terça-feira, 25 de dezembro de 2012

o Grande Deserto



Nós aprendemos a seguir caminhos que foram definidos pelos nossos pais e mestres que seguem uma tradição e uma cultura. Aprendemos a seguir caminhos conhecidos e testados que tem inicio, meio e fim; aprendemos a tratar objetivos a serem alcançados em curto, médio e longo prazos; aprendemos a separar o bem do mal, o certo do errado. Assim levamos a nossa vida, nos identificando com um grupo social, uma sociedade e uma nação. Nos sentimos parte de um núcleo familiar; do nosso grupo social e profissional; do nosso clube social, do nosso time de futebol, do nosso partido político, da nossa corrente filosófica e da nossa religião. Nos sentimos felizes e realizados porque temos uma suposta liberdade. " Liberdade" porque podemos escolher, com exceção da familia e da nossa natureza individual, o grupo do qual queremos participar.
O caminho tratado pela nossa mente racional e lógica. Os caminhos tem nomes ou rótulos porque são segmentos, partes de um todo. Assim nos identificamos com partes, com um trabalho feito pela mente que identifica, compara e separa. Por exemplo: alguem "gaúcho", "advogado", "gremista",  brasileiro e católico; outro "carioca", "vascaíno", "médico", brasileiro e adventista; etc. etc. Estes são apenas  exemplo de como somos parciais e de como todos estes valores estão profundamente impregnados na nossa mente - obviamente nalguns mais, noutros menos. Observem que as pessoas sentem orgulho de suas escolhas e essa paixão chega a tal ponto que são capazes de matar e morrer pelas suas "verdades". As paixões tornam as pessoas cegas e surdas para outras realidades. As escolhas reduzem as pessoas a um "rebanho" que segue um pastor, um ídolo, um filosofo, um líder, um mestre, um gurú, um salvador, uma "autoridade". A escolha nos incapacita de ver a imensa beleza que se estende para algum dos caminhos.
Muitos se dizem felizes com suas opções; muitos outros são infelizes e partem em busca de outros caminhos. Desses, a maioria depois de experimentar alguns encontra um com o qual se identifica e ao qual dedica o resto de sua vida. Alguns poucos não encontram respostas em nenhum caminho e começam a abrir trilhas próprias. Por que? Porque cada ser humano é um Universo. Cada vida é uma experiencia única. Não há duas vidas iguais. Não há duas experiencias iguais. Cada um tem o seu caminho que representa o desenvolvimento de sua natureza, de suas potencialidades. A verdade é individual, própria, e, portanto ninguém pode ensiná-la. Ela é uma descoberta pessoal. A felicidade consiste, portanto, em trilhar cada qual seu caminho conforme  características internas e externas.
A consciência, ao ultrapassar o ego, nos mostra que a natureza individual é propria e as experiencias únicas.
A tão propalada igualdade entre os homens não existe, pois nas motivações todos somos absolutamente diferentes uns dos outros. Essa diferença está no nível de consciencia e na herança genética, física e "na alma". A ampliação da consciência, que alguns também chamam de "ascenção", é um processo unico e individual. Ninguem terá uma identica experiencia. Esta somente pode ser rotulada em termos gerais como um processo de autotransformação, individuação, renascimento pelo espírito, etc.
Iniciamos por caminhos conhecidos; seguimos abrindo trilhas proprias em busca da Verdade, e, depois de experimentar toda sorte de belezas e dificuldades na travessia do grande deserto, começamos a despertar. Percebemos, então, que estamos de onde partimos. Retornamos ao ponto inicial. Procurávamos um tesouro - a Verdade - em terras distantes. Observamos que estávamos fora. Caminhamos, trilhamos terras distantes (a Ciência,Filosofias, Religiões, Doutrinas...) procurando respostas para a nossa ânsia interior. Buscávamos a Verdade fora de nós. Nunca a encontraríamos porque ela está dentro de nós.

Textos de alguns mestres:

Mestre Sufi:
"A verdade não  é um fim a ser alcançado num dado momento no futuro; É a realidade do passo que se dá neste preciso momento. É um erro pensar que a realidade é como uma linha horizontal, uma progressão linear, da causa-efeito, do começo ao fim, da idéia á realização. A realidade é um círculo infinito e cada ponto da circunferência é, simultaneamente, o centro, o ponto de partida e o ponto de chegada.
Onde quer que estejamos, aqui não há nem limiar, nem exterior, nem mais baixo, nem mais alto, nem princípio e nem fim. Seja o que for o que agora o mundo nos dá, nós estamos no centro das nossas vidas, passo a passo no caminho aberto. É isto. A paz última está no centro da forte tempestade da vida diária. Assim sendo, como podemos desprezar um grão de arroz que seja?
Conseguiste agarrar uma parte do tempo? Por favor, mostra-ma. Se o fizeste ou bem ela é um espécime morto (visto estar separado da corrente viva da vida) ou então não é nenhuma parte; É o todo!
Onde está este ínfimo instante? O cosmos inteiro está nele contido! E tu onde estás? Em nenhum outro lugar que não seja o centro do universo, onde também estão todos os instantes e todos os seres. Sabendo isto, como podes dividir o mundo em partes?
Devíamos ver este instante intemporal sem o fragmentar. Devíamos ver este presente sem espaço e este único milagre da vida original como a realidade total do nosso ser."

Tagore:
"Onde as rotas estão traçadas eu perco o meu rumo. Sobre o mar intenso, no azul do céu, não há nenhuma linha traçada. Sente-se a direção pelo voo dos pássaros, pelo brilho das estrelas, pelas flores das diferentes estações. E eu pergunto ao meu coração: acaso não conhece o invisível caminho?"

sábado, 22 de dezembro de 2012

Destruição libertadora


É bem óbvia a necessidade de uma revolução radical. A crise mundial a exige. Nossas vidas a exigem. Nossos incidentes, desejos, atividades, anseios de cada dia, a exigem. Nossos problemas a exigem. Faz-se necessária uma revolução fundamental, radical, porque tudo ruiu ao redor de nós. Embora, aparentemente, exista ordem, observa-se um lento declínio, uma lenta decomposição. A onda de destruição está superando constantemente a onda da vida. 
É necessária, pois, uma revolução, mas não a revolução baseada em idéia. Em vista da catástrofe que estamos presenciando - a constante repetição das guerras, o incessante conflito entre classes, entre pessoas, a horrível desigualdade econômica e social, de capacidades e talentos, o abismo que se abre entre os que são muito felizes, livres de perturbações, e os que se debatem nas malhas do ódio, do conflito e do sofrimento - em vista de tudo isso, há necessidade de uma revolução, de uma transformação completa.
A transformação não está no futuro, não pode estar no futuro. Ela só pode ser agora, momento a momento. Assim sendo, que entendemos por transformação? Ora, é muito simples: é ver o falso como falso, e o verdadeiro como verdadeiro. Ver a verdade no falso, e ver o falso naquilo que foi aceito como verdade. Quando se vê que uma coisa é falsa, essa coisa falsa se extingue. Quando se vê que a distinção de classes é falsa, gera conflitos, cria miséria, divisão entre os homens, se se percebe a verdade a esse respeito, essa própria verdade liberta. O próprio percebimento dessa verdade é transformação. 
E nós necessitamos deveras de uma mudança completa, de uma tremenda revolução. Necessitamos não de uma mudança de idéias, de padrões, mas, sim, da demolição, da destruição total de todos os padrões. E a mudança é necessária, pois não podeis continuar a viver com essas atitudes, crenças e dogmas tão insignificantes, estreitos, limitados. 
Tudo isso precisa ser destroçado, destruído. 

( Krishnamurti )
- Krishnamurti prega a saida consciente da sociedade promiscua e decadente, através de pequenas comunidades.



sábado, 15 de dezembro de 2012


Todo o homem que é um homem sério, tem de aprender a ficar sozinho no meio de todos, a pensar sozinho por todos e, se necessário, contra todos.

(Romain Rolland)



domingo, 9 de dezembro de 2012

Suas prisões


E o meu coração sangrou por dentro; pois só se pode ser livre quando o desejo de encontrar a liberdade se tornar a vossa torta e quando deixardes de falar de liberdade como objectivo e plenitude.
Sereis verdadeiramente livres não quando os vossos dias não tiverem uma preocupação nem as vossas noites necessidades ou mágoas.
Mas quando estas coisas rodearem a vossa vida e vós vos ergais acima delas, despidos e libertos.

 (Khalil Gibran )



quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

(Des) Amor

"A criança é a primeira vítima destas imagens, pois se trata de sufocar a liberdade desde o berço. 
É necessário tornar-los estúpidos e tirar-lhes toda capacidade de reflexão e de crítica. 
Tudo isso se faz, evidentemente, com a cumplicidade desconcertante dos pais que não buscam se quer resistir frente à força imponente de todos os meios modernos de comunicação. Eles mesmos compram todas as mercadorias necessárias para escravizar sua progenitura. Desapropriam-se da educação de seus filhos e deixam que o sistema alienador e medíocre, se encarregue dela."


Alimentação moderna


"Dispondo de um tempo cada vez mais limitado para preparar a comida que ingurgita, ele se vê obrigado a engolir rápido o que a indústria agroquímica produz, errando pelos supermercados à procura dos cartazes que a sociedade da falsa abundância consente em dar-lhe. Ai ainda, só lhe resta a ilusão da escolha. A abundância dos produtos alimentícios apenas dissimula sua degradação e sua falsificação. Não são mais que organismos geneticamente modificados, uma mistura de colorantes e conservantes, de pesticidas, de hormônios e de outras tantas invenções da modernidade. 
O ***prazer imediato é a regra*** do modo de alimentação dominante, também é a regra de todas as formas de consumo. 
E as conseqüências que ilustram esta forma de alimentação se vêem em todas as partes."



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Medicina ocidental


"A medicina ocidental só conhece um remédio contra os males dos quais sofrem os escravos modernos: a mutilação. É à base de cirurgias, de antibiótico ou de quimioterapia que se trata os pacientes da medicina mercantil. Nunca se ataca a origem do mal, senão que a suas conseqüências, pelo motivo de que esta busca da origem do mal nos conduziria inevitavelmente à condenação fatal da organização social em toda sua totalidade."



Possuidor e possuído


Todas as mercadorias, distribuídas massivamente em um curto lapso de tempo, modificam profundamente as relações humanas: servem por um lado para isolar os homens um pouco mais de seu semelhante e por outro a difundir as mensagens dominantes do sistema. As coisas que se possuem acabam por possuir-nos. 


E a moda atual da mediocridade humana é viajar apenas para compras em outras cidades em outros países.

" Assim como os imperadores da Roma antiga compravam a submissão do povo com pão e jogos, hoje em dia é com diversões e consumo do vazio que se compra o silêncio dos escravos."



domingo, 2 de dezembro de 2012

$$$



“ O que outrora se fazia “por amor a Deus”, hoje se faz por amor do dinheiro, isto é, daquilo que hoje confere o sentimento de poder mais elevado e a boa consciência.”
Aurora - Nietzsche



"Como todos os seres oprimidos da historia, o escravo moderno precisa de seu misticismo e de seu deus para anestesiar o mal que lhe atormenta e o sofrimento que o sufoca. 
Mas este novo deus, a quem entregou sua alma, não é nada mais que nada. 
Um pedaço de papel, um número que apenas tem sentido porque todo mundo decidiu dar-lhe. 
É em nome desse novo deus que ele estuda, que ele trabalha, que ele luta e se vende. 
É em nome desse novo deus que abandonou seus valores e está disposto a fazer qualquer coisa. 
Ele acredita que quanto mais tem dinheiro mais se libertará dos problemas dentro dos quais ele está aprisionado. Como se a possessão andasse de mãos dadas com a liberdade. 
A liberação é uma ascese que provém do domínio de si mesmo; um desejo e uma vontade de atuar. 
Está no ser e não no ter. 
Porém é preciso decidir-se a não mais servir, nem obedecer. 
É preciso também romper com esse hábito que, ao parecer, ninguém ousa recriminar."

sábado, 1 de dezembro de 2012

Egos inflados

"Sem tempo para lidar com mediocridades. Não quero estar em lugares onde desfilam egos inflados. Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte... Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: "as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos". Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa.”

Rubem Alves



sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Há algo mais terrível que o despertar?


"Há sofrimento político, social, religioso; toda a nossa vida psicológica está em confusão, e todos os guias políticos e religiosos falharam: todos os livros perderam o seu valor. Abri o Bhagavad-Gita, ou a Bíblia e verificareis que perderam aquela ressonância, aquela qualidade de verdade; tornaram-se meras palavras. Mesmo aqueles que repetem essas palavras estão confusos e incertos .
Ora bem, qual é a causa dessa confusão, desse sofrimento? Tendes de descobrir por vós mesmos essa causa, conhecer a verdade nela encerrada, vê-la como realmente é. Ela indica, por certo, a derrocada de todos os valores morais e espirituais, e a glorificação de todos os valores sensoriais, das coisas feitas pela mão ou pela mente. Quanto mais valor atribuímos às coisas dos sentidos, tanto maior é a confusão.
Vedes o processo de desintegração a estender-se pelo mundo. A ordem social desaba, as várias organizações religiosas, as crenças, as estruturas morais e éticas, tudo está falhando. Na nossa chamada civilização - indiana, européia ou qualquer outra - generaliza-se a corrupção e vê-se toda sorte de atividades inúteis.
Nessas condições, será possível, a vós e a mim, nos tornarmos cônscios de todo esse processo de desintegração e, retirando-nos dele, como indivíduos, adotarmos a séria intenção de criarmos um mundo de espécie totalmente diversa, uma diferente espécie de cultura, de civilização? " 

(Krishnamurti )


domingo, 18 de novembro de 2012

o Homem e a Natureza


Ao romper do dia, sentei-me na campina, travando conversa com a Natureza, enquanto o Homem ainda descansava sossegadamente nas dobras da sonolência. Deitei-me na relva verde e comecei a meditar sobre estas perguntas:
Será a Beleza Verdade? Será Verdade a Beleza?
E em meus pensamentos vi-me levado para longe da humanidade. Minha imaginação descerrou o véu de matéria que escondia meu íntimo. Minha alma expandiu-se e senti-me ligado à Natureza e a seus segredos. Meus ouvidos puseram-se atentos à linguagem de suas maravilhas.
Assim que me sentei e me entreguei profundamente à meditação, senti uma brisa perpassando através dos galhos das árvores e percebi um suspiro como o de um órfão perdido.
“Por que te lamentas, brisa amorosa?” perguntei.
E a brisa respondeu: “Porque vim da cidade que se escalda sob o calor do sol, e os germes das pragas e contaminações agregaram-se às minhas vestes puras. Podes culpar-me por lamentar-me?”
Mirei depois as faces de lágrimas coloridas das flores e ouvi seu terno lamento... E indaguei: “Por que chorais, minhas flores maravilhosas?”
Uma delas ergueu a cabeça graciosa e murmurou: “Choramos porque o Homem virá e nos arrancará, e nos porá à venda nos mercados da cidade.”
E outra flor acrescentou: “À noite, quando estivermos murchas, ele nos atirará no monte de lixo. Choramos porque a mão cruel do Homem nos arranca de nossas moradas nativas.”
Ouvi também um riacho lamentando-se como uma viúva que chorasse o filho morto, e o interroguei: “Por que choras meu límpido riacho?”
E o riacho retrucou: “Porque sou compelido a ir à cidade, onde o Homem me despreza e me rejeita pelas bebidas fortes, e faz de mim carregador de seu lixo, polui minha pureza e transforma minha serventia em imundície.”
Escutei, ainda, os pássaros soluçando e os interpelei: “Por que chorais meus belos pássaros?”
E um deles voou para perto, pousou na ponta de um ramo e justificou: “Daqui a pouco, os filhos de Adão virão a este campo com suas armas destruidoras e desencadearão uma guerra contra nós, como se fôssemos seus inimigos mortais. Agora estamos nos despedindo uns dos outros, pois não sabemos quais de nós escaparão à fúria do Homem. A morte nos segue, aonde quer que vamos.”
Então o sol já se levantava por trás dos picos da montanha e coloria os topos das árvores com auréolas douradas. Contemplei tão grande beleza e me perguntei:
“Por que o homem deve destruir o que a Natureza construiu?”


( Khalil Gibran )

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Escuta, zé ninguem !


"Você advoga a felicidade na vida, mas a segurança tem para você significado muito maior, mesmo que ela lhe custe dobrar a espinha ou arrase com sua vida inteira. Como nunca aprendeu a agarrar a felicidade, a apreciá-la e protegê-la, falta-lhe a coragem da integridade. Será que devo lhe dizer, zé-ninguém, que tipo de homem você é? Você ouve propagandas no rádio, anúncios de laxantes, cremes dentais, graxa para sapatos, desodorantes e assim por diante. Não se dá conta, porém, da estupidez infinita, do abominável mau gosto dos cantos de sereia calculados para atrair sua atenção. Você algum dia chegou a prestar atenção às piadas de um comediante de boate a seu respeito? A respeito de você, dele mesmo e de todo o seu mundo desgraçado. Ouça bem seus comerciais de produtos para o melhor funcionamento dos intestinos e aprenda quem e o que você é."
 - Escuta, Zé Ninguém ( Wilhelm Reich )


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Intensidade

“Meu Amigo, não sou o que pareço.O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, que me protege de tuas perguntas e te protege da minha negligência.
Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio,e lá dentro permanecerá para sempre, despercebido, inalcançável. Não queria que acreditasses no que digo nem confiasses no que faço – pois minhas palavras são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, tuas próprias esperanças em ação.
Quando dizes: “O vento sopra do leste”, eu digo: “Sim, sopra mesmo do leste”, pois não queria que soubesses que minha mente não mora no vento, mas no mar. 
Não podes compreender meus pensamentos, filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. 
Gostaria de estar sozinho no mar.
Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. Contudo, mesmo assim falo do meio-dia que dança sobre os montes e da sombra de púrpura que se insinua através do vale: porque não podes ouvir as canções de minhas trevas nem ver minhas asas batendo contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. Gostaria de ficar a sós com a noite.
Quando ascendes a teu Céu, eu desço ao meu Inferno – mesmo então chamas-me através do abismo intransponível, “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”, e eu te respondo: “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”– porque não gostaria que visses meu Inferno.
A chama queimaria teus olhos, e a fumaça encheria tuas narinas. E amo demais meu Inferno para querer que o visites. Prefiro ficar sozinho no Inferno.
Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. E eu, por tua causa, digo que é bom e decente amar essas coisas. Mas, no meu coração rio-me de teu amor. Mas não gostaria que visses meu riso.Gostaria de rir sozinho. Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio.Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente.E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. 
Prefiro ser louco sozinho: Meu Amigo, tu não és meu Amigo,mas como te farei compreender? 
Meu caminho não é o teu caminho.Contudo juntos marchamos, de mãos dadas”.

( Khalil Gibran )

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Diferentes


‎"A alma dos diferentes é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da ternura humana de que só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo depois."

(Artur da Távola, ilustrando a "pós-normosidade")



sábado, 3 de novembro de 2012

Os Sete Eus


Os Sete Eus -
Na hora mais sossegada da noite, quando eu me encontrava meio adormecido, meus sete Eus sentaram-se e assim conversaram, em sussurro:
Primeiro Eu: Aqui, neste louco, tenho habitado todos os anos, sem coisa alguma a fazer senão renovar sua dor durante o dia e distrair sua tristeza à noite. Não posso suportar mais tempo meu fado e agora me rebelo.
Segundo Eu: Tua sorte é melhor que a minha, irmão, pois fui incumbido de ser o Eu alegre deste louco. Rio suas risadas e canto suas horas felizes, e com és de três asas danço seus mais brilhantes pensamentos. Eu é que devo rebelar-me contra minha fatigante existência.
Terceiro Eu: E que direi eu, o Eu do amor, o tição inflamado de bárbaras paixões e fantásticos desejos? Sou eu, o Eu doente de amor, que me revolto contra este louco.
Quarto Eu: Entre vós todos, sou o mais infeliz, pois nada me foi dado senão abominável ódio e aborrecimento destruidor. Sou eu, o Eu tempestuoso, o único nascido nas negras cavernas do Inferno, que devo protestar por servir este louco.
Quinto Eu: Não. Sou antes eu, o Eu pensante, o Eu fantasista, o Eu da fome e da sede, o único fadado a vagar sem descanso à procura de coisas desconhecidas e de coisas ainda não criadas. Sou eu, não vós outros, que devo revoltar-me.
Sexto Eu: E eu, o Eu trabalhador, o lastimável obreiro, que, com mãos pacientes e olhos ansiosos, afeiçôo os dias em imagens e dou aos informes elementos formas novas e eternas, sou eu, o solitário, que devo rebelar-me contra este louco sem repouso.
Sétimo Eu: Como é estranho que vós todos vos revolteis contra este homem por ter cada um de vós um destino determinado a cumprir. Ah, fosse eu como um de vós, um Eu com um destino determinado! Mas não tenho nenhum, sou o Eu sem ocupação, o que se senta calado e vazio em lugar algum e tempo algum, enquanto estais ocupados recriando a vida. Sois vós ou eu, companheiros, quem se deve revoltar?
Quando o sétimo Eu assim falou, os outros seis olharam-no com pena, mas não disseram mais nada. E, enquanto a noite ia ficando mais profunda, um após o outro foram adormecendo, envoltos numa nova e feliz submissão.



Mas o sétimo Eu permaneceu acordado a olhar para o nada, que está atrás de todas as coisas.

( Khalil Gibran )

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Personalidade

É fato que a sociedade moderna tambem promove a despersonalização. São  pessoas que não tem tempo nem interesse em  Ser, apenas Ter. Gritam  todos os dias "Eu !", 'Meu!"; mostram-se infantis nesse culto a persona (máscara) tão comum e visivel , supostamente rebeldes mas na superficie da  palavra, e individualistas  tão prontamente se apresentam  e se mostram, vagando em grande numero pela sociedade, vazios interiormente mas com um ego forte,  fortalecido em um egoismo distante com ausencia de uma "substancia" significativa 'a real personalidade como um todo em seu ser.
Ter personalidade caracteriza-se por experiencias interiores adquiridas por vivencias verdadeiras ou com "substancia" com seu semelhante, com a  sociedade, com as forças da natureza, com os animais, com o céu . É "algo" unido dentro de sí. É algo com  uma  luz própria.
Um culto 'a persona se mostra em assuntos superficiais, em focos ilusórios, externos. Poucos  desenvolvem uma personalidade radiante, pois além de raro, necessita de certo dom . O dom  de não   perder-se externamente. Seriam pessoas com algum  tipo carismatico , que fogem ao lugar  comum.
Ninguem desenvolve a personalidade em menos de proximos 40 anos de vida. Mas a maioria se perde e despersonaliza-se por toda  a  vida .

Medo do ego(ista): crítica


Sobre a crítica e a fuga do ego(ista) - 

Inquirir é justo, porém fomos acostumados a não perguntar, a não criticar; fomos cuidadosamente adestrados a nos opor. Por exemplo, se eu vos disser coisa que vos desgoste, começareis, naturalmente, a vos opor, porque a oposição é mais fácil do que averiguar se o que estou dizendo tem algum valor. Se quiserdes compreender ser crítico exige uma grande dose de inteligência. Criticismo não é cepticismo nem aceitação; essas coisas seriam igualmente insensatas, ao passo que a verdadeira crítica consiste, não em atribuir valores, porém, em procurar descobrir os verdadeiros valores. 

Krishnamurti


domingo, 21 de outubro de 2012

Vazio interior, carencia e busca

O que é que está sempre em movimento de carência? O que é que está sempre ansiando, procurando o atingimento? Dentro de nós, quer o admitamos, quer não, quer o sintamos conscientemente, quer não, existe um estado de pobreza, um vazio que procuramos encobrir, evitar. Isto é, o indivíduo sente em si um vazio, um aniquilamento, uma insuficiência. Enchemos, pois, esse vazio, essa solidão, com instrução, relações e haveres; e por isso as posses, as relações e a instrução se tornam extraordinariamente importantes - já que sem elas nos sentimos perdidos. Sem elas, ficamos face a face com nós mesmos, tais como somos; e, para fugir a isso, recorremos a todos os meios e acabamos ficando presos nas experiências dessas fugas. A experiência, sem dúvida, é uma distração, um processo de afastamento de nós mesmos. A carência é inteiramente diferente da busca. A carência indica vacuidade, o esforço para tornar-se alguma coisa, ao passo que a verdadeira busca conduz à compreensão profunda.

 ( Krishnamurti )




"Os seres humanos procuram o poder, querem ter o poder para fazer. Ilusão do poder, sempre limitado. Armadilha do ego fascinado." - 
Rémi Boyer - " Poeiras de Absurdidade Sagrada "

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Derrota


Derrota, minha Derrota, minha solidão e meu isolamento,
É para mim mais cara do que um milhar de triunfos,
E mais doce ao meu coração do que toda a glória do mundo.
Derrota, minha derrota, meu autoconhecimento e meu desafio,
Por ti sei que sou ainda jovem e de pés ligeiros 
E acima da cilada de lauréis que murcham.
E em ti encontrei a solidão
E a alegria de ser evitado e desdenhado.
Derrota, minha Derrota, minha brilhante espada e meu escudo,
Em teus olhos li
Que ser entronizado é ser escravizado,
E ser compreendido é ser rebaixado,
E ser alcançado beneficia apenas os outros
E, como um fruto maduro, cair e ser consumido.
Derrota, minha Derrota, minha ousada companheira,
Ouvirás minhas canções e meus gritos e meus silêncios,
E ninguém senão tu me falarás do bater das asas,
E da agitação dos mares,
E das montanhas que ardem à noite,
E só tu escaldarás as rochas e penhascos da minha alma.
Derrota, minha Derrota, minha coragem que nunca morre,
Tu e eu riremos juntos com a tempestade,
E juntos cavaremos tumbas para tudo o que morre em nós,
E ficaremos de pé ao sol com uma vontade indomável,
E seremos perigosos.

( Khalil Gibran )

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

( Des) Religare


"Estão convencidos de que o homem, espécie pecadora por excelência, domina a criação. Como se todas as outras criaturas tivessem sido criadas apenas para servir-lhes de comida, de roupa, para serem martirizadas e exterminadas.”

Isaac Bashevis Singer







"De todos os animais, o homem é o único que é cruel. É o único que inflinge dor pelo prazer de fazê-lo."
(Mark Twain)
------------
A ruptura do homem com a vida natural não fez dele um ser melhor- o fez cruel. Estudos vinculam religiao com o primeiro ato de matar algum animal, segundo o historiador das religiões Mircea Eliade em sua "História das crenças e das ideias religiosas": o homem, inicialmente, não matava nem para comer . Por isso Nietzsche diz dos homens: "somos animais adoecidos, que perdemos nossa saudável razão natural". Assim o homem multiplica sua crueldade , sendo ele o motivo da mesma existir e não que a natureza é cruel.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Sobre o Governo


Que se entende por "governo"? Pessoas investidas de autoridade, um pouco burocratas, membros de gabinete, o primeiro-ministro, etc. Isso é o governo? Quem o elege? Sois vós, não é verdade? Sois os responsáveis por ele, não é exato? Tendes o governo que desejais - então, porque reclamais?... Sois vós os responsáveis e não o governo, porque o governo é a projeção, o prolongamento de vós mesmos - os seus valores são os vossos valores... garanto que também quereis ser exploradores, na ocasião oportuna, e por isso sustentais este jogo... Senhores, deveria existir uma classe de pessoas independentes do governo, não pertencentes à sociedade, à margem da sociedade, — para atuarem como guias. Essas são os “açoitadores”, os profetas, que vos apontam vossos grandes erros. Mas não existe nenhum grupo desses, porque o governo, no mundo moderno, não pode apoiar um tal grupo, um grupo sem autoridade, que não pertence ao governo, que não pertence a nenhuma religião, casta ou nação. É só um grupo desses que pode atuar como um freio aos governos. Porque os governos se estão tornando cada vez mais prepotentes, pondo ao seu serviço uma maioria de seres humanos, e em conseqüência os cidadãos, em números cada vez maiores, se vão tornando incapazes de pensar por si mesmos. O governo os controla e lhes diz o que devem fazer. Assim, só quando existe um grupo daqueles, um grupo enérgico, inteligente, ativo, só então há esperança de salvação. De outro modo, todos nós vamos acabar como empregados do governo, e o governo mais e mais nos dirá o que devemos fazer, e nos ensinará o que pensar, e não a pensar.

( Krishnamurti )


“Que época terrível esta, onde idiotas dirigem cegos.”

(O Rei Lear - William Shakespeare)

O poder não é para ser conquistado, é para ser destruído.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Caos e valores


Existe um caos econômico motivado pela exagerada importância atribuída aos valores materiais. Procuramos resolvê-lo com o aumento dos valores materiais, produção de utilidades. Apelamos para a máquina, na busca de maiores satisfações, conferindo assim importância às coisas, à propriedade, ao nome e à casta. Em geral, estamos escravizados aos valores relativos aos sentidos, e o mundo ao redor de nós está organizado para aumentá-los e mantê-los.
 E como tais valores cada vez mais nos subjugam, envelhecemos sem reflexão, extenuados pela atividade externa, mas inativos e pobres interiormente. 
Todos necessitamos de vestuário, alimento e abrigo. Mas por que essas coisas assumiram tão tremenda importância, significação? 
As coisas assumem tal valor e significação desproporcionais, porque dependemos delas, psicologicamente, para o nosso bem-estar.
Elas nutrem a nossa vaidade; dão-nos prestígio social; fornecem-nos os meios de obtermos poder. Empregamo-las com o propósito de conseguir fins diversos dos que elas em si próprias significam. 
Muitos pensam " Dependemos das coisas porque somos pobres internamente e cobrimos essa pobreza do nosso ser com coisas", e essas acumulações externas, essas posses superficiais, tornam-se tão vitalmente importantes que por elas estamos dispostos a mentir, a fraudar, a lutar e a destruir-nos uns aos outros.
Tão importantes se tornaram, que, por causa delas, estamos matando, destruindo, massacrando, liquidando. Estamos nos abeirando de um precipício; cada uma de nossas ações está nos levando para lá; toda ação política, econômica, está fatalmente nos conduzindo para o precipício, arrastando-nos para aquele abismo caótico.
A avidez é um problema complexo. Viver no mundo da ganância sem ser ganancioso requer uma compreensão profunda; viver com simplicidade, ganhando a vida justamente, num mundo que está organizado sobre a base da agressão e da expansão econômica, só é possível para aqueles que estão descobrindo riquezas interiores.
(  Krishnamurti )



- Retiremos a vaidade de muitos, e veremos se algo sobra .

Jung certeiro :


" É um fato digno de nota que a moralidade da sociedade, como um todo, está na razão inversa do seu tamanho; quanto maior for o agregado de indivíduos, tanto maior será a adição de fatores coletivos e a obliteração dos fatores individuais. E a moralidade, que está baseada no sentido moral e no mérito do indivíduo também se estiola. Portanto, qualquer indivíduo é pior em sociedade do que quando atua por si só. 
Um grupo numeroso, ainda que composto de indivíduos decentes, equivale no tocante à moralidade e inteligência a um animal violento, estúpido e primitivo, e não a uma reunião de homens. Quanto maior for a organização, mais duvidosa será sua moralidade e mais cega sua estupidez. A sociedade, acentuando automaticamente as qualidades coletivas de seus indivíduos representativos, premia a mediocridade e tudo o que se dispõe a vegetar num caminho fácil e imoral. As personalidades individualizadas e diferenciadas são arrancadas pela raiz. 
Tal processo se inicia na escola, continua na Universidade e predomina em todos os setores dirigidos pelo Estado. "




Jung certeiro : Quanto maior a sociedade, maior a deterioração.

O bobo


O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando." 
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia. 
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski. 
Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranqüilo. Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu. 
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?" 
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama! 
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz. 
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem. 
Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

( Clarice Lispector )




quinta-feira, 6 de setembro de 2012

a Essência das coisas


A essência de tudo na terra, visível e invisível é espiritual.
Ao penetrar na cidade do invisível, meu corpo está envolto por meu espírito.
Assim quem desligar o corpo do espírito ou o espírito do corpo está desviando seu coração da verdade.
A flor e sua fragrância são uma coisa só; cegos são os que negam a cor e a imagem da flor, dizendo que ela é apenas perfume pairando no ar.
Eles se portam como aqueles deficientes de olfato, para quem as flores são apenas forma e colorido, sem perfume.
Tudo o que existe na natureza existe em ti, e tudo o que tens em ti existe na natureza.
Estás além do alcance das coisas mais próximas e, mais ainda, a distância não te separa das coisas que estão longe de ti.
Todas as coisas, das mais baixas às mais sublimes, das menores às maiores, existem dentro de ti como coisas iguais.
Num átomo, são encontrados todos os elementos da terra. Uma gota d’água contém todos os segredos dos oceanos.
Num momento da mente são encontrados todos os movimentos de todas as leis existentes.

( Khalil Gibran.)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ascensão

É no esforço e no trabalho individuais, através de atos instintivos e de vontade, num jogo de poder em todos os níveis e em todas as áreas, numa luta de superação de obstáculos, que faz o homem evoluir.
O homem comum, de massa, é dependente do seu grupo:

 "Ele é em grande parte, controlado pelas compulsões inconscientes dos instintos genéricos, pelas tradições coletivas e pelas emoções de massa... e como tal ele depende, para sua energia e mais ainda para seus motivos e metas, de fatores fundamentais dentro da vida da coletividade humana da qual constitui uma expressão diferenciada." (Rudhyar.) 
A sua vida está apoiada nos seus amigos, na sua corporação, no seu grupo social, na nação com que se identifica. Ele não é um in-divíduo, na verdadeira acepção do termo, ele é ovelha de um rebanho. Na sua inconsciência acha que todos os homens são iguais. Os pontos de apoio de sua personalidade são a fé cega e a segurança psicológica que o grupo oferece. 
"O homem massificado não tem valor; é uma simples partícula que perdeu a sua alma, isto é, o sentido de sua humanidade", afirma C. G. Jung.
O homem-massa é movido pelas paixões, amor e ódio, como magnificamente Padre Antônio Vieira, sintetiza as paixões humanas. A sua consciência é fragmentada, é um arquipélago, na citação de C. G. Jung, pois identifica cada coisa individual e separadamente, sem perceber o conjunto que, por sua vez, está inserido no todo. A sua percepção é dual e assume uma postura unilateral, determinada e dirigida. Num conceito amplo, ele está mergulhado na confusão porque não compreende as coisas do mundo. Ele está com uma verdade que se confunde com a verdade do seu grupo.
O homem comum segue um guia, um líder, uma autoridade, um mestre, um guru, um salvador. A sua religião exige vontade, disciplina, esforço e sacrifício para atingir a redenção ou a "iluminação".
A energia da vontade, entretanto, é naturalmente utilizada e direcionada pelo ego para o seu fortalecimento - querer é poder. A vontade inquebrantável, a disciplina, o esforço e o sacrifício poderão levar o ego à perfeição, mas não levarão o homem à iluminação, à Verdade, à Deus. No
entanto, somente aquele que aperfeiçoou o ego pode perdê-lo e assim, encontrar a sua verdade. Este não será um ato de vontade, mas acontecerá, quando menos esperar, por força da Lei que move a Vida, o Universo. A força da vontade passa agora para o domínio daquelas forças profundas, naturais e involuntárias que governam a vida (Nietzsche). Neste processo há a assimilação da "sombra":

 "A sombra representa, na realidade, o que falta a cada personalidade, ela é, para cada indivíduo, aquilo que ele poderia ter vivido e não viveu. ... Em geral, tomar consciência da sombra provoca conflitos que põem em causa os hábitos, as crenças, os laços afetivos e mais radicalmente os diversos espelhos da consciência de si. A experiência do que foi reprimido ou daquilo que ainda nunca chegou ao consciente desarticula o eu, faz com que perca seus pontos de apoio e mergulhe na obscuridade.
Pela assimilação da sombra, o homem como que assume o seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões." (Jung).
O processo de assimilação da sombra promove a ascensão, a saída do rebanho, a libertação dos condicionamentos, o início de uma experiência de vida independente e livre, embora relativa - afinal o homem por mais independente que seja, é escravo do ar que respira. 
Ascender significa elevar-se, aglutinar as ilhas da consciência fragmentada para chegar a percepção do todo.
Ao libertar-se do rebanho o ser humano perceberá que ele é um universo, e é único. Tomar consciência da sua individualidade é acentuar a percepção da sua diferença em relação aos outros e emancipar-se das normas coletivas. As verdades – sempre são subjetivas - dos grandes profetas, gurus, mestres iluminados e de qualquer outro ser humano serão adaptados à sua natureza, à sua individualidade, ao seu tempo e à sua realidade, porque toda verdade é relativa. Enquanto as ovelhas são forçadas a se adaptar à doutrina dos seus guias, o homem que se libertou saberá separar o acessório do principal, as doutrinas de efeitos efêmeros das verdades fundamentais.
A Lei que move o universo não pode ser ensinada porque a sabedoria resulta da vivencia direta. A função dos mestres é despertar as pessoas. As verdades dos grandes mestres representam diretrizes. Elas servem como sinalizações, são setas nos caminhos (Rohden) que cada um deve trilhar individualmente, superando obstáculos e dificuldades porque os caminhos são pessoais, não há duas vidas - duas vias - iguais. Assim como cada pessoa tem uma reação individual perante os acontecimentos da vida, cada um tem uma forma de superar as suas dificuldades. Determinado obstáculo pode ser superado com facilidade por uns e ser uma barreira quase intransponível para outros. O mérito, portanto, não reside na superação objetiva mas no esforço subjetivo. 

Salvadores somente existem na mente de pessoas inconscientes.
O homem que ascendeu está naquele nível de que nos fala Platão: 

"quem faz depender de si mesmo, se não tudo, quase tudo o que contribui para a sua felicidade, e não se prende a outra pessoa, nem se modifica de acordo com o bom ou mau êxito de sua conduta, está, de fato, preparado para a vida; é sábio, na verdadeira acepção do termo, corajoso e temperante."
Entretanto, consciente ou inconscientemente, cada um tem a sua verdade, com a diferença de que o homem comum apega-se a ela como uma coisa certa e definitiva e o sábio continua com a mente e o coração abertos ao novo.

o Mistério Supremo


" O que é o estado supremo da consciência? São Paulo chamou-o de “a paz que está além de todo entendimento” e R.M. Bucke designou-o de “consciência cósmica”. No Zen-budismo, emprega-se o termo satori ou kensho; no yoga, samadhi ou moksha e, no taoísmo, o “Tao Absoluto”. Thomas Merton utilizou, para descrevê-lo, a expressão “inconsciente transcendental”; Abraham Maslow criou o termo “experiência máxima”; os sufis falam de “Fana”. Gurdjieff qualificou-o de Consciência Objetiva”, ao passo que os Quacres chamam-no de “a Luz Interior”. Jung referiu-se à “Individuação”e Bubber falava da “conexão Eu-Tu”. Quaisquer que sejam, porém, os nomes dados a esse fenômeno antigo e bem conhecido — luz, iluminação, libertação, experiência mística —, todos eles dizem respeito a um estado de percepção radicalmente diferente de nossa compreensão comum, de nossa habitual consciência desperta, de nossa mente diária.

Além disso, todos concordam em qualificá-lo como o estado supremo da consciência: uma percepção autotransformadora de nossa união com o Infinito. Está além do tempo e do espaço. Trata-se de uma experiência da infinitude que é a eternidade, da unidade ilimitada com toda a criação. Nossa percepção sensorial do “eu”, socialmente condicionada, despedaça-se e destrói-se devido a uma nova definição da pessoa em si, do eu. Nesta redefinição da pessoa em si, torno-me idêntico a toda humanidade, a toda vida e ao universo. As habituais fronteiras do ego desfazem-se à medida que o ego ultrapassa os limites do corpo e, de súbito, torna-se um com tudo aquilo que existe. O eu torna-se integrado à Alma Superior, tal como Emerson a denominou (e talvez integrado ao que Arthur Clarke, em Childhood’s End, chamou de Mente Superior). O Eu torna-se abnegado, o ego surge como uma ilusão e o jogo do ego chega ao fim. O Maitrayana Upanishad expressa-se deste modo: “Após perceber seu próprio eu como o EU, um homem torna-se abnegado. (…) Este é o mistério supremo.”

John White

  Gerard Dorn, um alquimista do século XVI falava  sobre "principium individuationis" = origem de "individuação" ; Khalil Gibran  fala de um "despertar de algo no fundo dos fundos da alma onde quem o sente não o pode expressar em palavras"

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Ama a ti mesmo


A tão conhecida frase de Jesus “ama o teu próximo como a ti mesmo”, base de toda a doutrina das igrejas cristãs, é repetida, automaticamente, como a maior verdade de todos os tempos. A frase parte da premissa de que todo homem ama a si mesmo.
Nós somos um todo, corpo físico, mente e instintos. Quem condena e reprime os instintos que são parte essencial de cada indivíduo, quem se castra física ou psicologicamente, quem proíbe o prazer e a liberdade não gosta, não ama a si mesmo. Estes, entretanto, são os princípios de muitas Religiões.
Se observarmos a moral cristã, perfeitamente identificada por Nietzsche, perceberemos que o cristão não ama a si mesmo: 
“São os escravos e os vencidos da vida que inventaram o além para compensar a miséria; inventaram falsos valores para se consolar da impossibilidade de participação nos valores dos senhores e dos fortes; forjaram o mito da salvação da alma porque não possuíam o corpo; criaram a ficção do pecado porque não podiam participar das alegrias terrestres e da plena satisfação dos instintos da vida. Esse ódio de tudo que é humano, de tudo o que é “animal” e mais ainda de tudo o que é “matéria”, esse temor dos sentidos ... esses horror da felicidade e da beleza... tudo isso significa vontade de aniquilamento, hostilidade à vida, recusa em se admitir as condições fundamentais da própria vida”.
No entanto, somente pode questionar a moral cristã ou de qualquer outra religião o sábio, o homem consciente, o homem integral, que evoluiu, o homem movido pela Ética do Espírito (Rohden). 
Muitos confundem liberdade com o viver instintivamente, destruindo e matando a seu bel prazer. Este, entretanto, é alguém que ainda está na fase do “caçador”, e portanto, é escravo da ignorância. Nas histórias mitológicas, o “caçador” refere-se àquele que mata as coisas do mundo; se as mata é porque não as ama; se não as ama é porque não as compreende; se não as compreende é porque está mergulhado na confusão. 
Nietzsche é considerado um dos maiores sábios de todos os tempos e o “caçador” não irá compreendê-lo. Na verdade, muito poucos o compreendem. 
Podemos afirmar, então, que o homem inconsciente não conhece a si mesmo, não se compreende e, por isso, não se ama. Exatamente porque não se ama, como poderá amar o outro? 
Conhecer-se a si mesmo, inteiro, corpo, mente e coração, compreender-se a si mesmo, só assim é possível amar-se. Só assim é possível viver plenamente, em comunhão com o Todo e amar o próximo :seres humanos, animais, plantas, rios, lagos, oceanos, montanhas... como a si mesmo.

Democracia e voto: Ilusões

O tema é tão óbvio 'as  consciencias mais adiantadas que torna-se mui dolorido ao observar sua veracidade nos dias atuais: a quantidade de votos de pessoas inconscientes sempre será  em maior numero, porque
*justamente* toda a maquina desse atual sistema promove  exatamente isso. 
Leia  o artigo abaixo, de uma lucidez espantosa :


Platão dizia que a Aristocracia (o governo dos melhores) é uma  das mais perfeitas formas de governo. E quem são os "melhores" na visão de Platão? São os que têm virtudes superiores, ou seja, que são guiados por uma moralidade interior que nasce de suas consciências. Além disso, justamente por terem virtudes superiores, amam o conhecimento e a sabedoria (filos + sofia = Amor ao conhecimento). 
É um governo de filósofos (FILÓSOFOS, não de "bacharéis", nem de "mestres" nem de "doutores" em Filosofia das Academias), ou seja, daqueles que aplicam o conhecimento da Filosofia em suas próprias ações. Nesse sentido, o "governo" é a aplicação na sociedade da "aretê", ou seja, da excelência e da perfeição do conhecimento.
Para que haja uma aristocracia é necessário que se forme uma elite (verdadeira, ou seja, uma elite de virtuosos e sábios) e que essa elite consiga chegar ao poder. Uma vez instalada essa elite, a sociedade seria conduzida como uma criança em busca da educação e da virtude. Do meio dessa mesma sociedade seriam separados os elementos superiores, ou seja, os aríston (os melhores) que dariam sucessão à Aristocracia.
Platão também ensina que a monarquia é uma forma superior de governo. 
No entanto, outros filósofos, como Francis Bacon, disseram que a monarquia é inferior à aristocracia.
Por quê? Porque a monarquia é a redução dessa elite a um único indivíduo, que é investido da palavra final sobre todos os assuntos, além de ser cultuado como se fosse "superior" ao resto dos aríston. Sua superioridade não é efetiva, mas apenas simbólica. 
Na verdade, não há como garantir que o sujeito coroado seja realmente superior (em virtudes e conhecimento) aos outros membros da aristocracia. Além disso, o caráter dinástico da sucessão monárquica (o pai passa para o filho) priva a sociedade de ser governada pelos efetivamente melhores para que seja governada pelos que são pretensamente "melhores" (há pretensão de sua superioridade apenas por terem como ascendente um monarca). 
Ainda, com a substituição do mérito e da sabedoria do indivíduo pela mera descendência biológica, é criada uma tensão interna na sociedade todas as vezes que o monarca ou seus descendentes não ajam de acordo com a sabedoria e a virtude. No caso da aristocracia, todo aquele que age de forma não-virtuosa ou ignorante é automaticamente excluído da própria idéia de "aríston". 
Os outros aristocratas o excluirão sem nenhuma hesitação. Já no caso da monarquia, o monarca e seus descendentes continuam sendo  "realeza" mesmo se forem dissolutos, ignorantes e conspurcadores. 
O que garante o aríston é a aretê. O que garante o rei ou a nobreza palaciana é apenas a pretensão de sabedoria, virtude e dignidade conferidas pela "mística" em torno do direito divino dos reis. Se o rei for sábio e virtuoso, a monarquia será excelente para a sociedade. Se o rei for um ser execrando, a monarquia será uma desgraça para a sociedade.
No Brasil, por exemplo, Dom Pedro I foi o exemplo de tudo o que um monarca não devia ser. Seus escândalos familiares, sua arrogância e sua ignorância se tornaram proverbiais. Seu pai, Dom João VI, era covarde, poltrão, ganancioso e ignorante. A rainha Carlota Joaquina tinha sede incontrolável pelo poder e nenhum escrúpulo moral para obtê-lo.
A primeira leva de "nobres" no Brasil foi daqueles comerciantes que cederam imóveis para a família fugitiva de Dom João VI que, borrando de medo, correu para o Brasil para não enfrentar Napoleão e abandonou o povo português perdido em meio ao caos.
Dom Pedro II foi um monarca acadêmico, amante das ciências e das letras. No entanto, em muitas ocasiões, foi manipulado pela Igreja e pelas pressões da burguesia "nobilitada". No Brasil, quem quisesse ser "nobre" deveria fazer doações à coroa, bancar dívidas da família real, conceder-lhe  imóveis e pagar caro pela "Carta de Mercê de Nobreza e Fidalguia" além dos impostos para a manutenção do status. Isso fez com que a grande maioria da nobreza titulada do Brasil fosse composta por burgueses que tinham dinheiro suficiente para bancar tudo o que era necessário para ser "nobilitado". 
Virtude e sabedoria não eram nada diante das taxas exigidas para ser "nobre". Algumas famílias com ancestrais nobres em Portugal, que ostentavam brasões de armas nas quintas, tendo em vista os impostos que teriam que ser recolhidos para a manutenção do status de "nobreza",mandavam picar à marreta e cinzel os brasões esculpidos na pedra dos solares para evitar a sangria de dinheiro...
Pedro I distribuiu "apenas" 5621 condecorações além de numerosos títulos de "nobreza". Pedro II outorgou 2190 graus na Ordem de Aviz e 5.947 na Ordem de Cristo, somando 8.137  condecorações. 
A situação da "nobreza" do Brasil era tão bizarra e absurda que um deputado da época chegou a declarar que "estaria na ausência de condecorações e fitas, o índice mais seguro de dignidade e bons serviços" e José Bonifácio disse que a distribuição indevida de mercês e de títulos de nobreza "criava mais republicanos do que todas as maquinações democráticas". 
Desnecessário fazer aqui uma lista de atos vergonhosos e imundos cometidos por "nobres" e membros da "realeza". Basta lembrarmos dos infames casos extraconjugais do príncipe Charles, dos filhos de Charles e Diana a caírem bêbados pelas ruas sendo auxiliados pelos motoristas, da "bunda-molice" do Duque de Edimburgo a pedir autorização para Churchill deixá-lo dar nome aos próprios filhos...
Isso tudo demonstra claramente que, de fato, a monarquia é uma forma de governo inferior à aristocracia. A nobilitação dos indivíduos foi se tornando, a cada dia, menos dependente de qualquer virtude real.
A democracia é uma das piores formas de governo possível. Só perde para a tirania. Na verdade é uma "oligocracia"  travestida de "democracia". 
A oligocracia é o governo de poucos, ou seja, o governo dos capitalistas que detém o capital (os meios de produção)- ou modernamente os chamados Socialistas Fabianos. 
Na oligocracia há uma falsa doutrina de "igualdade de oportunidades" sendo que, na verdade, o que verdadeiramente governa é o sistema de classes sociais definidas pela capacidade de consumo. 
Quanto mais dinheiro, mais capacidade de consumo. Quanto mais capacidade de consumo, maior influência na sociedade e, consequentemente, maior capacidade de manipulação e de controle dos mecanismos sociais e de governo (a corrupção).
Aquele que pode comprar máquinas e produzir bens (meios de produção), domina os assalariados e cria alianças que garantam a manutenção de seu "status quo". Nesse caso estão os grandes empresários, os
latifundiários e outros capitalistas (origem tb  da corrupção). 
A idéia de que votar é o mesmo que governar é a maior mentira contada pelo discurso "democrático". O voto da massa é facilmente manipulado pela mídia, pelo marketing e pelo discurso de apelo emocional. 
Em outras palavras, quem tem mais dinheiro para comprar tudo isso tem infinitamente mais chances de ter o poder "democrático" (inclusive maior tempo na midia para impor maior inconsciencia). O povo, manipulado e ignorante, acredita votar "livremente" sendo que sequer se organiza para pensar em quem gostaria de ter como representante. É simplesmente jogado diante de nomes de candidatos impostos e deve "escolher" com base em seus "acertados" critérios de análise.
A sociedade "democrática" é dividida não pela propensão dos indivíduos, mas pela quantidade de dinheiro acumulada. Se a desigualdade na aristocracia é baseada na maior quantidade de sabedoria e virtude e a desigualdade monárquica é baseada na proximidade dos extratos sociais à realeza,  a desigualdade democrática é baseada na maior quantidade de dinheiro acumulada.
Em outras palavras: Na aristocracia (ideal), é superior quem é sábio e virtuoso. Na monarquia é superior quem agrada ao rei e aos seus. Na "democracia" (oligarquia) é superior quem tem mais dinheiro.

(original: http://chakubuku-aryasattva.blogspot.com.br/2012/06/aristocracia-monarquia-e-oligocracia.html )




-------------------
O que uma contenda jurídica ocorreria entre votos validos elegiveis e votos validos não-elegiveis *de forma alguma revela* , é que um presidente (governador,prefeito,etc) eleito com maioria acachapante de votos nulos e brancos dificilmente se manteria no cargo, dada a tamanha insignificância de votos válidos elegíveis e, sobretudo, a sua monstruosa rejeição. 

domingo, 19 de agosto de 2012

Reto caminho


Aquele que percebe a existência da dor e conhece sua causa, remédio e extinção, compreende as quatros nobres verdades e está no bom caminho. 
Seu reto propósito em ser a luz que ilumina seus passos, e a palavra verdadeira, o seu refúgio. 
Caminha em linha reta, porque reta é a conduta.

Buda


quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Culpa e Perdão


O ser humano já nasce culpado. Durante toda a sua vida aprende a se culpar. É culpado pelo pecado original; é culpado por não ser bonito, rico e inteligente, e é culpado porque seus filhos não são gênios nem santos. 
"A ancestral culpa humana, pela qual nos sentimos absolutamente condenados por crimes que não cometemos mas que é como se os tivéssemos cometido. Com requintes de crueldade que só a imaginação culposa será capaz. Mesmo quando somos nós mesmos as vítimas", diz Wilson Bueno.
 A ação praticada pelo homem motivada pela razão, pelo instinto ou pela emoção é um ato reflexo do seu caráter e da sua personalidade. É um ato essencialmente seu. Movido somente pelo instinto ou pela emoção o seu ato torna-se irracional, isto é, contrário à sua consciência moral. O sentimento de culpa é uma autocondenação com base nas leis draconianas da sua consciência formada pela sua educação moral. Culpado, busca o perdão.
Perdão, entretanto, não é algo que possa ser dado por um ser divino ou por qualquer outro ser humano. 
Perdão é algo que se dá a si mesmo. 
O perdão é a percepção, a compreensão íntima de que, pelas trevas da ignorância, agimos contra a Lei do Amor. 
Contra o Artigo Único, da Lei Única da Moral e da Ética: Ama o teu próximo como a ti mesmo. 
O próximo não é apenas o outro, mas o mundo que nos cerca, o planeta Terra em que vivemos. O perdão é a tomada de consciência de que o único mal que existe é a falta de amor, de união com o Todo.
A Lei Única foi desdobrada pela Religião em tantos códigos, leis, regulamentos, portarias, circulares e procedimentos que ela deixou de ser a Lei do Amor para transformar-se na Lei do Poder da Vontade dos Homens. Organizada pelas classes dominantes, classificada como revelação de Deus, foi criada a Justiça Divina. Pensamentos e palavras contrárias às "leis de Deus", rebeldia, independência e liberdade passaram a ser pecados. Pecados que geram culpa e que precisam do perdão, a ser concedido pelos "representantes" do Altíssimo. Este é o mundo do Ego. 
Nunca te arrependas de qualquer ação que tenhas cometido. "Não te acovardes diante de tuas ações! Não as repudies depois de consumadas! O remorso da consciência é indecente" afirma Nietzsche.
A vida é um eterno aprendizado e, portanto, é necessário errar. Só não erra quem não ousa, só não erra quem não luta, só não erra quem não age. Reconhecer, reparar e superar o erro é uma demonstração de altivez, é uma afirmação perante si mesmo, é uma demonstração da capacidade de vencer. 
O sábio aprende com seu erro, supera-o, e parte para novos desafios. O fraco quando age e erra se arrepende, se culpa e se acomoda.
A vida do ser humano pode ser pura, inocente e feliz baseada no amor. O inferno é criado pelo próprio homem que de gerações em gerações vai transmitindo as noções de pecado, culpa, castigo, recompensa e... de um Deus que está no céu.

domingo, 29 de julho de 2012

Experiencia de Luz


Abalam alicerces antes constituídos. Alguns se veem fora do corpo, outros veem alguma luz, outros ainda viajam pelos confins do Universo em algum "corpo diferente" , mas em todos a experiencia muda a visão da vida, da morte, de perguntas basicas como "qual sentido da vida" porque perde o sentido uma pergunta como essa. Certezas são construidas, muitas vezes baseadas no que aprenderam na fé e na crença, ou mesmo utilizando-se de alguma substancia quimica, mas tudo isso ainda é algo relativo ao "Eu" com seus conceitos próprios que não responde a Universalidade do fenomeno, porque justamente o fenomeno não é especifico a alguma crença que se carrega.
Há algo mais "além". Esse algo mostra que não podemos nos basear apenas no que nosso aprendizado e constituição nos formatou, mas sim podemos nos permitir expandir nossa visão do mundo. Alguma certeza pode ser criada sim, relativa 'a eternidade, mas ao mesmo tempo não há eternidade naquilo que é formado pelo Tempo. O Ego, o Eu, aquilo que faz parte da memoria que acumula-se durante a vida e morre, não pode ser aquilo que é imortal e atemporal, porque o que é atemporal não morre e evidentemente está fora do tempo.
Somos formados pelo tempo. Nos desenvolvemos formatados pelo que nos chega em nossa volta. Nossa consciencia é o que experienciamos, aprendemos, gostamos, evitamos, brigamos , fugimos ou aceitamos. Somos e/ou nos iludimos profundamente com nossa memoria.
Existem pontos de vista quanto ao fenomeno. Um diametralmente oposto ao outro. Duas maneiras de pensar digladiam-se: Materialismo e Espiritualismo. Um nos diz que somos produto da materia e com a morte, desapareceremos.O outro modo nos diz que temos algo que é e faz parte da imortalidade, e todos nascem com isso.
Experiencias são explicadas pelos dois pontos de vista. Basicamente um ponto de vista nos diz que naqueles que tais experiencias ocorrem, algumas interações quimicas cerebrais provocam mudança do foco da consciencia, enquanto o outro ponto de vista nos diz basicamente o contrário: a mudança do foco da consciencia promove alterações quimicas no cerebro. Há dentro desses dois pontos de vista, outros fatores também, como alucinaçoes, alterações promovidas por drogas, auto-ilusão, etc. São estados alterados de consciencia. Sabemos que a mente, mente. Um exemplo clássico é visualizar imagem de santa em alguma deformação em vidros. Ocorre que há fenomenos na qual experiencias são relatadas não na fronteira da propria morte, muito menos pelo consumo de drogas, menos ainda pelo treinamento para tais experiencias, ou mesmo promovida pela Ciencia em seus experimentos provocado em alguma parte do cerebro.
Como explicar fenomenos onde visualiza-se a mesma imagem que um outro ser humano está vivendo no mesmo instante? Há , dizem, outra explicação. Essa não passa pelos polos radicais e opostos daqueles dois pontos de vista, sem antes uni-los , sem antes ultrapassa-los, transcende-los, e desse modo expandir-se na compreensão. Essa necessita de muito aprofundamento na alta espiritualidade, junto 'a  Metafísica - muito além que simples explicações tentam promover.