, além do alcance da morte.
Nosso segundo ponto refere-se à ética. Ao longo dos séculos, o pensador tagarela a respeito de absolutos inquestionavelmente nobres – Deus, consciência cósmica, inteligência universal ou amor – mas o domínio onde habita diariamente permanece destrutivo e caótico. Isso não nos deve surpreender. A qualidade tridimensional do pensamento bloqueia necessariamente a própria experiência da realidade vivenciada pelo pensador, e sobre a qual, durante séculos, ele fala usando palavras ocas. É a incomensurabilidade substantiva e lógica, e não a má vontade nem o esforço insuficiente, que responde por isso. O não-manifesto, como Bohm meticulosamente argumenta, é n-dimensional e atemporal, e não pode ser manipulado, seja como for, pelo pensamento tridimensional. A consciência, funcionando como pensamento (ao contrário do insight) não pode conhecer de imediato a verdade ou a compaixão, e nisso reside a raiz de seu malogro em incorporar essas energias à sua vida diária.
Somente quando o indivíduo dissolve o ego tridimensional, que consiste em matéria grosseira, a base de nossa existência pode jorrar através de nós, sem obstrução. Para um físico teórico, o paralelo desse estado de coisas com a mecânica quântica é evidente. Bohm estende sua aplicabilidade à psicologia, incitando-nos à dissolução do pensador como a mais alta prioridade que pode ser empreendida por aquele que busca a verdade. Com essa concepção, ele oscila margeando a fronteira daquilo que é culturalmente aceitável, na interface entre a física e a religião. É um terreno estranho, uma vez que nossa cultura atual, carecendo de qualquer conceito concebível para explicá-lo, rejeita um tal vínculo como algo confuso, e até mesmo absurdo. Entretanto, por mais estranha e inédita que possa ser, essa integração é justificada pelo modelo de Bohm, segundo o qual o universo é um holomovimento. O desmantelamento do pensador produz energia que é qualitativamente carregada, não-neutra ou isenta de valor. É energia livre e fluente, caracterizada pela totalidade, pela n-dimensionalidade e pela força da compaixão. A física e a ética tornam-se também uma só nesse processo, porque a energia do todo [whole] está, de certa forma, intimamente relacionada com aquilo que chamamos de santidade [holiness]. Em resumo, a própria energia é amor.
À desintegração atômica aplicada à consciência Bohm e Krishnamurti dão o nome de “percepção (ou consciência) atenta” (awareness). Tal processo proporciona à consciência acesso direto àquela energia, e a conduz à certeza experimental, baseada na evidência, de que a suprema natureza do universo é uma energia de amor. Os místicos proclamaram isso a uma só voz. O que é surpreendente é o fato de um físico contemporâneo interessar-se por tal teoria e pelo seu método. Naturalmente, é verdade que, em muitos aspectos, os objetivos do místico coincidem com os do físico, isto é, o contacto com o que é fundamental. Mas há uma diferença crítica. A desintegração do átomo é um empreendimento dualista; o físico (sujeito) trabalha sobre um objeto que se supõe estar fora dele. A mudança do objeto não modifica fundamentalmente o sujeito. Por outro lado, a desestruturação do pensador envolve necessariamente o próprio operador ou experimentador, porque é ele o objeto-de-teste em questão, o agente transformador e, ao mesmo tempo, o paciente, que sofre a transformação. Daí a resistência, o caráter árduo e a grande raridade de tal evento.
Embora raro, isso ocorre, e conforme se sugeriu acima, Bohm associa sua realização à ética. A desintegração de átomos psicológica despolui o que incontáveis aglomerados egóicos ilusórios (análogos a espasmos que reduzem o fluxo dentro do todo) poluíram com seu mal posicionado sentido de separatividade e suas prioridades mantidas pelo ego, resultando em sofrimento universal. O desintegrador de átomos psicológico coincide, desse modo, com o santo, que não mais contribui para o sofrimento coletivo da humanidade mas, em vez disso, torna-se um canal  para a ilimitada energia da compaixão. A consciência torna-se um conduto alinhado com a energia do universo, irradiando-a para o mundo humano e das criaturas sem distorcê-la ou desviá-la para seus próprios objetivos autocentralizados.
Curiosamente, a despeito da convicção de Bohm de que é esse o estado de coisas verdadeiro e desejável, que o nosso conhecimento simplesmente ainda não alcançou, ele reluta em discuti-lo a não ser através de breves alusões. Sua ênfase está na metodologia do processo de autodescondicionamento, e não na terra prometida que se encontraria no fim desse processo. Sua justificativa para isso é simples. Em seu estado condicionado, a mente, seja como for, nada mais pode fazer exceto traduzir o que incondicionado para padrões condicionados e, desse modo, ela perde a essência daquilo que procura. Fiel ao credo da ciência, Bohm apóia-se em provas experimentais, e não verbais. A conseqüência desse posicionamento é estranha, e até mesmo bizarra. Coisa alguma pode rivalizá-lo no domínio do conhecimento, nem mesmo o ardiloso paradoxo da mecânica quântica. Em certo nível, ele parece estar em disparidade com nossa constituição psicológica, pois até mesmo aqueles em que há pleno acordo intelectual com essa concepção acham difícil enfrentá-la no nível existencial de suas vidas, como qualquer pessoa que tenha vivenciado os ensinamentos de Krishnamurti atestará. O que é esse paradoxo? Apenas isto: quanto mais falamos a respeito da “verdade”, ou mesmo pensamos sobre ela, para mais longe de nós mesmos a afastamos (a analogia com o Princípio da Indeterminação de Heisenberg é óbvia). É o eu, o pensador, o criador do pensamento a respeito do sagrado ou de Deus que, nesse próprio ato, introduz as impurezas (tempo, self, linguagem, dualismo) e, desse modo, anuvia aquilo que de outra maneira seria imaculado (o próprio Krishnamurti usou essa palavra nesse contexto, numa conversa que tivemos em Ojai, em 1976).
Dificilmente se poderia considerar esse reconhecimento como algo novo mas sua articulação só raras vezes foi formulada com eloqüência tão sincera como a que se encontra no tom e na linguagem de Krishnamurti ou expressa com a clareza de Bohm. Não precisamos, de fato, perambular até muito longe. Kant nos vem à mente. Já no final do século XVIII, ele insistia em nossa impossibilidade – fundamentada na lógica ou nas leis do pensamento e, desse modo, constituindo um obstáculo que não é possível superar – de ter acesso à experiência do que é fundamental. Kant deu a esse domínio o nome de coisa-em-si, isto é, aquilo que Krishnamurti e Bohm chamam de inteligência ou compaixão (Buda, o dharma, e Platão, “o bem”). Kant liquidou a metafísica demonstrando cuidadosamente, na Crítica da Razão Pura, que tudo o que é pensável e nomeável deve, necessariamente, conformar-se com a estrutura inerente da mente: espaço, tempo, qualidade, quantidade, casualidade, etc. As categorias kantianas são aquelas às quais Bohm se refere como sendo o domínio da tridimensionalidade, com a distinção de que este último é mais amplo, abrangendo a emoção, a vontade, a intenção e outras qualidades psicológicas, bem como cognitivas. Todas essas qualidades dizem respeito ao mundo da experiência sensível (a ordem manifesta ou explicada, na linguagem de Bohm), e respondem pela nossa aptidão para funcionar no domínio fenomênico. Nessa dimensão, não temos outra escolha a não ser filtrar aquilo que é através do aparelho de percepção universal descrito acima. Nossa capacidade para a tradução é útil quando adequadamente empregada (isto é, biologicamente, ou em certas atividades práticas da vida diária). Fazer isso, no entanto, custa-nos um alto preço, como Kant compreendera. Uma vez que o númeno, ou coisa-em-si, não é capaz de ser apanhado na nossa rede, permanece imperscrutável para nós. O conhecimento, tanto para Kant como para Bohm, é o processo de sintonizar a manifestação (o fenômeno) do não-manifesto, a fim de torná-lo acessível a criaturas estruturadas da maneira como somos. Esse filtro e a conseqüente distorção acham-se “embutidos” em nós e são universais. Por definição, a coisa-em-si nunca pode aparecer-nos como seria sem a nossa ação de “sintonizá-la” com nosso aparelho de recepção finito.
Aqui os caminhos se separam. Krishnamurti, Bohm e toda a tradição mística concordam com a análise de Kant referente à experiência fenomênica. No entanto, eles avançam além de Kant, para proclamar a possibilidade de um estado de consciência que se encontra fora dessas barreiras. Para Kant, cujas concepções sobre o assunto foram aceitas como definitivas pela filosofia ocidental, nenhuma outra capacidade acha-se disponível em nós à qual possamos recorrer para alcançar o númeno. Bohm e os outros que mencionamos sustentam que essa capacidade existe no universo, e que, estritamente falando, ela não se encontra em nós. O desafio para o local individual de consciência está em fornecer a condição que permite à força universal fluir através dele sem obstáculo. O resultado não é o conhecimento, no sentido kantiano, mas compreensão e percepção atenta, um estado de percepção direta e não-dualista para o qual Kant não fez nenhuma provisão e não possuía nenhum vocabulário. Sua precondição é o estado de vazio, como Bohm insiste repetidas vezes, estado esse que acarreta uma suspensão das categorias kantianas e do espaço-tempo tridimensional. Tal vacuidade leva à cessação da consciência considerada como aquele que conhece e nos transforma num instrumento que, receptivamente, permite à inteligência numênica operar através de nós, irradiando sobre nossas vidas cotidianas. O mecanismo específico dessa operação é difícil de entender. Talvez nos tornemos semelhantes a “transformadores” elétricos capazes de reduzir a tensão da energia cósmica escalonada, por vias que nos permitam focalizá-la no nível microcósmico onde vivemos e agimos. Seja como for, o raro indivíduo que funciona como um canal desse tipo parece, àqueles que entram em contacto com ele, pertencer a uma nova espécie de homem. (Krishnamurti, para qualquer pessoa que o tenha conhecido, é, claramente, um exemplo típico.) Tal ser humano irradia claridade, inteligência, ordem e amor pela sua simples presença. Parece capaz de transmutar nosso caótico mundo impessoal num domínio ético pela sua própria atmosfera, que se acha inequivocamente carregada com energias para as quais não possuímos nomes nem conceitos.
Quando muito, podemos captar vagamente a presença e o poder dessa atmosfera em termos metafóricos e aproximados.
Perceber (não visualmente, é claro) as coisas como elas realmente são exige, usando o vocabulário de Bohm, a desativação dessas lentes, contornando-se o ego ou self que manipula o mundo através delas, e convertendo-se no canal vazio, aberto à totalidade que é a nossa fonte. Como já explicamos, nada nesse vazio pode ser caracterizado, pois a caracterização é a tradução de númeno em fenômeno, de não-manifesto em manifesto. Por isso, todas as linguagens falharão em apreender a essência do todo, até mesmo a mais pura delas, a matemática, como Platão reconhece na República. Apenas o silêncio é comensurável com sua natureza e apropriado ao seu universo de “discurso” (samadhi, a arrebatadora culminação extática da meditação iogue descrita por Patanjali, que significa literalmente “silêncio total” ou “quietude absoluta”).
Essas observações deviam lançar luz na firme postura de Bohm. A esperança de apreender o númeno através de olhos fenomênicos fundamenta-se num absurdo lógico, que Bohm chama de confusão e autofraude. O antiqüíssimo esforço filosófico para sintonizar a pureza de ser e percebê-la tal como seria em si mesma sem ser percebida por um conhecedor é, portanto, uma esperança vã. Aproximar-se da infinita inteligência cósmica, do amor ou insight de que fala Bohm requer que o conhecedor dê total passagem à pura consciência não-dualista. À luz dessa necessidade, as prioridades de Bohm tornam-se compreensíveis e parecem inevitáveis. A desintegração atômica restrita à matéria bruta – o campo do físico de partículas – é apenas um primeiro passo em nossa busca da realidade, e é o caminho presentemente seguido pela comunidade dos físicos. Mas Bohm vai muito além. A mutabilidade das formas (cf. Livro Tibetano dos Mortos) das partículas subatômicas (matéria bruta) não revelará os segredos do universo. Tudo o que ela pode nos oferecer é conhecimento, restrito, como vimos, ao domínio tridimensional.
Mas Bohm tem em mente um tipo mais sutil de desintegração atômica: retardar e, finalmente, parar a própria dança daquele que responde pelas mudanças de forma (shape-shifter), isto é, a morte do pensador tridimensional e seu renascimento no domínio n-dimensional da consciência. Tal evento levaria ao estado dinâmico a que Bohm se refere, onde criação, dissolução e criação fluiriam através de nós simultaneamente, como quanta de energia que nascem e se vão em frações de microssegundo, brotando de maneira sempre renovada, sem serem detidas, agarradas ou maculadas. A conseqüência disso – caso a tarefa seja bem-sucedida – é um novo paradigma do universo, da consciência e da realidade humana. Não será mais questão de um conhecedor que observa o conhecido através do abismo de conhecimento que os separa. Esse modelo de consciência desapontou-nos ao longo dos séculos em que nos apegamos obstinadamente a ele.
Deve ser posto de lado, como Bohm argumenta com muita clareza. Sua substituição é o austero paradigma de um campo de existência unificado, um universo autoconsciente que se reconhece e um todo íntegro e interconexo. Conhecedor e conhecido são, portanto, falsidades: elaborações toscas baseadas na abstração. Não se justificam face à maneira como as coisas realmente são, isto é, face ao monismo que Bohm alega ser plenamente compatível com a mensagem da física moderna, baseado nas penetrações que, até agora, ela empreendeu pelo interior da natureza. Embora os dados sejam aceitos pelos físicos, sua interpretação desses dados permanece restrita a campos que se excluem como naturezas conscientes.
É essa relutância e essa restrição que Bohm está desafiando. Ele quer explorar todas as conseqüências da teoria da mecânica quântica e está arriscando sua reputação em seu compromisso com o holomovimento. Sua visão é uma teoria de campo unificado com a qual a ciência nem sequer sonha, e na qual aquele que procura e aquilo que é procurado são apreendidos como um só, o holomovimento tornando-se transparente para si próprio. Tal campo unificado não é neutro nem destituído de valores, como requer a regra geral que impera na ciência contemporânea, mas uma energia inteligente e compassiva, manifestando-se num domínio ainda não-nascido, onde a física, a ética e a religião se fundem. Para a vida humana, a plena difusão da consciência de um tal domínio será revolucionária, e nos levará da informação à transformação e do conhecimento à sabedoria.
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Link abaixo do Livro " A totalidade  e a  ordem implicadas" - David Bohm
http://pt.scribd.com/doc/14688867/Bohm-David-A-totalidade-e-a-ordem-implicadas

terça-feira, 12 de junho de 2012

Sombra


O conceito de sombra em Jung é incompreensível sem entender o seu conceito de “persona” ou “ego ideal”. A origem do conceito jungiano de persona é a noção de prosopon, com a qual se designa no teatro grego a máscara que os actores usavam para encarnar uma personagem. A partir de Jung, o conceito de “persona” significa mais precisamente o eu social resultante dos esforços de adaptação realizados para observar as normas sociais, morais e educacionais do seu meio. A persona lança fora do seu campo de consciência todos os elementos - emoções, traços de carácter, talentos, atitudes - julgados inaceitáveis para as pessoas significativas do seu meio. Esse mecanismo produz no inconsciente uma contrapartida de si mesmo a que Jung chamou “sombra”.
 Para conseguir a aprovação dos outros, rejeitamos o que nós acreditávamos não ser aceitável para eles que, por esta razão se converteu em rejeitável para nós próprios. Esse não aceitável tanto pode ser positivo como negativo .
Portanto a sombra está configurada por tudo aquilo que não encaixa com a imagem de nós próprios que queremos dar aos outros, não encaixa com as expectativas que acreditamos terem aqueles pessoas às quais queremos agradar, para conseguir a sua aprovação e carinho, ou então, não encaixam com os “princípios” que escolhemos para nós próprios.
Em contraste com a sombra, que é o rosto que ocultamos, a “persona” ou a máscara, é o eu público, o semblante que mostramos ante o mundo. Aferramo-nos à máscara porque acreditamos que é o mais valioso que possuímos. “Quanto mais brilha a nossa máscara, mais escura é a nossa sombra”.
Quanto maior for a distância entre a imagem do que queremos ser e o que na verdade somos, mais nos invadirá a ansiedade, por temor a que outros calem o nosso ser.
A sombra produz-nos medo porque, se aparece, ameaça a nossa imagem aceitável. Tanto mais ameaçar-nos-á quanto mais tenhamos lutado por conseguir uma imagem ideal de nós próprios.
Para Jung, a sombra é um tesouro escondido no nosso campo, uma fonte potencial de riqueza que não está ao nosso alcance porque a mantemos enterrada. O que não queremos ser contém precisamente aquilo que nos faz ser completos.
Martínez Lozano diz que na realidade a sombra é “o meu outro eu”.
 “É o pólo oposto à nossa personalidade consciente.”
 Para nomear a sombra usa-se também a metáfora do “saco dos desperdícios”.  Metáfora que introduziu Robertt Bly, que sustenta que de cada vez que se rejeita uma emoção, qualidade, um traço de carácter, um talento, etc, é como se essas partes de si próprio fossem atiradas para um saco de desperdícios. Durante os primeiros 30 anos, o indivíduo está ocupado em enchê-lo com elementos ricos do seu ser; com o tempo, o saco torna-se cada vez mais pesado e difícil de encher. Será necessário rebuscar dentro, durante o resto da vida, para recuperar e tentar desenvolver os aspectos da pessoa, que nós próprios escondemos nele.
Se não se forem recuperando essas partes de nós próprios, o conteúdo do saco acabará por esmagar-nos com o seu peso: a pessoa então encontrar-se-á sem forças, deprimida, sentirá um grande vazio interior, uma grande ansiedade, que às vezes acaba por gerar uma depressão. 
Os elementos atirados para o “saco dos desperdícios” não estão inactivos mas sim “fermentando” e querendo sair. Isso consome uma grande quantidade de energia psíquica que fica aprisionada e provocará obsessões, angústias ou atormentar-nos-á projectando-se no exterior.
O fenómeno da sombra é muito complexo e a ela pertencem: o reprimido, o mecanismo específico de defesa que a protege, as reacções posteriores desencadeadas, tais como a tensão, o desgaste de energia, as projecções…
A sombra pugna sempre por sair para o exterior.
Tudo isso acontece através de mecanismos inconscientes, por isso a sombra é tão difícil de detectar e cada vez nos afasta mais do nosso autêntico ser. Uns mecanismos feitos de medo e de desprezo ao próprio ser, fazendo-o crer não tolerável, e por isso queremos dar uma imagem diferente.


( A SABEDORIA DE INTEGRAR A SOMBRA - Emma Martínez Ocaña )


- Deixando claro,  a sombra não é o "pecado" como a confunde pessoas em suas religiosidades como a "negação de Deus", mas sim é a negação do próprio Eu. É  autoalienação e requer a reconciliação com o Eu.
-Um profundo erro apregoado por muitas chamadas "espiritualidades" e seus "espiritualistas" de um modo geral, é a impregnação de um dualismo no olhar a sí mesmo como egoismo e olhar ao outro como generosidade, quando em realidade oculta a manipulação dos outros para se sentirem bem ou como forma de se sentirem necessitados.

Excelente vídeo sobre o tema "sombra" :




sexta-feira, 8 de junho de 2012

Vida e Morte


"... E o Deus dos deuses separou de si mesmo uma alma e a dotou de beleza.
E deu-lhe a suavidade da brisa matinal e o perfume das flores do campo e a doçura do luar.
E entregou-lhe a taça da alegria, dizendo-lhe: "Só poderás beber desta taça se esqueceres o passado e não te preocupares com o futuro." E entregou-lhe a taça da tristeza, dizendo: "Bebe dela, e compreenderás a essência da alegria da vida."
E soprou nela um amor que a abandonaria ao primeiro suspiro de saciedade, e uma meiguice que a abandonaria à primeira manifestação de orgulho.
E fez descer sobre ela, do céu, um instinto que lhe revelaria os caminhos da verdade.
E depositou nas suas profundezas uma visão que vê, o que não se vê.
E criou nela sentimentos que deslizam com as sombras e caminham com os fantasmas.
E vestiu-a de um vestido de paixão que os anjos teceram com as ondulações do arco-íris.
E colocou nela as trevas da dúvida, que são as sombras da luz.
E tomou fogo da forja do ódio, e ventos do deserto da ignorância, e areia do mar do egoísmo, e terra pisada pelos pés dos séculos e amassou todos esses elementos e fez o homem.
E deu-lhe uma força cega que se inflama nas horas de loucura e desvanece diante das tentações.
Depois, depositou nele a vida, que é o reflexo da morte.
E sorriu o Deus dos deuses, e chorou, e sentiu um amor incomensurável e infinito e uniu o homem e a alma."

( Khalil Gibran )

sábado, 2 de junho de 2012

a Vida não é um sonho


A vida é mais um lugar de parada,
Uma pausa no que está a ser,
Um lugar de descanso ao longo da estrada,
para a doce eternidade .
Todos nós temos diferentes percursos,
Caminhos diferentes ao longo do caminho,
Nós todos fomos feitos para aprender algumas coisas,
mas nunca quis ficar ...


Nosso destino é um lugar,
Muito maior do que sabemos.
Para alguns a viagem é mais rápida,
Para outros, a  jornada é mais lenta.
E quando a viagem termina, finalmente,
Teremos direito a  uma grande recompensa,
Encontrando uma paz duradoura,
Juntamente com o Senhor.


Se assemelha à vida que uma vez foi feita  da Luz,
Muito ampla, por si só para a visão humana?


Um eu absoluto - um elemento sem forma -


Tudo, o que vemos, todas as cores de todas as tonalidades
Ao invadir das trevas se fez? 
É a própria vida uma consciência ilimitada?
E todos os pensamentos, dores, alegrias instantes mortais,
Uma abraço da guerra entre a vida e a morte em luta?


Vídeo : Canal de Arass9 do Youtube : http://www.youtube.com/user/arass9?feature=watch

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Diógenes , o cão Cínico


A cena em que Diógenes de Sinope sai pela rua, em pleno dia, com uma lanterna acesa e pronunciando a frase “procuro o homem” é uma das mais emblemáticas da história da filosofia. 
Emblemática pelo que ela tem de inusitado, surpreendente e provocador, mas mais emblemática ainda pelo que ela representa do ponto de vista da intencionalidade do próprio Diógenes. 
O ato e o dito são evidentemente sarcásticos, mas tem o poder de desnudar uma realidade que insistia em ficar escondida sobre o manto da presunção e falsidade. 
O “procuro o homem” tem a força do desmascaramento da realidade ancorada em valores ocos, que já não diziam do verdadeiro ser em uma cultura decadente. Tem ainda a força provocativa positiva no sentido de anunciar que o homem verdadeiro é possível de ser, desde que dele se retire o que o prende às exterioridades materiais ou convenções sociais impostas, ancorando-se somente na autenticidade de viver.
( Recusa de todos os adornos, falsidades e aparencias que constituem o ser humano que vive em sociedade) 
Era esse o homem que Diógenes procurava. 
Ele procurava o homem com letra maiúscula, autêntico e coerente, o homem (e mulher) para além do aparecer, dos adornos externos do ter, poder e das convenções sociais. Diógenes procurava o homem reconciliado com sua genuína natureza, vivendo segundo essa natureza, sem apelos, subterfúgios ou bengalas que o desfigurassem. Essa condição e somente essa o faria feliz. 
Como em lugar nenhum via alguém assim, ironicamente, procurava-o.
Viver segundo a natureza, livre das convenções sociais (e religiosas) e daquilo que adere ao homem desde fora, vivendo sob o critério da interioridade subjetiva, eis o que possibilita, para Diógenes, a reconciliação do homem consigo mesmo e, por isso, feliz. 
O não ter nada de próprio não é um agir contra a natureza, pelo contrário, é um agir em favor da natureza. Para viver bem e feliz não é necessário bem viver, no sentido de possuir meios de acomodação e conforto, mas viver na simplicidade pois, como ele proclamava frequentemente, “‘os deuses haviam concedido aos homens meios fáceis de vida, porém os homens perderam de vista este benefício, pois necessitam de bolos de mel, de ungüentos e de coisas semelhantes’” .
 A vida pobre do homem Diógenes, que tem como habitação um barril, é uma contrapartida prática sinalizadora de uma verdade que crê ser superior da verdade convencional. Agora, viver segundo a natureza significa para Diógenes, viver segundo a autonomia e liberdade. 
O propósito de Diógenes é justamente trazer à vista aqueles meios fáceis de vida que todos, e não apenas alguns, têm condições de viver porque não exige nada além daquilo que a natureza oferece. Viver segundo a natureza significa bastar-se-a-si-mesmo e não-ter-necessidade-de-nada. 
Essa autarquia quando conquistada não pode ser perdida, pois independe das coisas exteriores que vem e vão. A autarquia, ou o bastar-se-a-si-mesmo possibilita a mais ampla liberdade, tanto da palavra quanto da ação. 
E nisso Diógenes é direto e conseqüente. Ele considerava que o que prende o homem é, sobretudo, o dinheiro, símbolo da posse exterior, e por conta disso definia o amor ao dinheiro como a “metrópole de todos os males” . É como se dissesse com isso que ou se escolhe entre a autonomia e a liberdade ou se escolhe a dependência cujo dinheiro é o seu símbolo máximo. 
O episódio de Diógenes e Alexandre, o Grande é paradigmático na compreensão da autonomia e da indiferença de Diógenes frente ao mundo. O grande conquistador poderia oferecer a Diógenes tudo o que quisesse de material e talvez de poder, mas Diógenes só quer uma coisa:
 “Deixe-me o meu sol”. 
Na verdade é tudo o que ele precisa, e é de graça, e Alexandre não pode dar, somente retirar com a sua sombra. 
"Se não fosse Alexandre, queria ser Diógenes"
 Não somente o dinheiro e o poder são para Diógenes inibidores da liberdade porque lhe exigem um alto preço, mas também qualquer ação que exige um comprometimento posterior e de alguma forma lhe arranque a liberdade. Por isso ele “elogiava os que estavam na iminência de casar mas não casavam, os que estavam a ponto de realizar uma viagem porém não viajavam, os que pensavam em dedicar-se à política mas não se dedicavam, os que desejavam constituir família e não a constituíam, os que se preparavam para conviver com os poderosos mas não se aproximavam deles”. 
É claro que essa postura é paradoxal, mas Diógenes não se preocupava em resolver paradoxos, vivia-os simplesmente. 
Para Sócrates a natureza do homem é a sua alma, entendida essa como a inteligência, consciência e interioridade. Diógenes aceita essa tese de Sócrates, mas vai além, radicalizando-o e de alguma forma revolucionando-o. Sócrates também vivia na simplicidade e sem qualquer conforto, suportando todo tipo de adversidade corporal em nome da excelência moral. Mas Sócrates louvava a virtude da alma advinda do conhecimento e da ciência. 
E aí está a diferença com Diógenes. Este desprezava as ciências, as doutrinas, os discursos articulados e lógicos contrapondo um conhecimento improvisado, circunstanciado, inventivo e bem humorado. 
Há uma filosofia que fundamenta essa atitude, qual seja, a de que a excelência moral ou a virtude é mais uma questão de ação do que uma questão de discurso e de conhecimento. 
A via da ciência e do discurso é o caminho mais longo para a vida boa, para a vida ética do verdadeiro homem. É nesse sentido que se pode compreender o desprezo que Diógenes nutria pela metafísica de Platão. 
Diógenes Laertios nos informa que Diógenes ao ouvir as preleções de Platão sobre a “mesidade”, a “tacidade”, ironicamente teria dito a Platão que ele via a mesa e a taça, mas não a mesidade e a tacidade. Temos aí uma postura que hoje poderíamos identificar com o pragmatismo na medida em que o conhecimento tem que estar a serviço da ação, em vista de um resultado, e não em vista a si mesmo. No caso de Diógenes o conhecimento devia estar a serviço de um resultado prático no nível ético.
Além disso, o “procuro o homem” tem um caráter de crítica às incoerências éticas vividas no seu tempo (e em nosso tempo). Dizer algo e fazer o seu contrário é o que Diógenes identifica como uma vida inautêntica. Nesse sentido o “procuro o homem” significa dizer: procuro o homem coerente e autêntico, o que em outras palavras significa dizer que procurava o homem virtuoso no pleno sentido. Sobre isso Laertios nos dá uma informação importante dizendo que Diógenes “admirava-se vendo os críticos estudarem os males de Odisseus apesar de ignorarem seus próprios males; ou os músicos afinarem as cordas da lira, sem cuidarem de obter harmonia de sua alma; ou os oradores cansarem-se de falar em justiça, mas não a praticarem; ou os avarentos esbravejarem contra o dinheiro, enquanto na realidade o amam exageradamente. 
Diógenes condenava as pessoas que, embora louvando os justos por estarem acima das riquezas, invejavam os homens muito ricos. Revoltavam-no os sacrifícios aos deuses pela saúde, porque durante os próprios sacrifícios as pessoas se banqueteavam em detrimento da saúde, e se admirava quando os escravos, embora vendo seus senhores comendo desbragadamente, nada subtraíam das iguarias” .
O “procuro o homem” não tem, portanto, uma conotação teórica, metafísica, no sentido de uma busca por uma definição do que seja a essência do homem. O “procuro o homem” tem muito mais uma conotação ético prática coerente, nos moldes de vida segundo a natureza . O não ter necessidade, o bastar-se-a-si-mesmo, e levar uma vida coerente segundo o mínimo, possibilita uma total liberdade imediata, sem recorrer a mediações de qualquer nível. Liberdade que para Diógenes é tanto liberdade de expressão quanto liberdade de ação.


Os cínicos eram conhecidos por serem francos e diretos (tal como um cão que late e abana o rabo), por saberem distinguir um filósofo do não-filósofo (tal como o cão distingue o amigo do inimigo), mas acima de tudo por viverem em público como os cães, livres e despudoradamente indiferentes às normas estabelecidas. O que a sociedade grega via com pudor e vergonha, os cínicos viam com naturalidade e despudor. O epíteto canino, aparentemente insultuoso, era também reivindicado pelos cínicos pela forma de pensar contra a deterioração , contra as regras deterioradas, contra os valores deteriorados da pólis, contra cultura deteriorada dominante. 
Por isso Diógenes se denominava "o cão" ( Kyon ).


(Texto de Gilmar Zampieri )


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Saber ver






O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seriam iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma sequestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores,
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.


(  Alberto Caeiro )

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Força interior


A força interior surge quando se ultrapassa algum medo, alguma angustia, entraves, traumas .
O autoconhecimento permite saber-se, conhecer-se, talvez  após o acontecimento, e desde que refletindo sobre sí mesmo. 
O ideal é a plena atenção sobre sí e sobre o outro no momento do vivenciar. Seja o outro uma pessoa, uma idéia, ou algum texto. As reações fornecem esse ensinamento - basta atenção em sí e no outro. Se algum texto agride, é a reação sobre o proprio condicionamento que produz o desequilibrio. Se alguém de alguma forma agride, é reação sobre algum valor que se carrega, que agride. Quando não há mais reação, então há paz. 
Mas há valores e VALORES . Alguns são Universais, verdadeiros e fazem tremer. Outros são falsos, irreais, e também fazem tremer. A diferença é 'a quem.
Lágrimas e dores podem permitir o fortalecer-se , mas esse é vivido de fato quando une-se junto 'a compreensão de sí. Nunca como forma em evitar outras dores, pois isso continua sendo medo.
Há em todos nós a coragem.
Apenas ou não percebemos, ou escondemos de algum modo, seja conscientes ou inconscientes.
De fato, psicanalistas, psicologos e análises no fundo não são necessários ! Pasme! Muitos deles sabem  disso.
Necessários são para alguns, quando a vida mostra ou chacoalha , obrigando-os a se olhar, e a se perder por justamente a confusão não dissipar. Se essa pessoa não consegue se olhar, pode procurar ajuda, e é uma otima maneira em se ajudar. É uma busca por explicações, e essa surge como  uma porta ao autoconhecimento. Essa é uma busca por sí mesmo. É busca por compreensão, que pede, junto 'a angustia.
Esses profissionais são "acessórios" que um dia podem ser descartados.
Isso é normal, perfeitamente normal. Mas há os que fornecem essa ajuda apenas pelo puro amor ao outro, e nada mais... Como exemplo, um amigo que tenha estrutura em compreender.
Essas  coisas podem produzir dor, mas essa também  permite o poder da transmutação, da transcendencia.
Um dia aprende-se a aprender a olhar-se, sem qualquer outro .
Um dia aprende-se a comungar em todo vosso ser, sem medo do outro.
Se desejamos um mundo melhor, devemos começar em nós mesmos o inicio dessa melhoria. Essa responsabilidade fatalmente inicia-se no autoconhecimento.
O mal não é oposição ao bem. O mal é produto de profunda ignorancia e inconsciencia. O bem é a forma natural do deixar fluir. É inerente 'a vida quando descobrimos que o que atrapalha é achar-se centro da vida que giraria em torno de sí. Eis o erro. Eis as angustias , dores e lagrimas sobre sí . Lagrimas podem purgar a ilusão - se prestarmos tamanha atenção.
Muitos não se importam com nada, e produzirão sombras. Outros nunca se importarão com isso, mas reclamarão .Outros resvalam nisso e esquecem logo depois. Alguns poucos levarão 'a sério, e vivenciarão.
Diz a mitologia que os deuses invejam os homens, porque esses podem morrer.
Seja, então, sua própria morte.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sofrimento

Quanto mais voce sofre, da maneira em projetar um futuro, mais o ego se fortalece. 
Achas que sofrer é necessário, ou acreditas que se conscientiza somente através do sofrer ? Acreditas que sofremos para suprimir o sofrimento e que ele logo desaparecerá ?
Ora, ele sempre volta mais forte e, habituados, nem mais o sentimos. 
É aí que ele ganha terreno. E quanto mais sofremos, menos queremos olhar o sofrimento de frente, pois tal atitude nos obriga a “nos”questionar profundamente. 
Na verdade, só assim poderíamos nos reencontrar. 
Mas é justamente esse o problema:
Não somos mais capazes de distinguir entre o si e o ego... e tememos, portanto, nos perder.
Não sabemos mais quem somos.
Então, continuamos a nutrir nossos parasitas, esperando que isso provoque algum alívio em nossa situação, como se gostássemos disso, em uma nova ilusão. 
É assim que nos tornamos dependentes do sofrimento.
...
Que tal jogarmos tudo ao lixo, inclusive a dó de sí mesmo ?


sábado, 5 de maio de 2012

Rui Barbosa


"De tanto ver triunfar as nulidades; 
de tanto ver prosperar a desonra, 
de tanto ver crescer a injustica, 
de tanto ver agigantarem-se os
poderes nas maos dos maus, 
o homem chega a desanimar-se da virtude, 
a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto." 


Rui Barbosa - o maior brasileiro de todos os tempos

terça-feira, 1 de maio de 2012

Profundezas da Meditação



" A meditação é uma viagem para as profundezas do coração e da mente, a realidade interior da própria essência, uma exploração de quem somos e o que somos. Esta jornada espiritual é nada mais e nada menos do que descobrir esta realidade interior.Este caminho de meditação é totalmente livre de qualquer visão teísta e é totalmente livre de qualquer forma ou cor. É como água pura, não tem forma, não tem cor. Dependendo do recipiente que derramar a água, a água adota essa forma particular. Se você deseja congelar esta água pura, pode fazê-lo, colocando a água no congelador, mas logo que você tirá-la do congelador, ele retornará ao seu estado natural de água pura sem forma e sem cor ."
Esse caminho em sua pureza não pode e não deve ser influenciado por qualquer agente externo 'a sí  mesmo. 

Vídeo : Canal de Arass9 do Youtube : http://www.youtube.com/user/arass9?feature=watch