quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre o Governo


Que se entende por "governo"? Pessoas investidas de autoridade, um pouco burocratas, membros de gabinete, o primeiro-ministro, etc. Isso é o governo? Quem o elege? Sois vós, não é verdade? Sois os responsáveis por ele, não é exato? Tendes o governo que desejais - então, porque reclamais?... Sois vós os responsáveis e não o governo, porque o governo é a projeção, o prolongamento de vós mesmos - os seus valores são os vossos valores... garanto que também quereis ser exploradores, na ocasião oportuna, e por isso sustentais este jogo... Senhores, deveria existir uma classe de pessoas independentes do governo, não pertencentes à sociedade, à margem da sociedade, — para atuarem como guias. Essas são os “açoitadores”, os profetas, que vos apontam vossos grandes erros. Mas não existe nenhum grupo desses, porque o governo, no mundo moderno, não pode apoiar um tal grupo, um grupo sem autoridade, que não pertence ao governo, que não pertence a nenhuma religião, casta ou nação. É só um grupo desses que pode atuar como um freio aos governos. Porque os governos se estão tornando cada vez mais prepotentes, pondo ao seu serviço uma maioria de seres humanos, e em conseqüência os cidadãos, em números cada vez maiores, se vão tornando incapazes de pensar por si mesmos. O governo os controla e lhes diz o que devem fazer. Assim, só quando existe um grupo daqueles, um grupo enérgico, inteligente, ativo, só então há esperança de salvação. De outro modo, todos nós vamos acabar como empregados do governo, e o governo mais e mais nos dirá o que devemos fazer, e nos ensinará o que pensar, e não a pensar.

( Krishnamurti )


“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.”

(O Rei Lear - William Shakespeare)

O poder não é para ser conquistado, é para ser destruído.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Caos e valores


Existe um caos econômico motivado pela exagerada importância atribuída aos valores materiais. Procuramos resolvê-lo com o aumento dos valores materiais, produção de utilidades. Apelamos para a máquina, na busca de maiores satisfações, conferindo assim importância às coisas, à propriedade, ao nome e à casta. Em geral, estamos escravizados aos valores relativos aos sentidos, e o mundo ao redor de nós está organizado para aumentá-los e mantê-los.
 E como tais valores cada vez mais nos subjugam, envelhecemos sem reflexão, extenuados pela atividade externa, mas inativos e pobres interiormente. 
Todos necessitamos de vestuário, alimento e abrigo. Mas por que essas coisas assumiram tão tremenda importância, significação? 
As coisas assumem tal valor e significação desproporcionais, porque dependemos delas, psicologicamente, para o nosso bem-estar.
Elas nutrem a nossa vaidade; dão-nos prestígio social; fornecem-nos os meios de obtermos poder. Empregamo-las com o propósito de conseguir fins diversos dos que elas em si próprias significam. 
Muitos pensam " Dependemos das coisas porque somos pobres internamente e cobrimos essa pobreza do nosso ser com coisas", e essas acumulações externas, essas posses superficiais, tornam-se tão vitalmente importantes que por elas estamos dispostos a mentir, a fraudar, a lutar e a destruir-nos uns aos outros.
Tão importantes se tornaram, que, por causa delas, estamos matando, destruindo, massacrando, liquidando. Estamos nos abeirando de um precipício; cada uma de nossas ações está nos levando para lá; toda ação política, econômica, está fatalmente nos conduzindo para o precipício, arrastando-nos para aquele abismo caótico.
A avidez é um problema complexo. Viver no mundo da ganância sem ser ganancioso requer uma compreensão profunda; viver com simplicidade, ganhando a vida justamente, num mundo que está organizado sobre a base da agressão e da expansão econômica, só é possível para aqueles que estão descobrindo riquezas interiores.
(  Krishnamurti )



- Retiremos a vaidade de muitos, e veremos se algo sobra .

Jung certeiro :


" É um fato digno de nota que a moralidade da sociedade, como um todo, está na razão inversa do seu tamanho; quanto maior for o agregado de indivíduos, tanto maior será a adição de fatores coletivos e a obliteração dos fatores individuais. E a moralidade, que está baseada no sentido moral e no mérito do indivíduo também se estiola. Portanto, qualquer indivíduo é pior em sociedade do que quando atua por si só. 
Um grupo numeroso, ainda que composto de indivíduos decentes, equivale no tocante à moralidade e inteligência a um animal violento, estúpido e primitivo, e não a uma reunião de homens. Quanto maior for a organização, mais duvidosa será sua moralidade e mais cega sua estupidez. A sociedade, acentuando automaticamente as qualidades coletivas de seus indivíduos representativos, premia a mediocridade e tudo o que se dispõe a vegetar num caminho fácil e imoral. As personalidades individualizadas e diferenciadas são arrancadas pela raiz. 
Tal processo se inicia na escola, continua na Universidade e predomina em todos os setores dirigidos pelo Estado. "




Jung certeiro : Quanto maior a sociedade, maior a deterioração.

O bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

( Clarice Lispector )




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

a Essência das coisas


A essência de tudo na terra, visível e invisível é espiritual.
Ao penetrar na cidade do invisível, meu corpo está envolto por meu espírito.
Assim quem desligar o corpo do espírito ou o espírito do corpo está desviando seu coração da verdade.
A flor e sua fragrância são uma coisa só; cegos são os que negam a cor e a imagem da flor, dizendo que ela é apenas perfume pairando no ar.
Eles se portam como aqueles deficientes de olfato, para quem as flores são apenas forma e colorido, sem perfume.
Tudo o que existe na natureza existe em ti, e tudo o que tens em ti existe na natureza.
Estás além do alcance das coisas mais próximas e, mais ainda, a distância não te separa das coisas que estão longe de ti.
Todas as coisas, das mais baixas às mais sublimes, das menores às maiores, existem dentro de ti como coisas iguais.
Num átomo, são encontrados todos os elementos da terra. Uma gota d’água contém todos os segredos dos oceanos.
Num momento da mente são encontrados todos os movimentos de todas as leis existentes.

( Khalil Gibran.)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ascensão

É no esforço e no trabalho individuais, através de atos instintivos e de vontade, num jogo de poder em todos os níveis e em todas as áreas, numa luta de superação de obstáculos, que faz o homem evoluir.
O homem comum, de massa, é dependente do seu grupo:

 "Ele é em grande parte, controlado pelas compulsões inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa... e como tal ele depende, para sua energia e mais ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada." (Rudhyar.) 
A sua vida está apoiada nos seus amigos, na sua corporação, no seu grupo social, na nação com que se identifica. Ele não é um in-divíduo, na verdadeira acepção do termo, ele é ovelha de um rebanho. Na sua inconsciência acha que todos os homens são iguais. Os pontos de apoio de sua personalidade são a fé cega e a segurança psicológica que o grupo oferece. 
"O homem massificado não tem valor; é uma simples partícula que perdeu a sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade", afirma C. G. Jung.
O homem-massa é movido pelas paixões, amor e ódio, como magnificamente Padre Antônio Vieira, sintetiza as paixões humanas. A sua consciência é fragmentada, é um arquipélago, na citação de C. G. Jung, pois identifica cada coisa individual e separadamente, sem perceber o conjunto que, por sua vez, está inserido no todo. A sua percepção é dual e assume uma postura unilateral, determinada e dirigida. Num conceito amplo, ele está mergulhado na confusão porque não compreende as coisas do mundo. Ele está com uma verdade que se confunde com a verdade do seu grupo.
O homem comum segue um guia, um líder, uma autoridade, um mestre, um guru, um salvador. A sua religião exige vontade, disciplina, esforço e sacrifício para atingir a redenção ou a "iluminação".
A energia da vontade, entretanto, é naturalmente utilizada e direcionada pelo ego para o seu fortalecimento - querer é poder. A vontade inquebrantável, a disciplina, o esforço e o sacrifício poderão levar o ego à perfeição, mas não levarão o homem à iluminação, à Verdade, à Deus. No
entanto, somente aquele que aperfeiçoou o ego pode perdê-lo e assim, encontrar a sua verdade. Este não será um ato de vontade, mas acontecerá, quando menos esperar, por força da Lei que move a Vida, o Universo. A força da vontade passa agora para o domínio daquelas forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida (Nietzsche). Neste processo há a assimilação da "sombra":

 "A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. ... Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade.
Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões." (Jung).
O processo de assimilação da sombra promove a ascensão, a saída do rebanho, a libertação dos condicionamentos, o início de uma experiência de vida independente e livre, embora relativa - afinal o homem por mais independente que seja, é escravo do ar que respira. 
Ascender significa elevar-se, aglutinar as ilhas da consciência fragmentada para chegar a percepção do todo.
Ao libertar-se do rebanho o ser humano perceberá que ele é um universo, e é único. Tomar consciência da sua individualidade é acentuar a percepção da sua diferença em relação aos outros e emancipar-se das normas coletivas. As verdades – sempre são subjetivas - dos grandes profetas, gurus, mestres iluminados e de qualquer outro ser humano serão adaptados à sua natureza, à sua individualidade, ao seu tempo e à sua realidade, porque toda verdade é relativa. Enquanto as ovelhas são forçadas a se adaptar à doutrina dos seus guias, o homem que se libertou saberá separar o acessório do principal, as doutrinas de efeitos efêmeros das verdades fundamentais.
A Lei que move o universo não pode ser ensinada porque a sabedoria resulta da vivencia direta. A função dos mestres é despertar as pessoas. As verdades dos grandes mestres representam diretrizes. Elas servem como sinalizações, são setas nos caminhos (Rohden) que cada um deve trilhar individualmente, superando obstáculos e dificuldades porque os caminhos são pessoais, não há duas vidas - duas vias - iguais. Assim como cada pessoa tem uma reação individual perante os acontecimentos da vida, cada um tem uma forma de superar as suas dificuldades. Determinado obstáculo pode ser superado com facilidade por uns e ser uma barreira quase intransponível para outros. O mérito, portanto, não reside na superação objetiva mas no esforço subjetivo. 

Salvadores somente existem na mente de pessoas inconscientes.
O homem que ascendeu está naquele nível de que nos fala Platão: 

"quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante."
Entretanto, consciente ou inconscientemente, cada um tem a sua verdade, com a diferença de que o homem comum apega-se a ela como uma coisa certa e definitiva e o sábio continua com a mente e o coração abertos ao novo.

o Mistério Supremo


" O que é o estado supremo da consciência? São Paulo chamou-o de “a paz que está além de todo entendimento” e R.M. Bucke designou-o de “consciência cósmica”. No Zen-budismo, emprega-se o termo satori ou kensho; no yoga, samadhi ou moksha e, no taoísmo, o “Tao Absoluto”. Thomas Merton utilizou, para descrevê-lo, a expressão “inconsciente transcendental”; Abraham Maslow criou o termo “experiência máxima”; os sufis falam de “Fana”. Gurdjieff qualificou-o de Consciência Objetiva”, ao passo que os Quacres chamam-no de “a Luz Interior”. Jung referiu-se à “Individuação”e Bubber falava da “conexão Eu-Tu”. Quaisquer que sejam, porém, os nomes dados a esse fenômeno antigo e bem conhecido — luz, iluminação, libertação, experiência mística —, todos eles dizem respeito a um estado de percepção radicalmente diferente de nossa compreensão comum, de nossa habitual consciência desperta, de nossa mente diária.

Além disso, todos concordam em qualificá-lo como o estado supremo da consciência: uma percepção autotransformadora de nossa união com o Infinito. Está além do tempo e do espaço. Trata-se de uma experiência da infinitude que é a eternidade, da unidade ilimitada com toda a criação. Nossa percepção sensorial do “eu”, socialmente condicionada, despedaça-se e destrói-se devido a uma nova definição da pessoa em si, do eu. Nesta redefinição da pessoa em si, torno-me idêntico a toda humanidade, a toda vida e ao universo. As habituais fronteiras do ego desfazem-se à medida que o ego ultrapassa os limites do corpo e, de súbito, torna-se um com tudo aquilo que existe. O eu torna-se integrado à Alma Superior, tal como Emerson a denominou (e talvez integrado ao que Arthur Clarke, em Childhood’s End, chamou de Mente Superior). O Eu torna-se abnegado, o ego surge como uma ilusão e o jogo do ego chega ao fim. O Maitrayana Upanishad expressa-se deste modo: “Após perceber seu próprio eu como o EU, um homem torna-se abnegado. (…) Este é o mistério supremo.”

John White

  Gerard Dorn, um alquimista do século XVI falava  sobre "principium individuationis" = origem de "individuação" ; Khalil Gibran  fala de um "despertar de algo no fundo dos fundos da alma onde quem o sente não o pode expressar em palavras"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ama a ti mesmo


A tão conhecida frase de Jesus “ama o teu próximo como a ti mesmo”, base de toda a doutrina das igrejas cristãs, é repetida, automaticamente, como a maior verdade de todos os tempos. A frase parte da premissa de que todo homem ama a si mesmo.
Nós somos um todo, corpo físico, mente e instintos. Quem condena e reprime os instintos que são parte essencial de cada indivíduo, quem se castra física ou psicologicamente, quem proíbe o prazer e a liberdade não gosta, não ama a si mesmo. Estes, entretanto, são os princípios de muitas Religiões.
Se observarmos a moral cristã, perfeitamente identificada por Nietzsche, perceberemos que o cristão não ama a si mesmo: 
“São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. Esse ódio de tudo que é humano, de tudo o que é “animal” e mais ainda de tudo o que é “matéria”, esse temor dos sentidos ... esses horror da felicidade e da beleza... tudo isso significa vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida”.
No entanto, somente pode questionar a moral cristã ou de qualquer outra religião o sábio, o homem consciente, o homem integral, que evoluiu, o homem movido pela Ética do Espírito (Rohden). 
Muitos confundem liberdade com o viver instintivamente, destruindo e matando a seu bel prazer. Este, entretanto, é alguém que ainda está na fase do “caçador”, e portanto, é escravo da ignorância. Nas histórias mitológicas, o “caçador” refere-se àquele que mata as coisas do mundo; se as mata é porque não as ama; se não as ama é porque não as compreende; se não as compreende é porque está mergulhado na confusão. 
Nietzsche é considerado um dos maiores sábios de todos os tempos e o “caçador” não irá compreendê-lo. Na verdade, muito poucos o compreendem. 
Podemos afirmar, então, que o homem inconsciente não conhece a si mesmo, não se compreende e, por isso, não se ama. Exatamente porque não se ama, como poderá amar o outro? 
Conhecer-se a si mesmo, inteiro, corpo, mente e coração, compreender-se a si mesmo, só assim é possível amar-se. Só assim é possível viver plenamente, em comunhão com o Todo e amar o próximo :seres humanos, animais, plantas, rios, lagos, oceanos, montanhas... como a si mesmo.

Democracia e voto: Ilusões

O tema é tão óbvio 'as  consciencias mais adiantadas que torna-se mui dolorido ao observar sua veracidade nos dias atuais: a quantidade de votos de pessoas inconscientes sempre será  em maior numero, porque
*justamente* toda a maquina desse atual sistema promove  exatamente isso. 
Leia  o artigo abaixo, de uma lucidez espantosa :


Platão dizia que a Aristocracia (o governo dos melhores) é uma  das mais perfeitas formas de governo. E quem são os "melhores" na visão de Platão? São os que têm virtudes superiores, ou seja, que são guiados por uma moralidade interior que nasce de suas consciências. Além disso, justamente por terem virtudes superiores, amam o conhecimento e a sabedoria (filos + sofia = Amor ao conhecimento). 
É um governo de filósofos (FILÓSOFOS, não de "bacharéis", nem de "mestres" nem de "doutores" em Filosofia das Academias), ou seja, daqueles que aplicam o conhecimento da Filosofia em suas próprias ações. Nesse sentido, o "governo" é a aplicação na sociedade da "aretê", ou seja, da excelência e da perfeição do conhecimento.
Para que haja uma aristocracia é necessário que se forme uma elite (verdadeira, ou seja, uma elite de virtuosos e sábios) e que essa elite consiga chegar ao poder. Uma vez instalada essa elite, a sociedade seria conduzida como uma criança em busca da educação e da virtude. Do meio dessa mesma sociedade seriam separados os elementos superiores, ou seja, os aríston (os melhores) que dariam sucessão à Aristocracia.
Platão também ensina que a monarquia é uma forma superior de governo. 
No entanto, outros filósofos, como Francis Bacon, disseram que a monarquia é inferior à aristocracia.
Por quê? Porque a monarquia é a redução dessa elite a um único indivíduo, que é investido da palavra final sobre todos os assuntos, além de ser cultuado como se fosse "superior" ao resto dos aríston. Sua superioridade não é efetiva, mas apenas simbólica. 
Na verdade, não há como garantir que o sujeito coroado seja realmente superior (em virtudes e conhecimento) aos outros membros da aristocracia. Além disso, o caráter dinástico da sucessão monárquica (o pai passa para o filho) priva a sociedade de ser governada pelos efetivamente melhores para que seja governada pelos que são pretensamente "melhores" (há pretensão de sua superioridade apenas por terem como ascendente um monarca). 
Ainda, com a substituição do mérito e da sabedoria do indivíduo pela mera descendência biológica, é criada uma tensão interna na sociedade todas as vezes que o monarca ou seus descendentes não ajam de acordo com a sabedoria e a virtude. No caso da aristocracia, todo aquele que age de forma não-virtuosa ou ignorante é automaticamente excluído da própria idéia de "aríston". 
Os outros aristocratas o excluirão sem nenhuma hesitação. Já no caso da monarquia, o monarca e seus descendentes continuam sendo  "realeza" mesmo se forem dissolutos, ignorantes e conspurcadores. 
O que garante o aríston é a aretê. O que garante o rei ou a nobreza palaciana é apenas a pretensão de sabedoria, virtude e dignidade conferidas pela "mística" em torno do direito divino dos reis. Se o rei for sábio e virtuoso, a monarquia será excelente para a sociedade. Se o rei for um ser execrando, a monarquia será uma desgraça para a sociedade.
No Brasil, por exemplo, Dom Pedro I foi o exemplo de tudo o que um monarca não devia ser. Seus escândalos familiares, sua arrogância e sua ignorância se tornaram proverbiais. Seu pai, Dom João VI, era covarde, poltrão, ganancioso e ignorante. A rainha Carlota Joaquina tinha sede incontrolável pelo poder e nenhum escrúpulo moral para obtê-lo.
A primeira leva de "nobres" no Brasil foi daqueles comerciantes que cederam imóveis para a família fugitiva de Dom João VI que, borrando de medo, correu para o Brasil para não enfrentar Napoleão e abandonou o povo português perdido em meio ao caos.
Dom Pedro II foi um monarca acadêmico, amante das ciências e das letras. No entanto, em muitas ocasiões, foi manipulado pela Igreja e pelas pressões da burguesia "nobilitada". No Brasil, quem quisesse ser "nobre" deveria fazer doações à coroa, bancar dívidas da família real, conceder-lhe  imóveis e pagar caro pela "Carta de Mercê de Nobreza e Fidalguia" além dos impostos para a manutenção do status. Isso fez com que a grande maioria da nobreza titulada do Brasil fosse composta por burgueses que tinham dinheiro suficiente para bancar tudo o que era necessário para ser "nobilitado". 
Virtude e sabedoria não eram nada diante das taxas exigidas para ser "nobre". Algumas famílias com ancestrais nobres em Portugal, que ostentavam brasões de armas nas quintas, tendo em vista os impostos que teriam que ser recolhidos para a manutenção do status de "nobreza",mandavam picar à marreta e cinzel os brasões esculpidos na pedra dos solares para evitar a sangria de dinheiro...
Pedro I distribuiu "apenas" 5621 condecorações além de numerosos títulos de "nobreza". Pedro II outorgou 2190 graus na Ordem de Aviz e 5.947 na Ordem de Cristo, somando 8.137  condecorações. 
A situação da "nobreza" do Brasil era tão bizarra e absurda que um deputado da época chegou a declarar que "estaria na ausência de condecorações e fitas, o índice mais seguro de dignidade e bons serviços" e José Bonifácio disse que a distribuição indevida de mercês e de títulos de nobreza "criava mais republicanos do que todas as maquinações democráticas". 
Desnecessário fazer aqui uma lista de atos vergonhosos e imundos cometidos por "nobres" e membros da "realeza". Basta lembrarmos dos infames casos extraconjugais do príncipe Charles, dos filhos de Charles e Diana a caírem bêbados pelas ruas sendo auxiliados pelos motoristas, da "bunda-molice" do Duque de Edimburgo a pedir autorização para Churchill deixá-lo dar nome aos próprios filhos...
Isso tudo demonstra claramente que, de fato, a monarquia é uma forma de governo inferior à aristocracia. A nobilitação dos indivíduos foi se tornando, a cada dia, menos dependente de qualquer virtude real.
A democracia é uma das piores formas de governo possível. Só perde para a tirania. Na verdade é uma "oligocracia"  travestida de "democracia". 
A oligocracia é o governo de poucos, ou seja, o governo dos capitalistas que detém o capital (os meios de produção)- ou modernamente os chamados Socialistas Fabianos. 
Na oligocracia há uma falsa doutrina de "igualdade de oportunidades" sendo que, na verdade, o que verdadeiramente governa é o sistema de classes sociais definidas pela capacidade de consumo. 
Quanto mais dinheiro, mais capacidade de consumo. Quanto mais capacidade de consumo, maior influência na sociedade e, consequentemente, maior capacidade de manipulação e de controle dos mecanismos sociais e de governo (a corrupção).
Aquele que pode comprar máquinas e produzir bens (meios de produção), domina os assalariados e cria alianças que garantam a manutenção de seu "status quo". Nesse caso estão os grandes empresários, os
latifundiários e outros capitalistas (origem tb  da corrupção). 
A idéia de que votar é o mesmo que governar é a maior mentira contada pelo discurso "democrático". O voto da massa é facilmente manipulado pela mídia, pelo marketing e pelo discurso de apelo emocional. 
Em outras palavras, quem tem mais dinheiro para comprar tudo isso tem infinitamente mais chances de ter o poder "democrático" (inclusive maior tempo na midia para impor maior inconsciencia). O povo, manipulado e ignorante, acredita votar "livremente" sendo que sequer se organiza para pensar em quem gostaria de ter como representante. É simplesmente jogado diante de nomes de candidatos impostos e deve "escolher" com base em seus "acertados" critérios de análise.
A sociedade "democrática" é dividida não pela propensão dos indivíduos, mas pela quantidade de dinheiro acumulada. Se a desigualdade na aristocracia é baseada na maior quantidade de sabedoria e virtude e a desigualdade monárquica é baseada na proximidade dos extratos sociais à realeza,  a desigualdade democrática é baseada na maior quantidade de dinheiro acumulada.
Em outras palavras: Na aristocracia (ideal), é superior quem é sábio e virtuoso. Na monarquia é superior quem agrada ao rei e aos seus. Na "democracia" (oligarquia) é superior quem tem mais dinheiro.

(original: http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2012/06/aristocracia-monarquia-e-oligocracia.html )




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O que uma contenda jurídica ocorreria entre votos validos elegiveis e votos validos não-elegiveis *de forma alguma revela* , é que um presidente (governador,prefeito,etc) eleito com maioria acachapante de votos nulos e brancos dificilmente se manteria no cargo, dada a tamanha insignificância de votos válidos elegíveis e, sobretudo, a sua monstruosa rejeição. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Reto caminho


Aquele que percebe a existência da dor e conhece sua causa, remédio e extinção, compreende as quatros nobres verdades e está no bom caminho. 
Seu reto propósito em ser a luz que ilumina seus passos, e a palavra verdadeira, o seu refúgio. 
Caminha em linha reta, porque reta é a conduta.

Buda


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Culpa e Perdão


O ser humano já nasce culpado. Durante toda a sua vida aprende a se culpar. É culpado pelo pecado original; é culpado por não ser bonito, rico e inteligente, e é culpado porque seus filhos não são gênios nem santos. 
"A ancestral culpa humana, pela qual nos sentimos absolutamente condenados por crimes que não cometemos mas que é como se os tivéssemos cometido. Com requintes de crueldade que só a imaginação culposa será capaz. Mesmo quando somos nós mesmos as vítimas", diz Wilson Bueno.
 A ação praticada pelo homem motivada pela razão, pelo instinto ou pela emoção é um ato reflexo do seu caráter e da sua personalidade. É um ato essencialmente seu. Movido somente pelo instinto ou pela emoção o seu ato torna-se irracional, isto é, contrário à sua consciência moral. O sentimento de culpa é uma autocondenação com base nas leis draconianas da sua consciência formada pela sua educação moral. Culpado, busca o perdão.
Perdão, entretanto, não é algo que possa ser dado por um ser divino ou por qualquer outro ser humano. 
Perdão é algo que se dá a si mesmo. 
O perdão é a percepção, a compreensão íntima de que, pelas trevas da ignorância, agimos contra a Lei do Amor. 
Contra o Artigo Único, da Lei Única da Moral e da Ética: Ama o teu próximo como a ti mesmo. 
O próximo não é apenas o outro, mas o mundo que nos cerca, o planeta Terra em que vivemos. O perdão é a tomada de consciência de que o único mal que existe é a falta de amor, de união com o Todo.
A Lei Única foi desdobrada pela Religião em tantos códigos, leis, regulamentos, portarias, circulares e procedimentos que ela deixou de ser a Lei do Amor para transformar-se na Lei do Poder da Vontade dos Homens. Organizada pelas classes dominantes, classificada como revelação de Deus, foi criada a Justiça Divina. Pensamentos e palavras contrárias às "leis de Deus", rebeldia, independência e liberdade passaram a ser pecados. Pecados que geram culpa e que precisam do perdão, a ser concedido pelos "representantes" do Altíssimo. Este é o mundo do Ego. 
Nunca te arrependas de qualquer ação que tenhas cometido. "Não te acovardes diante de tuas ações! Não as repudies depois de consumadas! O remorso da consciência é indecente" afirma Nietzsche.
A vida é um eterno aprendizado e, portanto, é necessário errar. Só não erra quem não ousa, só não erra quem não luta, só não erra quem não age. Reconhecer, reparar e superar o erro é uma demonstração de altivez, é uma afirmação perante si mesmo, é uma demonstração da capacidade de vencer. 
O sábio aprende com seu erro, supera-o, e parte para novos desafios. O fraco quando age e erra se arrepende, se culpa e se acomoda.
A vida do ser humano pode ser pura, inocente e feliz baseada no amor. O inferno é criado pelo próprio homem que de gerações em gerações vai transmitindo as noções de pecado, culpa, castigo, recompensa e... de um Deus que está no céu.

domingo, 29 de julho de 2012

Experiencia de Luz


Abalam alicerces antes constituídos. Alguns se veem fora do corpo, outros veem alguma luz, outros ainda viajam pelos confins do Universo em algum "corpo diferente" , mas em todos a experiencia muda a visão da vida, da morte, de perguntas basicas como "qual sentido da vida" porque perde o sentido uma pergunta como essa. Certezas são construidas, muitas vezes baseadas no que aprenderam na fé e na crença, ou mesmo utilizando-se de alguma substancia quimica, mas tudo isso ainda é algo relativo ao "Eu" com seus conceitos próprios que não responde a Universalidade do fenomeno, porque justamente o fenomeno não é especifico a alguma crença que se carrega.
Há algo mais "além". Esse algo mostra que não podemos nos basear apenas no que nosso aprendizado e constituição nos formatou, mas sim podemos nos permitir expandir nossa visão do mundo. Alguma certeza pode ser criada sim, relativa 'a eternidade, mas ao mesmo tempo não há eternidade naquilo que é formado pelo Tempo. O Ego, o Eu, aquilo que faz parte da memoria que acumula-se durante a vida e morre, não pode ser aquilo que é imortal e atemporal, porque o que é atemporal não morre e evidentemente está fora do tempo.
Somos formados pelo tempo. Nos desenvolvemos formatados pelo que nos chega em nossa volta. Nossa consciencia é o que experienciamos, aprendemos, gostamos, evitamos, brigamos , fugimos ou aceitamos. Somos e/ou nos iludimos profundamente com nossa memoria.
Existem pontos de vista quanto ao fenomeno. Um diametralmente oposto ao outro. Duas maneiras de pensar digladiam-se: Materialismo e Espiritualismo. Um nos diz que somos produto da materia e com a morte, desapareceremos.O outro modo nos diz que temos algo que é e faz parte da imortalidade, e todos nascem com isso.
Experiencias são explicadas pelos dois pontos de vista. Basicamente um ponto de vista nos diz que naqueles que tais experiencias ocorrem, algumas interações quimicas cerebrais provocam mudança do foco da consciencia, enquanto o outro ponto de vista nos diz basicamente o contrário: a mudança do foco da consciencia promove alterações quimicas no cerebro. Há dentro desses dois pontos de vista, outros fatores também, como alucinaçoes, alterações promovidas por drogas, auto-ilusão, etc. São estados alterados de consciencia. Sabemos que a mente, mente. Um exemplo clássico é visualizar imagem de santa em alguma deformação em vidros. Ocorre que há fenomenos na qual experiencias são relatadas não na fronteira da propria morte, muito menos pelo consumo de drogas, menos ainda pelo treinamento para tais experiencias, ou mesmo promovida pela Ciencia em seus experimentos provocado em alguma parte do cerebro.
Como explicar fenomenos onde visualiza-se a mesma imagem que um outro ser humano está vivendo no mesmo instante? Há , dizem, outra explicação. Essa não passa pelos polos radicais e opostos daqueles dois pontos de vista, sem antes uni-los , sem antes ultrapassa-los, transcende-los, e desse modo expandir-se na compreensão. Essa necessita de muito aprofundamento na alta espiritualidade, junto 'a  Metafísica - muito além que simples explicações tentam promover.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Metempsicose


Para compreendermos o conceito de metempsicose dos antigos filósofos platônicos é necessário, primeiro, compreendermos as idéias que eles tinham sobre “psichí” ou “princípio vital”, “pnevma” ou “espírito” e “idiótis” ou “personalidade”. Esses três termos são essenciais para a compreensão das idéias centrais do tema.
Psichí é o conjunto de forças que:
-Dão vida à matéria;
-Dão à matéria a capacidade de comunicar-se com o mundo que a cerca;
-Conferem inteligência e capacidade de sobrevivência;
-Nos seres-humanos controlam os instintos, percebem coisas e as classificam (como boas, más ou neutras);
-Guiam as ações de acordo com aquilo que é classificado e de acordo com as experiências prévias armazenadas na memória;
-Se comunica com o “soma”, o corpo, dele faz parte indissociavelmente e a ele transmite influências que podem ser benéficas ou maléficas.
Pnevma é aquilo que não pertence às classificações possíveis, ou seja, é parte do Absoluto, é a parcela que possui as “reminiscências da Verdade” e que faz com que Psichí identifique no mundo sensível aquilo que existe no mundo das idéias. Para compreender essa parte, é importante compreender bem a distinção que Platão faz entre o Mundo dos Sentidos e o Mundo das Idéias.
Pnevma é emanação do Todo, faz parte do Todo, é indissociável do Todo. Os antigos filósofos cristãos compreenderam muito bem isso quando aplicaram o termo “Pnevma” para a hipóstase mais abstrata da Trindade, ou seja, o “Espírito Santo”.
Idiótis é aquilo que chamamos de “personalidade” e que o filósofo budista Vasubhandu denominava “pudgala”. É apenas um conjunto de agregados, são características que temos devido a uma série de causas e condições mas que, individualmente, são vazias de substância real. Nós habitualmente chamamos as características de nossa personalidade de “eu” ou “meu”, mas isso não é real. Isso não é o eu (anatma).
Os tradutores latinos de Platão, até por uma questão lingüística, convencionaram chamar às três definições de Platão de “três almas”, ou seja, uma alma “racional”, uma alma “irascível” e uma alma “concupiscível”.
A alma irascível é a parte superior da psichí. Ela controla os instintos, dá o senso de bom, belo e verdadeiro ao homem e o faz buscar pela Verdade.
A alma concupiscível é a parte inferior da psichí. Ou seja, é o ponto onde as noções da psichí superior são submersas pelos instintos, pelas necessidades físicas, pelos desejos, pelos vícios etc.
Ambas as almas (concupiscível e irascível) formam a personalidade – idiótis - ambas são mortais, transitórias, efêmeras e ilusórias.
Há uma terceira alma, a “alma racional”. O termo “racional” pode ser facilmente confundido com a noção moderna que temos de “racionalidade” (um sentido cartesiano-iluminista), mas no caso, “racionalidade” se refere à potências superiores presentes no ser humano, ou seja, a capacidade de conhecer a Verdade além das definições e palavras, conhecer a Verdade pela “Reminiscência”, ou seja, pela “lembrança” da estada dessa “alma racional” no “hiperurânio”, no “Mundo das Idéias”.
A “alma racional” é justamente “Pnevma”. Pnevma é emanação do Absoluto, portanto, dele veio e para ele vai. Não é nossa personalidade, não tem nossas características, não tem “personalidade” diferenciada ou individualidade. É parte do Absoluto e, portanto, é indefinível. Isso é Atman. Todo o resto é desprovido de realidade intrínseca (anatman).
O que “transmigra” é Pnevma, pois é indestrutível e Eterno.
Quando morremos nossos agregados, aquilo que forma nossa personalidade, isso que denominamos de “eu”, acaba. Nosso cérebro seca, nossos órgãos se desfazem e cada um dos elementos retorna para outras formas de vida manifesta. No entanto, aquilo que se manifestou em nós como “Verdadeira Natureza” não morre, simplesmente retorna ao Absoluto.
A grande Iluminação é a percepção e identificação com esse “Atman” Imortal, a descoberta plena do Grande Mistério que habita em nós. Isso é impossível de definir com palavras ou tentar demonstrar.
Quando Platão fala de metempsicose está se referindo, justamente, a esse processo de emanação do Todo Absoluto para a vida manifesta. Quando uma vida se manifesta de acordo com seu nível de consciência, traz a reminiscência, ou seja, a lembrança de seu ponto de partida (O Mundo das Idéias).
A lembrança é processada pela “psiquí” ou seja, daí o termo “metempsicose” (passar através das “psiquís” – desculpem o plural aportuguesado...).
Como fica claro, isso nada tem a ver com “reencarnar”, com um “espírito” que vai trocando de corpos ou com “lembrança de vidas passadas” ou coisa que o valha.
Infelizmente hoje podemos dizer que os acadêmicos nada compreendem dos ensinamentos originais dos grandes filósofos do passado. Ficam tentando ensinar aquilo que eles mesmos ainda não entenderam...

( texto original do excelente blog "Budismo Aristocratico": http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2010/04/metempsicose-platonica-x-reencarnacao.html )


terça-feira, 17 de julho de 2012

Tentar compreender


"Passou no seu casamento por aquilo que é quase um fato universal – os indivíduos são diferentes uns dos outros. Basicamente, constituem um para o outro um enigma indecifrável. Nunca existe acordo total. Se cometeu algum erro, esse erro consistiu em ter-se esforçado demasiadamente por compreender totalmente a sua mulher e por não ter contado com o fato de, no fundo, as pessoas não quererem saber que segredos estão adormecidos na sua alma. Quando nos esforçamos demasiado por penetrar noutra pessoa, descobrimos que a impelimos para uma posição defensiva e que ela cria resistências porque, nos nossos esforços para penetrar e compreender, ela sente-se forçada a examinar aquelas coisas em si mesma que não desejava examinar. Toda a gente tem o seu lado obscuro que – desde que tudo corra bem – é preferível não conhecer.


Mas isto não é erro seu. É uma verdade humana universal que é indubitavelmente verdadeira, mesmo que haja imensas pessoas que lhe garantam desejar saber tudo delas próprias. É muito provável que a sua mulher tivesse muitos pensamentos e sentimentos que a tornassem desconfortável e que ela desejava ocultar de si mesma. Isto é simplesmente humano. É também por este motivo que tantas pessoas idosas se refugiam na própria solidão, onde não serão incomodadas. E é sempre sobre coisas de que elas não desejariam estar muito cientes. O senhor não é, obviamente, responsável pela existência destes conteúdos psíquicos. Se, apesar disto, ainda for atormentado por sentimentos de culpa, reflita então sobre os pecados que não cometeu e que gostaria de ter cometido. Isto poderá eventualmente curá-lo dos seus sentimentos de culpa relativamente à sua mulher."


Carl Jung, in ‘Cartas’

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Sofrer


“Quanto mais sofremos, mais o ego se fortalece.
Achamos que sofremos “por nós”, que o sofrimento é
necessário. Acreditamos que sofremos para suprimir o
sofrimento e que ele logo desaparecerá. Ora, ele sempre
volta mais forte e, habituados, nem mais o sentimos. É aí
que ele ganha terreno. E quanto mais sofremos, menos
queremos olhar o sofrimento de frente, pois tal atitude nos
obriga a “nos” questionar profundamente. Na verdade e
muito pelo contrário, só assim poderíamos nos
reencontrar. Mas é justamente esse o problema: não somos
capazes de distinguir entre o si e o ego e tememos,
portanto, nos perder. Não sabemos mais quem somos.
Então, continuamos a nutrir nossos parasitas, esperando
que isso provoque algum alívio em nossa situação. É
assim que nos tornamos dependentes do sofrimento.”
“Os mecanismos que provocam o sofrimento se autosustentam.
Nutrem-se da energia da alma para fazê-la
voltar-se contra si mesma. Tornam-se necessários, fazem-se
passar por ela, quando, na verdade, trabalham para
destruí-la. Chamamos de ‘ego’ a imagem protetora que o
conjunto desses parasitas edifica a fim de enganar a alma.”


( o Fogo Liberador - Introdução)