quarta-feira, 13 de março de 2013

Criança

Quando voce chegou ao ponto em que nada te cause lamentação, ou lhe seja duro, e onde a dor não é mais dor pra voce, onde tudo lhe seja alegria perfeita, então sua criança (interior) de fato nasceu ( exterioriza-se: encontrou sua essencia divina onde a tristeza não pode penetrar). Lute pois para se assegurar que sua criança não seja apenas uma promessa, mas que nasça de fato .

- Meister Eckhart

segunda-feira, 4 de março de 2013

Imagem

"Na relação que existe entre dois seres humanos casados ou não - alguma vez há um verdadeiro contato psicológico? Eles dizem que estão relacionados, porém isso não é verdadeiro porque cada um tem uma imagem de si mesmo. E, agregada a essa imagem, está a imagem que cada um tem da pessoa com quem vive. Na realidade, tem duas imagens - ou múltiplas imagens. Como operam o pensamento e a memória? Sejamos simples. Você me diz: que maravilhosa pessoa eu sou. Eu gosto. Construí uma imagem e você se torna meu amigo. Você diz algo que eu não gosto, formei outra imagem. Portanto, a imagem padrão é construída através do prazer e da dor. Por gostar, você me transmite uma coisa agradável; e por não gostar você não se torna amável comigo. Observe isso em você mesmo. Construí uma imagem por que 
você disse algo agradável ou não agradável. Carrego tal imagem. Sou essa imagem. Da próxima vez que eu o encontrar, você é meu amigo, e assim por diante... Essas imagens se produzem por causa das reações que se recordam, as quais se convertem na imagem - a imagem que ele tem a respeito dela e a que ela tem a respeito dele. A relação estabelece-se entre essas duas imagens, que são os símbolos das recordações, dos padecimentos. Portanto, de fato não existe relação alguma. Assim é que o indivíduo se pergunta: é possível não ter nenhuma imagem do outro? Enquanto ele tiver uma imagem dela, e ela tiver uma imagem dele, tem de haver conflito, porque o cultivo das imagens destrói a relação. Por meio da observação, podemos descobrir se é possível não ter imagem alguma de si mesmo ou de outrem - estar por completo livre de imagens? Se você investigar realmente, profundamente, descobrirá que há criado uma imagem da outra pessoa, e ela, também, uma de você. Cada um criou uma imagem do outro, um quadro acerca do outro. Esses dois retratos, imagens, palavras, ficam em mútua relação. Onde há imagens, uma estampa do outro, deve haver conflito. E com essa imagem você olha para a pessoa. A imagem não é a pessoa. Ela é a reputação, e conceitos são facilmente criados; a reputação pode ser boa ou má. Mas o cérebro humano, o pensamento, cria a imagem. Torna-se esta última a conclusão, e vivemos por meio de imagens e imaginações. Bem, como posso olhar sem imagem? Porque, se você olha com uma imagem, isso implica, evidentemente, uma distorção. A imagem é o passado, que foi reunido pelo pensamento como resmungos, brigas, dominação, prazer, companheirismo e tudo o mais. É a imagem que separa; é a imagem que cria a distância e o tempo.É a imagem que produz conflito na relação. Pode a mente olhar, observar sem nenhuma imagem acumulada pelo tempo? Pode ela observar sem o observador - que é o passado, o “eu”? Posso olhá-lo sem a interferência dessa entidade condicionada, que é o “eu”? Certamente, o amor é aquele relacionamento no qual não há imagem."


Krishnamurti

sexta-feira, 1 de março de 2013

Quem pensamos que somos


Nosso sentido de quem somos determina o que percebemos como nossas necessidades e o que importa na nossa vida - e o que nos interessa tem o poder de nos irritar e perturbar. Podemos usar isso como um critério para descobrir até que ponto nos conhecemos. O que nos interessa não é o que dizemos nem aquilo em que acreditamos, mas o que nossas ações e reações revelam como importante e sério.
Portanto, talvez queiramos nos fazer a seguinte pergunta: o que me irrita e perturba? Se coisas pequenas têm a capacidade de nos atormentar, então quem pensamos que somos é exatamente isto: pequeno. Essa é nossa crença inconsciente. Quais são as coisas pequenas? No fim das contas, todas as coisas são pequenas porque todas elas são efêmeras.
Podemos até dizer: "Sei que sou um espírito imortal" ou "Estou cansado deste mundo louco. Tudo o que quero é paz" - até o telefone tocar. Más notícias: o mercado de ações caiu, o acordo pode não dar certo, o carro foi roubado, nossa sogra chegou, cancelaram a viagem, o contrato foi rompido, nosso parceiro ou parceira foi embora, alguém exige mais dinheiro, somos responsabilizados por algo. De repente ocorre um ímpeto de raiva, de ansiedade. Uma aspereza brota na nossa voz: "Não aguento mais isto."Acusamos e criticamos, atacamos, defendemos ou nos justificamos, e tudo acontece no piloto automático. Alguma coisa obviamente é muito mais importante agora do que a paz interior que um momento atrás dissemos que era tudo o que desejávamos. E já não somos mais um espírito imortal. O acordo, o dinheiro, o contrato, a perda ou a possibilidade da perda são mais relevantes. Para quem? Para o espírito imortal que dissemos ser? Não, para nosso pequeno eu que busca segurança ou satisfação em coisas que são transitórias e fica ansioso ou irado porque não consegue o que deseja. Bem, pelo menos agora sabemos quem de fato pensamos que somos.
Se a paz é de fato aquilo que desejamos, então devemos escolhê-la. Se ela fosse mais importante para nós do que qualquer outra coisa e se nós nos reconhecêssemos de verdade como um espírito em vez de um pequeno eu, permaneceríamos sem reagir e num absoluto estado de alerta quando confrontados com pessoas ou circunstâncias desafiadoras. Aceitaríamos de imediato a situação e, assim, nos tornaríamos um com ela em vez de nos separarmos dela. Depois, da nossa atenção consciente surgiria uma reação. Quem nós somos (consciência) - e não quem pensamos que somos (um pequeno eu) - estaria reagindo. Isso seria algo poderoso e eficaz e não faria de ninguém nem de uma situação um inimigo.
O mundo sempre se assegura de impedir que nos enganemos por muito tempo sobre quem de fato pensamos que somos nos mostrando o que realmente é importante para nós. A maneira como reagimos a pessoas e situações, sobretudo quando surge um desafio, é o melhor indício de até que ponto nos conhecemos a fundo.
Quanto mais limitada, quanto mais estreitamente egóica é a visão que temos de nós mesmos, mais nos concentramos nas limitações egóicas - na inconsciência - dos outros e reagimos a elas. Os "erros" das pessoas ou o que percebemos como suas falhas se tornam para nós a identidade delas. Isso significa que vemos apenas o ego nos outros e, assim, fortalecemos o ego em nós. Em vez de olharmos "através" do ego deles, olhamos "para" o ego. E quem está fazendo isso? O ego em nós.
As pessoas muito inconscientes sentem o próprio ego por meio do seu reflexo nos outros. Quando compreendemos que aquilo a que reagimos nos outros também está em nós (e algumas vezes apenas em nós), começamos a nos tornar conscientes do nosso próprio ego. Nesse estágio, podemos também compreender que estamos fazendo às pessoas o que pensávamos que elas estavam fazendo a nós. Paramos de nos ver como uma vítima.
Nós não somos o ego. Portanto, quando nos tornamos conscientes do ego em nós, isso não significa que sabemos quem somos - isso quer dizer que sabemos quem não somos. Mas é por meio do conhecimento de quem não somos que o maior obstáculo ao verdadeiro conhecimento de nós mesmos é removido.
Ninguém pode nos dizer quem somos. Seria apenas outro conceito, portanto não nos faria mudar. Quem nós somos não requer crença. Na verdade, toda crença é um obstáculo. Isso não exige nem mesmo nossa compreensão, uma vez que já somos quem somos. No entanto, sem a compreensão, quem nós somos não brilha neste mundo. Permanece na dimensão não manifestada que, é claro, é seu verdadeiro lar. Nós somos então como uma pessoa aparentemente pobre que não sabe que tem uma conta de 100 milhões de reais no banco. Com isso, nossa riqueza permanece um potencial oculto.

(Eckhart Tolle )

Seja voce

"Que cada uma seja ele mesmo. Que nossos pensamentos e nossas ações sejam os nossos. Que as ações de cada um lhe pertençam. E isto, sejam boas ou más.
Quando a alma tem o intelecto puro e impassível como guia, a plena disposição de si mesmo, então, dirige seu impulso para onde quer. Só então nosso ato é verdadeiramente nosso, e de ninguém mais, procedendo do interior da alma
como de uma [fonte de] pureza e de um princípio puro e dominador e soberano e não do efeito da ignorância e do desejo, pois, então seria a passividade e não a ação o
que atuaria em nós”. 



(Plotino)