segunda-feira, 5 de maio de 2014

A Extrema Crueldade


"Existe uma grande variedade na crueldade religiosa: mas três tipos são os mais importantes. Sacrificavam-se homens ao Deus e precisamente aqueles mais amados entre os outros — a esta categoria pertenciam os sacrifícios das primícias, comum a todas religiões pré-históricas e também o sacrifício do imperador Tibério na gruta de Mitra na ilha de Capri, o mais horrível de todos os anacronismos romanos. Depois durante a época moral da humanidade sacrificou-se ao próprio Deus os próprios instintos mais poderosos, a “natureza”; a alegria de tais sacrifícios brilha no olhar cruel do asceta, do fanático contra-natura. Finalmente o que restava a sacrificar? Não se chegaria ao ponto de sacrificar tudo aquilo que havia de confortante, de sagrado, de sadio, a ponto de sacrificar a esperança, a fé numa secreta harmonia, na beatitude e na justiça eterna? Não se devia sacrificar ainda a Deus e por crueldade contra si mesmo adorar a pedra, a estupidez, a força da gravidade, o destino, o nada?

Sacrificar Deus ao nada — este mistério paradoxal da extrema crueldade foi reservado à geração presente: todos nós já sabemos alguma coisa."

- Nietzsche : Além do Bem e do Mal (3 Parte- O caráter religioso)

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